Quando o zagueiro boliviano afastou a última bola e o árbitro apitou o encerramento no Estádio Monterrey, na noite de 1º de abril, jogadores iraquianos caíram no chão não apenas de alívio esportivo — mas de exaustão real. Boa parte deles havia levado três dias para chegar ao México, cruzando a fronteira para a Jordânia de carro porque o espaço aéreo do Iraque estava fechado por causa dos ataques da coalizão EUA-Israel ao Irã. A vitória por 2 a 1 sobre a Bolívia, com gols de Ali Al-Hamadi e Aymen Hussein, encerrou um jejum de exatos 40 anos dos Leões da Mesopotâmia em Copas do Mundo.

Uma jornada que começou décadas antes do apito inicial

A única participação anterior do Iraque num Mundial também havia sido no México — em 1986, quando a seleção perdeu as três partidas da fase de grupos sem marcar um gol sequer. Quatro décadas depois, a história se repetiu em solo mexicano, mas desta vez com final diferente. O paralelo geográfico é quase irônico: o país retornou ao futebol global no mesmo território onde havia sofrido sua estreia traumática.

A conquista da vaga, contudo, esteve ameaçada até o último momento por razões que nada tinham a ver com futebol. A federação iraquiana informou que a Iraqi Airways e o Ministério dos Transportes do país comunicaram o fechamento do espaço aéreo nacional por pelo menos quatro semanas, após os ataques ao Irã iniciados no fim de março. O resultado prático foi imediato: cerca de 40% do elenco ficou impossibilitado de embarcar normalmente. O técnico Graham Arnold, que mora nos Emirados Árabes Unidos, chegou a ficar retido em Dubai sem poder se movimentar. Embaixadas fechadas em Bagdá impediam ainda a obtenção de vistos mexicanos para membros da comissão técnica e da equipe médica, boa parte delas sediada no Catar.

Uma jornada que começou décadas antes do apito inicial Guerra, espaço aéreo fech
Uma jornada que começou décadas antes do apito inicial Guerra, espaço aéreo fech
"Se o jogo for mantido no México, vamos ter dificuldades para sair de Bagdá. Cerca de 60% dos meus jogadores atuam no Iraque, toda a minha comissão técnica mora no Iraque", declarou Arnold à CNN, ao justificar o pedido formal de adiamento feito à Fifa.

A entidade não aceitou o pedido de adiamento, mas a classificação veio mesmo assim — depois de uma logística de guerra literal. A delegação que conseguiu chegar a Monterrey fez parte do trajeto de carro, atravessando o território jordaniano para escapar do bloqueio aéreo. Representar 46 milhões de pessoas, nas palavras do próprio Arnold, nunca tinha custado tanto.

A blindagem mental como tática principal

Graham Arnold, que em 2022 conduziu a Austrália às oitavas de final no Catar — fase na qual os Socceroos eliminaram a Dinamarca antes de perder para a Argentina — chegou ao jogo da repescagem com uma preocupação que transcendia qualquer esquema tático. O australiano de 62 anos identificou que seu maior adversário não estava no campo, mas nas telas dos celulares de seus atletas.

"Eu bani as redes sociais desde o dia em que chegamos aqui. Não queria que eles pensassem no que está acontecendo no Oriente Médio, pois precisavam focar na missão que tínhamos em mãos", explicou o treinador após a classificação.

A estratégia de isolamento informacional foi complementada por um trabalho psicológico específico. Arnold instruiu os jogadores a focarem em si mesmos e em seus núcleos familiares mais próximos, evitando a sobrecarga emocional de pensar no país inteiro em estado de alerta. "Há tanta coisa acontecendo no Oriente Médio; se eles pensarem muito nisso, vai afetá-los psicologicamente", justificou o técnico, que revelou ter passado parte significativa da preparação lidando com o aspecto mental do elenco.

O levantamento do SportNavo sobre jogadores convocados mostra a dimensão da diáspora iraquiana no futebol: Ali Al-Hamadi, autor do primeiro gol em Monterrey, joga pelo Luton Town na Inglaterra e se mudou para Liverpool ainda criança, em 2003, quando a invasão americana ao Iraque começou. Hoje, aos 24 anos, foi justamente ele quem abriu o placar aos 9 minutos da repescagem — cabeceando após escanteio cobrado por Amir Al-Ammari com precisão cirúrgica.

O jogo que reescreveu a história em 90 minutos

A partida em Monterrey seguiu um roteiro dramático clássico das repescagens mundialistas. O Iraque começou melhor, abriu 1 a 0 com Al-Hamadi, mas levou o empate ainda na primeira etapa: Ramiro Vaca cruzou da entrada da área, Moisés Paniagua dominou de primeira e bateu para o fundo do gol. O atacante boliviano, que atua no Marrocos, pegou todos de surpresa e colocou a classificação iraquiana em xeque.

A Bolívia pressionou e por momentos pareceu que viraria, mas a insistência iraquiana prevaleceu na segunda etapa. Aymen Hussein marcou o gol da vitória e, com ele, encerrou a espera de quatro décadas. O Iraque tornou-se a 48ª e última seleção a garantir vaga no Mundial de 2026, disputado nos Estados Unidos, México e Canadá entre 11 de junho e 19 de julho. Arnold entrou para os livros de recordes como o segundo técnico australiano a classificar duas seleções diferentes para as fases finais de uma Copa do Mundo.

"Temos planos A, B e C. O plano A é que o conflito no Oriente Médio termine — e se isso acontecer, provavelmente estarei em um avião na semana seguinte para voltar a Bagdá", disse Arnold ao ge, ainda antes da repescagem, sobre os planos de preparação para o Mundial.

O grupo I e a promessa de chocar o mundo

A análise do SportNavo sobre o sorteio revela que o Iraque caiu no grupo mais midiático do torneio. No Grupo I, os Leões da Mesopotâmia enfrentarão a França de Kylian Mbappé, a Noruega de Erling Haaland e o Senegal. Arnold já conhece a seleção francesa — em 2022, sua Austrália perdeu por 4 a 1 para os atuais vice-campeões mundiais na fase de grupos, mas o técnico usa aquela derrota como referência positiva: foi justamente depois dessa goleada que os australianos venceram Tunísia e Dinamarca.

A preparação para o Mundial ainda depende dos rumos do conflito regional. O plano ideal de Arnold inclui um amistoso de despedida em Basra, no sudeste do Iraque, em maio, antes de uma temporada de treinos na Espanha. Se a guerra impedir o retorno a Bagdá, a concentração começa diretamente em território espanhol, com um grupo expandido de convocados que só será reduzido a 26 nomes até 1º de junho, prazo final da Fifa para entrega das listas. O Iraque abre sua participação no Mundial em data ainda a ser confirmada pela organização do torneio.