Quando o árbitro apitou o encerramento da prorrogação neste sábado (25/04), o Al-Ahli havia acabado de confirmar o bicampeonato asiático da maneira mais dramática possível: com apenas nove jogadores em campo, um gol de Al-Buraikan no início do tempo extra e dois brasileiros entre os protagonistas da conquista. A vitória por 1 a 0 sobre o Machida Zelvia, do Japão, encerra uma campanha que mistura resiliência coletiva e inteligência tática — qualidades que qualquer torcedor de Arsenal ou Atlético de Madrid reconheceria instantaneamente.
A muralha chamada Ibañez
Há algo quase poético em ver Roger Ibañez organizar uma defesa com inferioridade numérica. O zagueiro brasileiro, que construiu boa parte de sua carreira europeia na Roma — clube acostumado a travar batalhas épicas no Olímpico de Roma — foi destaque no sistema defensivo do Al-Ahli ao longo de toda a campanha continental. A expulsão de Hawsawi ainda no segundo tempo poderia ter desmoronado o bloco saudita, mas o gegenpressing defensivo que a equipe sustentou nas fases finais mostrou um grupo com maturidade coletiva acima da média do futebol asiático.
Ibañez representa exatamente o tipo de perfil que os clubes do Golfo têm buscado com crescente sofisticação: um defensor de alto nível técnico, capaz de conduzir a bola, fazer a saída de jogo e liderar a linha nos momentos de pressão. Com o Machida Zelvia apostando em transições rápidas — característica marcante do futebol japonês desde os tempos do pressing alto implementado por Óscar García na J1 League — segurar o resultado com dez e depois nove homens foi uma proeza defensiva considerável.
Matheus Gonçalves e a inteligência ofensiva
Se Ibañez sustentou a estrutura, Matheus Gonçalves foi o fio condutor nas ações ofensivas ao longo da campanha. O jovem brasileiro, que integrou o elenco ao lado de Galeone e Ricardo Mathias, representa uma geração de jogadores formados no Brasil com capacidade técnica imediata para atuar em contextos táticos mais sofisticados. No futebol europeu, esse tipo de meia-atacante fluido seria descrito como um número 10 moderno — aquele que conecta linhas sem depender de posição fixa.
A aposta saudita em brasileiros com perfil técnico apurado não é novidade, mas a conquista asiática dá uma dimensão diferente a essa estratégia. Conforme levantamento do SportNavo, o Al-Ahli é um dos clubes da Saudi Pro League que mais tem investido na combinação entre estrelas estabelecidas e jovens talentos sul-americanos, criando um blend que poucos imaginavam possível há cinco anos no futebol árabe.
O gol que decidiu e a tensão dos nove contra onze
Al-Buraikan foi o herói improvável. Logo no início da prorrogação, o atacante saudita aproveitou a oportunidade e marcou o único gol da partida — aquele tipo de gol que os ingleses chamam de against the odds, marcado exatamente quando o adversário sentia que a balança pendia a seu favor. Nos minutos finais, a expulsão de Abdulrahman reduziu o Al-Ahli a nove jogadores, cenário que tornava qualquer reviravida japonesa matematicamente plausível. O Machida Zelvia, porém, não conseguiu furar o bloqueio.
O 0 a 0 no tempo regulamentar já havia revelado as características do confronto: dois sistemas bem organizados, com o clube japonês apostando na movimentação coletiva típica do futebol asiático oriental e o Al-Ahli priorizando a solidez defensiva. Nenhuma das equipes conseguiu romper o equilíbrio nos 90 minutos — o que torna o gol da prorrogação ainda mais valioso como ato final de uma campanha construída tijolo por tijolo.
O que este título diz sobre o futebol saudita
Na avaliação do SportNavo, o bicampeonato asiático do Al-Ahli não é um acidente de percurso nem produto exclusivo dos petrodólares injetados no futebol da região. Há uma construção tática consistente, um projeto de elenco que mistura experiência europeia — como a de Ibañez — e criatividade brasileira jovem, como a de Matheus Gonçalves. O modelo lembra, em escala menor, o que o PSG tentou montar nos anos pós-Qatar: uma equipe com identidade internacional, capaz de competir em diferentes contextos.
Com o título, o Al-Ahli assegura vaga na Copa Intercontinental da FIFA de 2026 e também no Mundial de Clubes de 2029. No próximo ciclo, o clube saudita terá a chance de medir sua evolução contra os melhores do planeta — e os brasileiros Ibañez e Matheus Gonçalves estarão no centro dessa história, com um bicampeonato asiático no currículo e um estágio decisivo pela frente.








