O relógio marca menos de uma semana para a estreia, e o vestiário iraniano já carrega uma instrução que pode mudar o rumo de um jogo inteiro — ou de uma Copa. Não é tática de campo. É política pura. O ministro do Esporte do Irã, Ahmad Donyamali, confirmou nesta quarta-feira, 10 de junho, que os atletas da seleção estão formalmente orientados a deixar o gramado caso ouçam slogans políticos durante as partidas da Copa do Mundo.
"Informamos à Fifa que os membros da seleção deixariam a partida assim que ouvissem slogans políticos nos estádios", declarou Donyamali ao portal iraniano Varzesh3.
A declaração foi feita com o torneio na iminência de começar — a primeira bola rola nesta quinta-feira, 11, com México e África do Sul — e chega num contexto em que a presença iraniana na Copa já é, por si só, um campo minado.
A geopolítica que entrou em campo antes do apito inicial
O conflito entre Irã e Estados Unidos não é pano de fundo: é o próprio cenário. Desde fevereiro, os dois países estão envolvidos em um conflito armado ativo, e a Copa, sediada em parte nos EUA, jogou a seleção iraniana no coração dessa tensão. Em março, o presidente Donald Trump chegou a questionar publicamente a presença iraniana no torneio.
"A seleção iraniana de futebol é bem-vinda para a Copa do Mundo, mas eu realmente não acredito que seja apropriado eles estarem lá, para sua própria vida e segurança", escreveu Trump em sua rede social Truth.
Nos últimos dias, Trump anunciou em entrevista à Fox News que pode ordenar novos ataques a usinas de energia e pontes no Irã. O Irã, por sua vez, já atacou a Quinta Frota Naval dos EUA, estacionada no Bahrein. O futebol, nesse contexto, virou um palco diplomático com chuteiras. A ONU também entrou no debate: o Alto Comissário para os Direitos Humanos, Volker Türk, criticou as políticas migratórias americanas após casos envolvendo a própria delegação iraniana — que precisou ser transferida de um centro de treinamento no Arizona para o México após conflitos com autoridades de imigração.
A bandeira persa e o risco de abandono por um símbolo
A instrução de saída de campo não se limita a slogans verbais. Os líderes iranianos comunicaram à Fifa que apenas a bandeira oficial atual do país deve ser reconhecida como legal dentro dos estádios. A bandeira persa — que retrata um leão e um sol e é amplamente usada por iranianos da diáspora como símbolo de resistência ao regime — foi explicitamente vetada. Caso ela apareça nas arquibancadas sem que a Fifa tome providências, a seleção também abandonará o jogo, segundo as declarações oficiais.
O detalhe geográfico transforma essa ameaça em algo muito mais concreto: os dois primeiros jogos do Irã acontecem em Los Angeles, cidade com uma das maiores populações de iranianos emigrados do mundo. A estreia será na terça-feira, 16 de junho, contra a Nova Zelândia. Cinco dias depois, no dia 21, o adversário é a Bélgica. Ambas as partidas em Los Angeles, no Grupo G. O terceiro jogo, contra o Egito, ocorre em Seattle, no dia 27 — e aí vem o problema.
A comunidade iraniana nos EUA, em sua maioria oposta ao regime de Teerã, é exatamente o público que carrega a bandeira persa. A probabilidade de que esses símbolos apareçam nas arquibancadas de Los Angeles é alta. A pergunta que a Fifa ainda não respondeu com clareza é: o que ela fará quando isso acontecer?

O que a Fifa pode — e não pode — controlar nesse cenário
A interpretação dominante é que a Fifa, ao ser informada sobre a posição iraniana, precisa agir preventivamente para evitar um abandono de partida sem precedentes na história dos Mundiais. Esse é o argumento dos que acreditam que a entidade vai endurecer o controle de manifestações políticas nas arquibancadas — algo que já foi testado, com resultados mistos, na Copa do Catar em 2022, quando bandeiras LGBTQ+ foram confiscadas na entrada de estádios.
A contra-leitura, porém, é igualmente sólida: a Fifa não tem como controlar o que 70 ou 80 mil pessoas carregam num estádio em Los Angeles. Proibir a bandeira persa em solo americano, num contexto de liberdade de expressão garantida pela Primeira Emenda, seria juridicamente frágil e politicamente explosivo. O Alto Comissário da ONU, Volker Türk, em matéria do SportNavo já abordada, sinalizou que a pressão sobre os EUA e a Fifa tende a crescer ao longo do torneio.
A síntese honesta é que nenhum dos dois lados tem uma saída limpa. O Irã corre o risco de protagonizar o abandono mais polêmico da história das Copas por algo que acontece nas arquibancadas, não no gramado. A Fifa corre o risco de ser acusada de censura política se tentar suprimir símbolos da diáspora iraniana. E os EUA, sede do torneio, carregam o peso de uma política migratória que já barrou árbitros, deteve jogadores e expulsou fotógrafos — tudo antes da primeira bola rolar.
O relógio marca menos de uma semana para a estreia, e o vestiário iraniano já carrega uma instrução que pode mudar o rumo de um jogo inteiro — ou de uma Copa. A diferença é que agora o mundo inteiro está olhando para Los Angeles.








