Confesso: eu errei sobre o Irã em 2024. Quando a tensão diplomática entre Teerã e Washington começou a escalar, escrevi que o futebol seria poupado — que a Copa do Mundo funcionaria como uma espécie de zona neutra, onde a bola rola acima das bandeiras. Hoje, a 9 de junho de 2026, com o torneio a menos de uma semana de começar, eu vejo o tamanho do meu engano.
A Federação de Futebol do Irã (FFIRI) anunciou nesta terça-feira que os Estados Unidos revogaram a cota de 8% dos ingressos que cada uma das 48 federações participantes tem direito de distribuir para seus torcedores. O comunicado foi divulgado pela mídia estatal semioficial iraniana e gerou uma onda de revolta: torcedores que já tinham ingressos em mãos — adquiridos desde o sorteio, em dezembro — ficaram sem resposta. Nem a FIFA nem o governo americano se pronunciaram oficialmente até o fechamento desta reportagem.
A seleção que dorme no México e joga nos EUA
Quem acompanha essa história sabe que a situação logística do Irã já era absurda antes mesmo da revogação dos ingressos. A delegação está concentrada em Tijuana, no México — e não em Tucson, no Arizona, como estava planejado antes do acirramento do conflito diplomático. O motivo é direto: vários dirigentes da FFIRI tiveram vistos negados para entrar nos Estados Unidos. A solução encontrada foi cruzar a fronteira apenas nos dias de jogo e retornar ao México logo depois. A equipe não tem permissão para permanecer em solo americano entre as partidas.
O primeiro jogo está marcado para 16 de junho, em Inglewood — área metropolitana de Los Angeles —, contra a Nova Zelândia, às 22h (horário de Brasília). Depois, o Irã enfrenta a Bélgica no mesmo estádio em 21 de junho, às 16h. A fase de grupos fecha em 27 de junho, em Seattle, diante do Egito, à meia-noite. Três jogos. Três cruzamentos de fronteira. Zero torcida organizada.
O que a ausência de torcida faz com um time dentro de campo
Tem um dado que pouca gente cita nessa discussão: em Copas do Mundo disputadas em território neutro ou hostil, o fator psicológico da torcida adversária não é abstrato — ele é mensurável. Estudos de desempenho em jogos de alto nível mostram que equipes que atuam sem apoio nas arquibancadas tendem a apresentar queda de até 12% nas métricas de pressão ofensiva nos primeiros 20 minutos, justamente o período em que o ambiente do estádio é mais determinante.

Para o Irã, a equação é ainda mais delicada. A seleção iraniana tem uma relação histórica intensa com sua torcida — os jogos da equipe nacional no país são eventos de comoção popular, mesmo em meio a restrições políticas internas. Arrancar esse elemento em um torneio do porte de uma Copa do Mundo não é detalhe operacional. É amputar parte da identidade da equipe.
"Um jogador que não ouve seu idioma nas arquibancadas joga com metade da alma. A outra metade fica presa na fronteira." — ex-treinador de seleção sul-americana, em conversa com jornalistas durante o Media Day da Copa
Em matéria do SportNavo publicada anteriormente, já havíamos mapeado as dificuldades logísticas da delegação iraniana. O que não estava claro então era a extensão do bloqueio: agora, com a cota de ingressos revogada, a comunidade iraniana nos próprios Estados Unidos — que poderia suprir parte da ausência dos torcedores vindos do Irã — também fica sem acesso garantido às partidas.
O precedente Infantino e o silêncio que pesa mais que qualquer declaração
Há uma frase do presidente da FIFA, Gianni Infantino, de 2017, que volta a circular nas redações esportivas com força total. Na época em que os dirigentes americanos preparavam a candidatura conjunta com Canadá e México — que venceria no ano seguinte —, Infantino foi taxativo: "É óbvio que qualquer equipe, incluindo seus torcedores e dirigentes, que queira se classificar para uma Copa do Mundo precisa ter acesso ao país, caso contrário não há Copa do Mundo." Eram outras circunstâncias políticas. Mas a frase continua lá, datada, pública e cada vez mais incômoda.
O silêncio da FIFA diante do caso iraniano — somado ao episódio do árbitro da Somália que teve a entrada negada nos EUA no último fim de semana e foi proibido de participar do torneio — cria um padrão que vai além do futebol. A entidade foi contatada para comentar a revogação dos ingressos e não respondeu. Esse vazio institucional é, por si só, uma resposta.
Três jogos, uma janela e o que o Irã ainda pode fazer
A seleção iraniana chega ao Grupo F com a Nova Zelândia, a Bélgica e o Egito como adversários. No papel, tem condições de avançar — especialmente se vencer o jogo de abertura contra os neozelandeses no dia 16. Mas jogar em Los Angeles sem nenhum setor da arquibancada vibrando em farsi, depois de cruzar a fronteira de Tijuana de ônibus no mesmo dia, é uma condição que nenhum preparador físico ou psicólogo esportivo consegue simular em treino.
A FFIRI ainda não descartou medidas legais ou um recurso formal junto à FIFA antes do início da competição. O prazo é curto — o torneio começa em 15 de junho, com a abertura no Azteca —, mas a federação iraniana já demonstrou disposição para levar a disputa até o limite. É o mesmo cenário que a seleção da Iugoslávia viveu nos anos 1990, isolada diplomaticamente e jogando Copas sem o calor de sua torcida — só que agora a aposta é diferente: o mundo está assistindo, e o silêncio nas arquibancadas de Los Angeles vai falar mais alto do que qualquer declaração oficial.








