"Mal posso esperar para liderar nossa equipe em mais uma Copa do Mundo." A frase foi publicada nas redes sociais na véspera de um jogo que, para milhões de ingleses, carrega peso muito maior do que qualquer estreia de fase de grupos. Quem escreveu foi Harry Kane, maior artilheiro da história da seleção inglesa — e o homem que, em 2018, marcou seis gols na Rússia, ganhou a chuteira de ouro do torneio e mesmo assim voltou para casa sem a medalha que a Inglaterra esperava há décadas.
A partida desta quarta-feira (17), às 17h (horário de Brasília), no AT&T Stadium, em Arlington, coloca os Three Lions diante exatamente da seleção que os eliminou naquela semifinal de Moscou: a Copa do Mundo tem dessas ironias que nenhum roteirista ousaria escrever. Croácia e Inglaterra, oito anos depois, no mesmo torneio — só que agora na fase de grupos do Grupo L, ao lado de Panamá e Gana.
O que aconteceu em Moscou ainda dói em Manchester, em Liverpool e em todo canto da ilha
Era 11 de julho de 2018. A Inglaterra abriu o placar logo no primeiro minuto, com Tripper em cobrança de falta, e chegou ao intervalo em vantagem. Parecia que o jejum de 52 anos — à época — estava prestes a ser encerrado. Então Ivan Perišić empatou, e aos 109 minutos do segundo tempo da prorrogação, Mario Mandžukić fez o gol que mandou os ingleses para casa. O país inteiro parou. Pubs em Birmingham, em Leeds, em Newcastle — silêncio. A mesma sensação que o carioca conhece bem quando o Maracanã apita o fim de um jogo que não deveria ter terminado assim.
Daquele time croata, Luka Modrić ainda está lá. Com 40 anos, o meia do Real Madrid — cinco vezes campeão da Champions League — foi convocado por Zlatko Dalić e deve ser titular. Não mais o Modrić que corria 11 quilômetros por jogo, mas ainda o mais inteligente distribuidor de bola do planeta. Do lado inglês, Kane também sobreviveu ao ciclo. Mas a paisagem ao redor mudou radicalmente.
A geração que não viu 2018 agora quer decidir 2026
Quando a Croácia eliminou a Inglaterra em Moscou, Jude Bellingham tinha 14 anos e jogava nas categorias de base do Birmingham City. Bukayo Saka tinha 16 e mal havia estreado no Arsenal. Phil Foden estava no banco do Manchester City sem uma única aparição pela seleção principal. Hoje, esse trio forma o núcleo criativo da equipe de Thomas Tuchel — técnico alemão que assumiu o comando dos Three Lions em janeiro de 2024, após a saída de Gareth Southgate.
Tuchel chegou com uma proposta diferente da de Southgate: mais pressão alta, linhas mais adiantadas, menos dependência do bloco defensivo. Nos amistosos preparatórios para esta Copa, a Inglaterra apresentou variações táticas que o time de 2018 simplesmente não tinha. Saka, pelo lado direito, e Bellingham, operando entre as linhas, criam sobrecarga que a defesa croata — mais lenta do que há oito anos — terá dificuldade em absorver.
Do lado da Croácia, a renovação foi mais lenta e mais dolorosa. Além de Modrić, Dalić ainda conta com Mateo Kovačić, hoje no Manchester City, e com o goleiro Dominik Livaković, que salvou os croatas em três cobranças de pênaltis no Catar em 2022. A questão é que a média de idade do time balcânico é a mais alta entre os classificados para esta Copa — e a pressão de uma estreia contra os ingleses, num estádio que deve ter maioria de torcedores favoráveis à Inglaterra, é diferente de qualquer cenário que enfrentaram antes.
"Vamos dar tudo de nós", escreveu Kane, em mensagem publicada às vésperas do confronto, deixando claro que a motivação desta partida vai além dos três pontos em disputa.
Kane, os números e a missão de encerrar 60 anos de espera
Harry Kane chega a esta Copa do Mundo com oito gols em Mundiais — seis na Rússia em 2018, quando foi artilheiro do torneio, e dois no Catar em 2022. Com 91 gols pela seleção inglesa, é o maior artilheiro da história dos Three Lions, superando Wayne Rooney, que marcou 53. Pelo Bayern de Munique, na última temporada europeia 2025/2026, foi novamente o principal goleador da Bundesliga, consolidando uma forma física que, aos 32 anos, não dá sinais de declínio.
A Inglaterra não conquista uma Copa do Mundo desde 1966, quando sediou o torneio e venceu a Alemanha Ocidental por 4 a 2 na final de Wembley. São 60 anos de espera — um número que pesa sobre cada convocação, cada estreia, cada eliminação. Kane carrega esse peso com uma serenidade que impressiona quem o acompanha de perto, conforme registrado pelo SportNavo ao longo desta preparação.

O confronto desta quarta-feira tem, portanto, camadas que vão muito além da tabela do Grupo L. Para a Inglaterra, uma vitória seria a resposta simbólica mais direta que o futebol pode oferecer — não um título, não uma semifinal, mas um primeiro passo dado com autoridade sobre exatamente o mesmo adversário que um dia fechou a porta. Para a Croácia, segurar os ingleses seria prova de que a geração de Modrić ainda tem fôlego para uma última dança num Mundial.
A bola rola às 17h desta quarta-feira (17). Após este confronto, a Inglaterra enfrenta Panamá e Gana para completar a fase de grupos — e uma vitória hoje praticamente garante a classificação com rodadas de sobra. Kane está em forma, a geração nova está madura e o roteiro pede um desfecho diferente do de Moscou — a história, porém, não costuma pedir licença antes de surpreender.








