— Você viu a expulsão do Til? Que absurdo.
— Vi. Bola na mão sem querer, longe da área. Cartão vermelho.
— Se isso acontecer numa semifinal, o mundo vai explodir.
A conversa poderia ter sido em qualquer boteco de Amsterdã na noite de segunda-feira, 8 de junho. Mas quem falou não foi torcedor — foi Ronald Koeman, técnico da Holanda, em entrevista coletiva após a vitória por 2 a 1 sobre o Uzbequistão, em amistoso preparatório para a Copa do Mundo. O resultado foi bom; a sensação deixada pela arbitragem, não.
O que irritou Koeman no amistoso contra o Uzbequistão
O ponto de ebulição foi a expulsão de Guus Til aos 86 minutos. O meio-campista tocou a bola com a mão em área não perigosa, próximo à própria defesa, sem qualquer intenção aparente — e recebeu cartão vermelho direto. A decisão custou à Holanda terminar o jogo com dez jogadores, embora Cody Gakpo já tivesse garantido o placar nos acréscimos com seu segundo gol na partida, o segundo deles convertido de pênalti.
"Se esse for o nível dos árbitros na Copa do Mundo, vamos ter que rir muito", declarou Koeman, em tom que misturava ironia com irritação genuína.
O treinador foi além do sarcasmo e atacou a interpretação da regra:
"É incompreensível que isso aconteça. Não foi um toque de mão intencional. Ele recebe a bola na mão e, mesmo assim, dão um cartão vermelho", acrescentou Koeman.
A crítica tem respaldo técnico. A regra do toque de mão foi reformulada pela Ifab em 2019 e revisada em 2021, justamente para distinguir intenção de acidente — mas a aplicação em campo continua inconsistente, especialmente em amistosos onde árbitros de menor experiência internacional são escalados.
Um problema antigo que a Copa sempre amplifica
Quem acompanha o futebol europeu há mais de três décadas sabe que a discussão sobre arbitragem em Copas do Mundo não é nova — ela é cíclica e, curiosamente, sempre esquecida entre um torneio e outro. Lembro de cobrir, ainda jovem jornalista, os debates pós-Copa de 1990 na Itália: o torneio teve 16 cartões vermelhos em 52 jogos, uma média assustadora para a época, e críticas furiosas de técnicos como Franz Beckenbauer e Carlos Bilardo à falta de uniformidade nas decisões. Trinta e seis anos depois, a queixa de Koeman é estruturalmente idêntica.
A Copa de 2002 na Coreia e Japão ficou marcada não apenas pela eliminação polêmica da Itália diante da Coreia do Sul — com o gol anulado de Damiano Tommasi e a expulsão discutível de Francesco Totti — mas pela evidência de que árbitros de federações menores, escalados por critérios de representatividade geográfica, chegavam ao torneio sem o preparo técnico exigido pelo nível das partidas. O árbitro ecuatoriano Byron Moreno, responsável por aquela partida, foi suspenso meses depois por irregularidades em outra competição. O dano à credibilidade da arbitragem daquele Mundial nunca foi totalmente reparado.
O que a Fifa pode fazer antes do apito inicial
A boa notícia é que a Fifa tem instrumentos que em 2002 simplesmente não existiam. O VAR, implantado de forma consistente desde a Copa de 2018 na Rússia, revisou 335 lances ao longo daquele torneio e corrigiu 17 decisões consideradas claras erros. Em 2022 no Qatar, o sistema foi aprimorado com o offside semiautomático, que reduziu o tempo médio de análise de impedimento de 70 segundos para menos de 25. Para 2026, a Fifa anunciou a expansão do SAOT — Semi-Automated Offside Technology — e sessões obrigatórias de calibração para todos os árbitros selecionados, com foco específico na interpretação do toque de mão intencional versus acidental.
O problema, como Koeman intuiu, não é tecnológico — é humano. Nenhum sistema de revisão elimina o árbitro que, no calor do momento, interpreta uma regra de forma equivocada antes de o VAR ter a chance de intervir. A expulsão de Til, por exemplo, poderia ter sido cancelada por revisão em campo, mas o árbitro manteve a decisão. Isso aponta para algo que dados e câmeras não resolvem sozinhos: a necessidade de um processo de certificação mais rigoroso, com árbitros submetidos a simulações de pressão alta antes de receber designações internacionais.
Holanda estreia contra o Japão com grupo L na mira
Para Koeman, o debate sobre arbitragem tem consequência prática imediata. A Holanda enfrenta o Japão no domingo, dia 14, às 17h (horário de Brasília), na estreia do Grupo L — e depois terá pela frente a Croácia, adversária que o técnico já conhece bem das semifinais da Copa de 2022, quando os holandeses foram eliminados nos pênaltis. Qualquer expulsão polêmica num grupo tão equilibrado pode mudar completamente a dinâmica de classificação.
A irritação de Koeman, portanto, não é apenas desabafo pós-jogo — é um alerta estratégico. Jogar com dez homens por 10 minutos num amistoso contra o Uzbequistão é administrável. Fazer o mesmo numa partida de mata-mata do Mundial, com Gakpo, Memphis Depay e companhia precisando de espaço para criar, é outra conversa. É o mesmo cenário que a Itália viveu em 2002 contra a Coreia do Sul — só que agora a aposta é diferente: a Fifa tem as ferramentas, e a única questão é se vai usá-las com coragem o suficiente para não repetir os erros que já custaram histórias inteiras a esse torneio.








