A última vez que uma entrada em tornozelo de um camisa 10 brasileiro gerou crise de arbitragem numa Copa do Mundo foi em 2006, na Alemanha, quando Zidane e Ronaldo dominavam as manchetes — mas o Brasil saía nos pênaltis para a França com a memória de lances duvidosos que custaram Ronaldinho. Vinte anos depois, o nome mudou para Vini Jr., o lateral é Achraf Hakimi, e a voz que ergue o tom de acusação pertence a Zlatan Ibrahimović. O empate entre Brasil e Marrocos na estreia da Copa do Mundo 2026 já não é apenas um resultado — é o ponto de partida de uma polêmica que pode redefinir o debate sobre a qualidade da arbitragem neste Mundial.

O lance que Ibrahimović não esquece

Hakimi avançou sobre Vini Jr. com a sola da chuteira em direção ao tornozelo do atacante brasileiro. O árbitro esloveno Slavko Vinčić marcou a falta, exibiu o cartão amarelo e seguiu o jogo. Para Ibrahimović, que acompanhava a partida e se manifestou em entrevista ao canal Fox Sports, a decisão foi insuficiente e tecnicamente errada.

"Hakimi fez uma entrada imprudente no tornozelo de Vini Jr. com a sola da chuteira. Quando vi a jogada, minha reação foi simples: o árbitro deveria ter intervindo e expulsado o jogador."

O sueco foi além da crítica pontual ao lance e tocou numa questão estrutural que a FIFA tenta resolver há anos: a proteção ao atleta de alto rendimento dentro de campo. Nas palavras do ex-atacante do Milan, Barcelona e PSG, a sequência da jogada tornava o perigo evidente antes mesmo do contato.

"Não se trata de reputação ou do momento da partida, mas da segurança do atleta. O atacante já havia passado por ele, o perigo era evidente e a entrada de Hakimi foi muito tardia."

Do ponto de vista regulamentar, a Lei 12 do Jogo da FIFA estabelece que uma entrada com a sola da chuteira em direção à perna do adversário, com força excessiva ou imprudência grave, enquadra-se em conduta violenta — passível de cartão vermelho direto, independentemente de o contato ter causado lesão. O VAR, que revisou o lance, manteve a decisão do árbitro de campo. A ausência de intervenção do sistema eletrônico é o ponto que mais incomoda os analistas especializados.

Vinčić recebe nota 3 e o VAR entra no banco dos réus

O portal espanhol Archivo VAR, referência na avaliação técnica de arbitragem em competições de alto nível, atribuiu nota 3 de 10 ao desempenho de Slavko Vinčić no duelo entre os Leões do Atlas e a Seleção Brasileira. A justificativa do site foi direta: o árbitro demonstrou incapacidade de controlar os nervos da partida, acumulou erros de julgamento e gerou insatisfação nos dois lados do campo — o que, em tese, seria um sinal de neutralidade, mas na avaliação dos especialistas indica apenas inconsistência.

Vinčić tem histórico controverso em competições europeias. Em 2020, foi detido em operação policial relacionada a suspeitas de manipulação de resultados na Eslovênia — investigação que foi arquivada sem condenação, mas que deixou uma sombra sobre seu nome. A FIFA o manteve na lista de árbitros internacionais e o escalou para a Copa 2026, decisão que voltou a ser questionada após o jogo no MetLife Stadium.

  • Nota do Archivo VAR ao árbitro Vinčić na partida: 3 de 10
  • Justificativa: erros de julgamento acumulados e perda do controle emocional da partida
  • Lance de Hakimi em Vini Jr.: cartão amarelo aplicado, VAR manteve decisão sem intervenção
  • Enquadramento regulamentar possível: conduta violenta — artigo 12 da Lei do Jogo FIFA

O custo do empate para o Brasil no Grupo C

O tropeço na estreia colocou o Brasil na terceira posição do Grupo C ao final da primeira rodada. Historicamente, a Seleção Brasileira nunca foi eliminada na fase de grupos de uma Copa do Mundo — mas o cenário de 2026 tem particularidades. Com 48 seleções e a nova estrutura de grupos com três times se classificando por chave, o risco de eliminação precoce é menor em termos matemáticos, mas o empate inaugural cria uma pressão desnecessária sobre uma equipe que ainda busca sua identidade sob Carlo Ancelotti.

O impacto sobre Vini Jr. vai além do resultado. O atacante do Real Madrid encerrou a partida com 11 perdas de bola e apenas um gol — números que já circulavam nas análises antes mesmo da polêmica do lance de Hakimi. A falta no tornozelo, mesmo sem afastá-lo do jogo, gerou preocupação nos bastidores da comissão técnica sobre o estado físico do jogador para a sequência do torneio. Ancelotti ainda não confirmou se haverá alguma mudança na utilização de Vini Jr. na próxima partida.

O próximo passo

A recuperação começa na próxima sexta-feira, dia 19, às 21h30, quando o Brasil entra em campo no Lincoln Financial Field, na Filadélfia. O adversário ainda depende dos resultados da segunda rodada do Grupo C, mas a equipe precisará de vitória para retomar o controle da classificação.

O efeito cascata na credibilidade da arbitragem no Mundial

Quando a Copa de 2022 terminou, o relatório da FIFA sobre arbitragem apontou que 91% das decisões de cartão vermelho revisadas pelo VAR foram consideradas corretas. A edição de 2026 começa com um episódio que questiona exatamente esse índice — não porque o VAR errou de forma grosseira, mas porque manteve uma decisão que especialistas de peso, como Ibrahimović, consideram tecnicamente insuficiente.

A crítica do sueco tem peso institucional além da opinião pessoal: Ibrahimović ocupa desde 2024 o cargo de diretor de desenvolvimento do AC Milan e transita nos corredores da UEFA com frequência. Quando alguém com esse perfil vai ao ar numa emissora de alcance global para questionar a arbitragem de uma partida de Copa do Mundo, o efeito vai muito além das redes sociais. A FIFA terá de responder — e a resposta, ou a ausência dela, já é em si uma declaração sobre os padrões que o torneio pretende impor.

É o mesmo cenário que a Seleção Italiana viveu em 2002, quando foi eliminada pela Coreia do Sul em meio a decisões de arbitragem amplamente contestadas — só que agora a aposta é diferente: existe VAR, existe tecnologia de rastreamento e existe um mundo conectado que não aceita silêncio como resposta.