"Podem entrar de manhã e no mesmo dia têm de sair." Quem disse isso não foi um roteirista de thriller político — foi o embaixador iraniano no México, Abolfazl Pasandideh, durante uma entrevista coletiva realizada neste sábado, 6 de junho, na cidade de Tijuana. A frase resume, em 13 palavras, a condição mais absurda que uma seleção já enfrentou às vésperas de uma Copa do Mundo.

A base de Tijuana e a fronteira que virou campo de batalha diplomático

O calor seco de Tijuana não estava nos planos originais. A Copa do Mundo 2026 foi desenhada com o Irã concentrado em Tucson, no Arizona — cidade americana, clima árido, estrutura montada. Depois que os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã começaram em 28 de fevereiro, esse plano virou pó. A Federação Iraniana de Futebol negociou às pressas uma transferência para Tijuana, cidade mexicana colada na fronteira com a Califórnia, a poucos quilômetros do território que, ao mesmo tempo, hospeda e proíbe a equipe.

A delegação embarcou de Ancara em direção à Espanha neste sábado e deve chegar à base mexicana na madrugada de domingo. Antes disso, toda a equipe já havia passado por consulados na capital turca para solicitar vistos — canadenses para todos, americanos para os jogadores que ainda não tinham o documento desde antes da guerra. A liga doméstica iraniana foi suspensa após os bombardeios, deixando a maioria dos atletas sete semanas sem competição. O técnico Amir Ghalenoei chegou à Copa com um grupo que mal conseguiu treinar junto, muito menos jogar.

14 membros da comissão sem visto — e os EUA chamam isso de concessão

Na sexta-feira, 5 de junho, a embaixada americana na Turquia anunciou, com certa pompa, que os vistos para os jogadores e para a "comissão técnica essencial" haviam sido concedidos. O embaixador Tom Barrack celebrou o ato como prova de boa-fé americana. A resposta iraniana foi imediata e furiosa.

A base de Tijuana e a fronteira que virou campo de batalha diplomático Irã entra
A base de Tijuana e a fronteira que virou campo de batalha diplomático Irã entra
"Por que vocês não dizem que vistos foram negados a grande parte da comissão técnica, assessores técnicos e outros que são parte integrante de qualquer seleção nacional de futebol?" — Embaixada do Irã em Ancara, em publicação nas redes sociais respondendo diretamente a Barrack.

A Federação Iraniana de Futebol confirmou: 14 membros da comissão tiveram visto negado, entre eles o vice-presidente Mehdi Mohammad Nabi e o secretário-geral Hedayat Mombini. O embaixador Pasandideh mencionou 15 pessoas ainda sem autorização de entrada. A entidade iraniana afirmou que essa situação "efetivamente negou à seleção iraniana a oportunidade de disputar em condições de igualdade", e pediu à FIFA que responsabilize os EUA por violação das regras do torneio como país coanfitrião.

Três jogos nos EUA, viagem relâmpago em cada um — e a FIFA no meio

A agenda do futebol iraniano na fase de grupos é toda em solo americano: 15 de junho contra a Nova Zelândia em Los Angeles, 21 de junho contra a Bélgica, também em Los Angeles, e 26 de junho contra o Egito em Seattle. Três entradas. Três saídas. Três dias em que a delegação precisará cruzar a fronteira de manhã, jogar uma partida de Copa do Mundo e retornar ao México antes da meia-noite.

O transporte entre Tijuana e as cidades-sede poderá ser feito por avião particular ou por terra, conforme orientação da FIFA — e Pasandideh foi enfático: "Nós respeitamos todas as decisões que a FIFA tomar." A entidade máxima do futebol, até agora, não se pronunciou publicamente sobre os vistos negados à comissão técnica, embora a embaixada iraniana tenha cobrado formalmente uma posição.

14 membros da comissão sem visto — e os EUA chamam isso de concessão Irã entra e
14 membros da comissão sem visto — e os EUA chamam isso de concessão Irã entra e
"Nenhuma seleção consegue funcionar sem seu staff completo. Imagina um jogador com dores musculares sem o fisioterapeuta de confiança, ou uma dúvida tática sem o analista que conhece o vídeo do adversário. Isso não é desvantagem — é sabotagem logística." — Analista de preparação física com experiência em Copas do Mundo, ouvido pela reportagem do SportNavo.

Se avançar para as oitavas, o Canadá espera — e a Copa vira outra operação

Há um detalhe que torna o cenário ainda mais intrincado: se o Irã passar da fase de grupos, os jogos de mata-mata acontecerão no Canadá. Toda a equipe já solicitou vistos canadenses em Ancara — esse processo correu com menos turbulência do que o americano. A lógica de entrar e sair no mesmo dia não se aplicaria ao país vizinho, onde a delegação poderia, em tese, se instalar normalmente entre as partidas.

O Irã estreia no Grupo G em 15 de junho, daqui a nove dias. A logística está traçada, os vistos dos jogadores estão emitidos e a base em Tijuana está sendo preparada. O que ainda não está claro é se a comissão técnica incompleta — sem o vice-presidente da federação, sem o secretário-geral — conseguirá operar com a eficiência mínima que uma Copa exige. É o mesmo cenário que a seleção do Iraque viveu em 2006, quando restrições burocráticas atrasaram a chegada de membros da delegação à Alemanha — só que agora a aposta é diferente: o conflito é real, a fronteira é física e o relógio já está correndo.