Não é Carlo Ancelotti quem mais precisava de apresentações ao futebol mundial — são os brasileiros que precisavam de alguém como ele. Essa é, em síntese, a leitura de Jurgen Klinsmann sobre o momento da Copa do Mundo de 2026: o técnico italiano não chegou ao cargo para gerenciar talentos, mas para reorganizar uma seleção que havia se acomodado na própria genialidade individual por anos seguidos.
O que Klinsmann viu que outros técnicos não disseram em voz alta
Campeão do mundo com a Alemanha em 1990 e ex-treinador da seleção americana, Klinsmann foi direto em entrevista à ESPN ao ser perguntado sobre os favoritos ao título. Sem hesitar, apontou o Brasil como equipe número um do torneio — e fundamentou a escolha em algo que vai além da qualidade individual do elenco.
"Para mim, o Brasil é o favorito, para mim é a equipe número um nesta Copa do Mundo. Eu realmente acho que Carlo Ancelotti tirou eles da zona de conforto. É a primeira vez que o Brasil contrata um treinador de fora, algo que outras grandes nações não têm coragem de fazer, como por exemplo a Itália."
A referência à Itália não é gratuita: a Azzurra ficou de fora da Copa de 2018 e 2022 seguindo modelos domésticos sem questionar estruturas. Klinsmann enxerga na contratação de Ancelotti — um italiano comandando o Brasil — exatamente o tipo de ruptura institucional que separa seleções corajosas das que repetem fórmulas até que elas parem de funcionar.
"Se alguém consegue lidar com todas as questões do futebol brasileiro, esse alguém é Carlo Ancelotti, porque ele tem exatamente esse tipo de característica e personalidade, que dá tanta alegria, tanta energia e fé, realmente fé, porque ele provou tudo. Ele já ganhou tudo como treinador."
O currículo ao qual Klinsmann se refere inclui cinco títulos da Champions League — três pelo Real Madrid e dois pelo Milan —, além de conquistas em quatro países diferentes. Ancelotti é o único técnico a vencer os cinco principais campeonatos nacionais europeus, um dado que, num grupo de jogadores acostumados a vencer, carrega peso simbólico considerável.
Treino desta quarta revela as soluções táticas para o jogo contra Marrocos
No CT do Red Bull em Morristown, Nova Jersey, o treino desta quarta-feira (10) — realizado na presença de patrocinadores e do cineasta Spike Lee — deu as pistas mais concretas sobre a escalação para o jogo de estreia contra Marrocos, sábado (13), às 19h (de Brasília), em Nova Jersey.
A principal decisão do dia envolveu a lateral direita. Com Wesley cortado por lesão sofrida no amistoso contra o Egito, Ancelotti trabalhou com Danilo na posição — o veterano de 33 anos, dono de passagens por Manchester City e Juventus, assume o posto que não era originalmente seu na hierarquia da Copa. Trata-se de uma escolha que privilegia experiência em detrimento de velocidade: Danilo disputou a Copa de 2022 como titular e conhece as demandas do torneio.
O restante do setor defensivo se organizou com Marquinhos e Gabriel Magalhães na zaga — dupla que combina liderança e volume de minutos em alto nível — e Alex Sandro na lateral esquerda. No meio, Casemiro e Bruno Guimarães formam a dupla de contenção, enquanto Lucas Paquetá opera como meia avançado. No ataque, Raphinha e Vinicius Jr. ocupam as pontas, com Matheus Cunha — realocado pelo técnico ao longo da preparação — completando o quarteto ofensivo. Luiz Henrique e Martinelli foram observados no treino, mas seguem como opções para o decorrer das partidas.
Neymar, ainda sem condições de treinar com bola, apareceu no gramado de tênis para atender patrocinadores e tirar fotos. A expectativa da comissão técnica é que o camisa 10 seja relacionado para o segundo jogo, dia 19 contra o Haiti, na Filadélfia — o que, segundo Klinsmann, pode ser o trunfo mais imprevisível do Brasil no torneio.
"Acho que, talvez, no segundo, terceiro ou quarto jogo, trazendo Neymar do banco, todo o estádio vai vibrar. Vai ser incrível."
A decisão institucional que define o Brasil desta Copa
A contratação de Ancelotti não foi apenas uma escolha técnica — foi uma decisão de ruptura cultural. Em matéria do SportNavo publicada anteriormente, já se discutia como a CBF havia resistido por décadas à ideia de um treinador estrangeiro, numa lógica de que o futebol brasileiro deveria ser ensinado por brasileiros. Ancelotti chegou quebrando esse tabu e, segundo Klinsmann, é exatamente essa quebra que reposiciona o Brasil no cenário global.
Do ponto de vista tático, a mudança mais visível está na organização defensiva — algo que o próprio Klinsmann ressaltou ao dizer que o Brasil "parece forte defensivamente" e que o elenco "tem muita experiência nesse lado e está com muita fome de vitória". Historicamente, seleções brasileiras eram avaliadas pelo potencial ofensivo; agora, a solidez atrás é citada como diferencial competitivo por um observador externo de peso.
Para chegar ao título, o Brasil precisará vencer oito partidas — número que Klinsmann citou explicitamente como o requisito mínimo para levantar a taça. A estreia contra Marrocos no MetLife Stadium, em Nova Jersey, já será um teste para a nova identidade construída por Ancelotti: um time que, pela primeira vez em décadas, chega à Copa com um técnico que nunca precisou provar nada — e exatamente por isso pode ter tirado o Brasil do único lugar onde talentos não vencem: a zona de conforto.

Se Danilo segurar a lateral direita com consistência durante a fase de grupos, Ancelotti terá a liberdade de girar o elenco e preservar peças para o mata-mata — mas se a solução improvisada mostrar fragilidade já contra Marrocos, o técnico italiano terá que tomar sua primeira grande decisão tática da Copa antes do fim da primeira semana. Você acha que Danilo aguenta a demanda física de três jogos em dez dias na lateral direita, ou Ancelotti vai precisar mudar o esquema antes das oitavas?








