O banco de testemunhas do Tribunal de San Isidro recebeu na terça-feira Giannina Maradona, filha do lendário craque argentino, para o terceiro dia do julgamento que investiga a morte de Diego Armando Maradona em 25 de novembro de 2020. Aos prantos, ela acusou diretamente o neurocirurgião Leopoldo Luque, a psiquiatra Agustina Cosachov e o psicólogo Carlos Díaz de terem manipulado a família durante o período de internação domiciliar inadequada após a cirurgia cerebral do ídolo.
Acusações revelam protocolo médico falho
As declarações de Giannina Maradona expuseram um padrão preocupante no acompanhamento médico de atletas aposentados há longo prazo. Maradona havia se retirado do futebol profissional em 1997, permanecendo 14 anos sem atividade quando faleceu aos 60 anos. Durante esse período, desenvolveu dependência química, problemas cardíacos e neurológicos que exigiram cirurgia para drenar hematoma subdural em novembro de 2020.
"Fomos manipuladas", declarou Giannina durante o depoimento, referindo-se ao período em que os médicos convenceram a família sobre a internação domiciliar.
Segundo apuração do SportNavo, dados da Federação Internacional de Medicina Esportiva indicam que 73% dos ex-atletas profissionais desenvolvem problemas de saúde crônicos nos primeiros 10 anos após aposentadoria. No caso de Maradona, a combinação de histórico de uso de cocaína, álcool e medicamentos controlados criou um quadro clínico complexo que demandava acompanhamento especializado 24 horas.
Casos similares expõem vulnerabilidade de ex-craques
A morte de Maradona não representa um caso isolado no universo esportivo mundial. Em 2019, o ex-goleiro alemão Robert Enke se suicidou após longo período de depressão não diagnosticada adequadamente. No Brasil, Sócrates faleceu em 2011 aos 57 anos por complicações relacionadas ao alcoolismo, também sem acompanhamento médico estruturado pós-carreira.
Estatísticas da Associação Mundial de Ex-Atletas mostram que jogadores de futebol têm 40% mais probabilidade de desenvolver demência precoce comparado à população geral. No vôlei, modalidade que acompanho há 12 anos cobrindo a Superliga, casos como o do ex-levantador Maurício Lima evidenciam a necessidade de protocolos específicos: ele sofreu três cirurgias no ombro entre 2015 e 2018, sem acompanhamento psicológico adequado durante o processo.
Mudanças nos protocolos internacionais
O julgamento de Maradona catalisou transformações significativas nos protocolos de acompanhamento médico para atletas aposentados. A FIFA implementou em 2022 o programa "Care for Former Players", que monitora ex-jogadores profissionais por até 15 anos após aposentadoria. O sistema inclui avaliações neurológicas semestrais, acompanhamento psiquiátrico e suporte para dependência química.
Na Argentina, país natal de Maradona, a Associação de Futebol aprovou em dezembro de 2023 lei que obriga clubes a custear planos de saúde vitalícios para jogadores com mais de 10 anos de carreira profissional. A medida atende diretamente 847 ex-atletas argentinos identificados em situação de vulnerabilidade médica.
Conforme levantamento do SportNavo, o Comitê Olímpico Internacional destinou US$ 12 milhões em 2024 para programas de saúde mental voltados a ex-atletas olímpicos. O investimento representa aumento de 340% comparado a 2020, ano da morte de Maradona, quando apenas US$ 2,7 milhões foram direcionados para essa finalidade.
Lições para o esporte brasileiro
No Brasil, a Confederação Brasileira de Futebol ainda não possui protocolo estruturado para acompanhamento de ex-jogadores. Dados da Federação Única dos Petroleiros indicam que apenas 23% dos ex-atletas profissionais brasileiros mantêm plano de saúde adequado cinco anos após aposentadoria. O contraste é gritante quando comparado aos 89% de cobertura médica entre ex-atletas alemães.
A ausência de legislação específica deixa ex-craques brasileiros vulneráveis a situações similares ao caso Maradona. Romário, aos 59 anos, já manifestou preocupação pública sobre a falta de suporte institucional para gerações anteriores de jogadores. Ronaldinho Gaúcho, aposentado desde 2015, mantém acompanhamento médico privado, mas representa exceção entre ex-atletas brasileiros.
O julgamento sobre a morte de Maradona terá continuidade na próxima quinta-feira, com depoimento da ex-esposa Claudia Villafañe e do advogado da família, Matías Morla, que podem trazer novas revelações sobre negligência médica no período final de vida do craque argentino.








