Fevereiro de 2026. A assinatura de Tom Aspinall com a Matchroom Talent Agency, de Eddie Hearn, parecia mais um movimento de gestão de carreira do que uma declaração de guerra. Menos de quatro meses depois, o campeão peso-pesado do UFC está parado — e a ordem partiu diretamente do seu novo agente.
Aspinall na mira de Hearn e o contrato que virou estopim
A posição de Hearn é objetiva e não deixa margem para interpretação. Segundo ele, Aspinall recebe algo em torno de um cinquenta avos da receita total de um evento em que seria o nome central. Isso, para o promotor britânico, é inaceitável — e ele usou exatamente essa linguagem ao Bloody Elbow.
"Não vou deixar Tom Aspinall lutar pelo dinheiro que está no contrato dele. Estar envolvido numa luta contra Pereira ou Gane por literalmente um cinquenta avos da receita do show? Dane-se, não vou deixar ele fazer isso."
Hearn foi além da reclamação salarial. Revelou que Aspinall passou por quatro cirurgias nos olhos e questionou publicamente se o campeão deveria arriscar a saúde por valores que ele classifica como "ultrajantes". A narrativa de exploração de atletas, bem orquestrada, transforma uma disputa contratual num debate ético de alcance muito maior.
Dana White e Hearn — uma rivalidade que vem de antes de Aspinall
Quem acompanha o mercado de combate sabe que Hearn e Dana White não se suportam há anos. A tensão ganhou novo combustível quando o UFC fechou um acordo de boxe com Conor Benn — exatamente o lutador que Hearn promoveu na Inglaterra e que esteve no centro de uma polêmica com substâncias proibidas em 2022. Para Hearn, o UFC entrou no boxe pagando bem aos seus contratados enquanto mantém os próprios lutadores em contratos restritivos.
A dinâmica lembra o enredo de Moneyball: de um lado, uma organização que controla as regras do jogo e dita o que cada atleta vale; do outro, um agente externo que chegou com planilha na mão e recusou aceitar o status quo. A diferença é que Billy Beane tinha o Oakland Athletics — Hearn tem o campeão dos pesados.
"É hora de os lutadores do UFC pararem de ser otários e entenderem que essas pessoas estão se aproveitando deles. Não têm problema em pagar fortunas para boxeadores, mas não querem pagar os lutadores do UFC."
Dana White, historicamente, não recua sob pressão pública. Seu histórico com UFC mostra padrão claro: quando agentes ou lutadores tentam forçar renegociações por meio da mídia, a resposta costuma ser silêncio institucional seguido de pressão contratual. Hearn conhece esse playbook — e parece ter decidido jogar diferente, pedindo a liberação de Aspinall antes mesmo de entrar em negociação direta.
O que está em jogo para Aspinall e para o peso-pesado do UFC
O cenário esportivo torna o impasse ainda mais delicado. O UFC planejava que Aspinall enfrentasse o vencedor de Alex Pereira vs. Ciryl Gane, luta marcada para o UFC White House Card, ainda em junho de 2026. Pereira é o nome comercial mais valioso da organização no momento; Gane é o desafiante técnico mais completo da divisão. Qualquer dos dois contra Aspinall seria a principal disputa dos pesados em anos.
O argumento dos que defendem Aspinall aceitar as condições atuais é simples: o lutador tem 31 anos, está no pico da carreira e cada mês parado é um mês a menos de janela competitiva. Hearn refuta com dado concreto — quatro operações oftalmológicas significam que Aspinall já pagou um preço físico alto demais para aceitar remuneração desproporcional ao risco. A assimetria entre receita gerada e salário recebido é, segundo o próprio Hearn, um número que ele prometeu revelar publicamente caso as negociações avancem.
Conforme registrado pelo SportNavo, Hearn já solicitou formalmente a liberação de Aspinall do contrato com o UFC na semana passada — um movimento que, na prática, serve mais como pressão negociadora do que como pedido com expectativa real de aprovação. O UFC raramente libera campeões ativos. A próxima rodada dessa disputa acontece fora do octógono, nas mesas de negociação, com o UFC White House Card se aproximando e a luta Pereira vs. Gane prestes a criar um novo desafiante oficial — com ou sem a presença de Aspinall para recebê-lo.








