Uma seleção mais unida do que estava há 48 horas. Esse é o paradoxo que o Japão levou para o campo neste domingo contra a Holanda, em Dallas: a fratura no pé de Wataru Endo — capitão, pilar defensivo e símbolo de uma geração — poderia ter fragmentado o grupo às vésperas da estreia. Em vez disso, o choque produziu coesão. A questão sociológica, e também tática, é saber se coesão emocional se converte em eficiência competitiva contra uma das seleções europeias mais bem estruturadas da Copa do Mundo.
O precedente de 2022 e o que mudou na liderança japonesa
Há um precedente útil para entender o que o Japão enfrenta. No Qatar, em 2022, a seleção também chegou ao torneio com dúvidas sobre identidade tática e, sobretudo, sobre quem assumiria o protagonismo fora de campo. Naquela ocasião, foi Endo quem preencheu esse vácuo — não apenas como jogador, mas como figura de referência institucional dentro do vestiário. Agora, aos 33 anos, o meio-campista do Liverpool fraturou o pé esquerdo e rompeu um ligamento em fevereiro, contra o Sunderland, tentou se recuperar a tempo, disputou 45 minutos de um amistoso contra a Islândia, sentiu dores persistentes e foi substituído. A decisão de anunciar a aposentadoria da seleção veio logo depois. Suas palavras foram precisas:
"Desde a minha lesão, fiz tudo o que era possível até este momento, portanto não tenho arrependimentos. Daqui para frente, vou torcer pelo Japão como mais um torcedor."A diferença em relação a 2022 é que, desta vez, a ausência é permanente — e o substituto precisou cruzar quase 40 horas de viagem com atrasos para chegar a Dallas.
Itakura e a geometria da liderança emergencial
Ko Itakura, zagueiro do Ajax, foi escolhido como novo capitão. A transição não é trivial. Endo operava como volante de contenção, organizador da saída de bola e referência comunicativa entre a linha defensiva e o meio-campo — uma função que, em termos de mercado, o Liverpool avaliou a ponto de mantê-lo como titular em boa parte da temporada 2025/2026 da Premier League. Itakura é um defensor de linha, com perfil diferente: sua liderança é posicional, não circulatória. A reunião de emergência realizada na sexta-feira à noite, em Dallas, reuniu o novo capitão com Yuto Nagatomo — em sua quinta Copa do Mundo consecutiva, aos 39 anos, um dado que seria injusto chamar de longevidade — é uma longevidade em escala quase mitológica para o futebol moderno —, além de Maya Yoshida e Takumi Minamino, ambos fora do time titular mas com capital simbólico acumulado. Nagatomo foi direto:
"Disse a todos que esta pode ser a sua última Copa do Mundo. Não existe isso de 'você é jovem, terá outra chance.' Quatro anos para um futebolista não são tão simples assim... Você tem que lutar como se fosse a última vez."
O impacto dessa fala sobre um grupo que havia acabado de perder o capitão titular não deve ser subestimado. Pesquisas em psicologia esportiva aplicada — como as conduzidas pelo grupo de Silvia Arias-Estero na Universidade Politécnica de Madrid — indicam que intervenções de liderança sênior em momentos de crise grupal elevam significativamente o índice de coesão percebida antes de competições de alto estresse. O Japão, ao convocar seus veteranos para essa função, operou com inteligência organizacional.
Machino, a camisa 6 e o peso de um número
Shuto Machino, atacante do Borussia Mönchengladbach, herdou não apenas a vaga de Endo no grupo, mas também a camisa 6. Aos 26 anos, ele já havia sido convocado de última hora no Qatar, em 2022, para substituir o lesionado Yuta Nakayama — e não entrou em campo em nenhum minuto. A repetição do padrão não passou despercebida pelo próprio jogador:
"Talvez eu tenha nascido sob essa estrela. Há uma responsabilidade, junto com muitas outras coisas, pesando sobre mim com essa camisa. Mas quero que este seja um torneio que faça Wataru, ao me assistir jogar, sentir-se feliz por eu ter sido quem o substituiu."Machino embarcou com o passaporte em mãos quando recebeu o chamado inesperado e chegou a Dallas menos de sete horas depois — após uma viagem de quase 40 horas com conexões atrasadas.
Há também uma dimensão simbólica que ultrapassa o campo: Virgil van Dijk, capitão da Holanda e companheiro de Endo no Liverpool, havia cedido a braçadeira ao japonês durante uma excursão pré-temporada ao Japão no ano passado, num gesto que a imprensa local tratou como momento histórico. Os dois não se enfrentarão nesta Copa — mas Van Dijk liderará exatamente a seleção que o Japão precisa superar para começar bem no Grupo F.

O que os dados dizem sobre o Japão sem seu pivô defensivo
A ausência de Endo expõe uma vulnerabilidade estrutural que vai além do aspecto emocional. Nas Eliminatórias Asiáticas para esta Copa, o Japão acumulou 54 gols marcados em 18 partidas — média de 3,0 por jogo —, mas boa parte desse volume ofensivo dependia da capacidade de Endo em recuperar a bola rapidamente no terço médio e iniciar transições. Sem ele, Moriyasu terá de reconfigurar a dinâmica de pressão e saída de bola, provavelmente recuando Itakura para uma função híbrida entre defesa e primeiro passe.
A Holanda, por sua vez, chega ao confronto com Van Dijk como âncora defensiva e com histórico recente de solidez em grandes torneios — vice-campeã da Copa do Mundo de 2010 e finalista da Nations League em 2019. O confronto deste domingo, no AT&T Stadium, em Dallas, às 15h (horário de Brasília), é o primeiro jogo do Grupo F para ambas as seleções. O Japão sabe que uma derrota não encerra a campanha, mas sabe também que uma vitória sobre a Holanda, assim como ocorreu contra a Alemanha e a Espanha no Qatar, reposicionaria o futebol asiático numa conversa que o continente europeu ainda reluta em ter de forma igual.








