— Você viu que tem jornalista que não vai conseguir entrar nos EUA para cobrir a Copa?
— Sério? Mas eles têm credencial da Fifa e tudo.
— Têm. O problema não é o futebol. É o visto.

Esse diálogo, repetido em redações de Lagos a Teerã nas últimas semanas, resume uma crise que vai muito além da burocracia consular. A menos de sete dias do início da Copa do Mundo, a Associação Internacional de Imprensa Esportiva (AIPS) enviou carta formal à Fifa relatando que jornalistas regularmente credenciados — especialmente iranianos e africanos — tiveram pedidos de visto negados ou receberam autorizações com restrições que inviabilizam a cobertura plena de um torneio disputado em três países.

A denúncia da AIPS e o que ela revela sobre a cobertura do Mundial

O presidente da AIPS, Gianni Merlo, não escolheu palavras brandas ao dirigir-se à Fifa na quinta-feira, 5 de junho.

"Estamos diante de um problema antigo e inaceitável para nós, jornalistas: a recusa de vistos de entrada a colegas regularmente credenciados. Há muitos casos: colegas iranianos, colegas africanos, alguns dos quais receberam vistos de entrada única. Se a equipe deles jogar no Canadá ou no México e eles acompanharem a viagem, não poderão retornar aos Estados Unidos."

O visto de entrada única é, na prática, uma armadilha logística. A Copa do Mundo 2026 começa em 11 de junho e distribui jogos entre 16 cidades nos três países-sede. Um jornalista que acompanha a seleção iraniana, por exemplo, pode precisar cruzar para o México ou o Canadá e, com esse tipo de autorização, ficaria impedido de retornar ao território americano. A cobertura jornalística, que pressupõe mobilidade, torna-se estruturalmente impossível.

Merlo ainda apontou o custo financeiro do atraso: profissionais perderam passagens compradas com antecedência e acumularam despesas adicionais consideráveis enquanto aguardavam respostas dos consulados americanos. Trata-se de um prejuízo real, concentrado em jornalistas de países com menor poder aquisitivo médio e menor capacidade de absorver imprevistos orçamentários.

A interpretação dominante e a contra-leitura que ela esconde

A narrativa mais imediata enquadra o problema como falha administrativa — um gargalo consular num período de alta demanda, algo corrigível com boa vontade diplomática e pressão institucional. A Fifa, ao reconhecer o recebimento da carta, reforçou exatamente esse enquadramento ao lembrar que a entrada nos países-sede depende das autoridades migratórias nacionais, não da entidade.

Mas essa leitura apaga o padrão geográfico da exclusão. Não são jornalistas de qualquer país que estão sendo barrados: são profissionais do Irã — nação sob sanções americanas desde 1979, com relações diplomáticas inexistentes com Washington — e de países africanos, muitos deles com histórico de negativas sistemáticas de visto nos EUA. A socióloga Arlie Hochschild cunhou o conceito de "fronteiras emocionais" para descrever como políticas formalmente neutras reproduzem hierarquias preexistentes. O que se observa aqui é exatamente isso: uma política migratória que, ao aplicar critérios uniformes de "risco", produz resultados desiguais segundo linhas geopolíticas e raciais bem definidas.

Merlo tocou nesse ponto ao afirmar:

"Os políticos sempre dizem que o esporte une e constrói pontes entre jovens de países em conflito, mas, neste caso, estamos indo na direção oposta."
A frase é diplomaticamente comedida, mas o diagnóstico é preciso: o discurso universalista do futebol colide com a arquitetura real do controle de fronteiras.

O que a Fifa pode — e o que ela escolhe não fazer

A resposta da Fifa ao problema revela muito sobre os limites da governança esportiva global. A entidade sediada em Zurique arrecadou aproximadamente 11 bilhões de dólares com os direitos comerciais da Copa do Mundo 2022, no Catar. Tem capacidade financeira e influência política para negociar condições específicas com países-sede — e historicamente o faz, inclusive em matéria de legislação trabalhista e tributária. Exigir garantias de acesso consular para jornalistas credenciados como condição contratual da candidatura-sede não seria inédito nem desproporcional.

Há precedentes. Para a Copa de 2014, o Brasil firmou acordos específicos com países sem relações diplomáticas plenas para facilitar a entrada de torcedores. Para o Mundial do Catar, a Fifa negociou exceções a leis locais que afetariam diretamente a operação do torneio. A ausência de mecanismo equivalente para vistos de jornalistas em 2026 não é uma limitação técnica — é uma escolha política.

Num país como os EUA, onde a liberdade de imprensa está inscrita na Primeira Emenda da Constituição e é invocada como valor civilizatório em fóruns internacionais, a ironia de barrar jornalistas estrangeiros credenciados para cobrir o maior evento esportivo do planeta tem a densidade de uma contradição estrutural — do tipo que, no compasso da Lapa de quinta-feira, qualquer mesa de bar resolveria em dez minutos de conversa, mas que instituições multilionárias levam meses para sequer reconhecer.

A AIPS aguarda resposta concreta da Fifa antes de 11 de junho. Caso a entidade não apresente uma solução até a abertura do torneio — prevista para o MetLife Stadium, em Nova Jersey —, a organização avalia tornar públicos os casos individuais de jornalistas afetados, com nomes e países de origem, o que transformaria o impasse burocrático numa crise de imagem de proporções consideráveis. Publicado em matéria do SportNavo, o caso já levanta uma questão que a Copa não conseguirá ignorar por muito tempo: se a Fifa aceitar sediar o próximo Mundial em país com histórico semelhante de restrições a jornalistas de determinadas regiões do mundo, que cláusulas de acesso à imprensa ela exigirá como condição inegociável do contrato?