O que vale, afinal, uma Copa do Mundo para Ronald Koeman? A pergunta não é retórica por vaidade — ela pulsa com urgência real nesta quinta-feira, 25 de junho, quando a Holanda entra em campo no Arrowhead Stadium, em Kansas City, diante de uma Tunísia que chega com tudo a perder e, paradoxalmente, com o peso mais leve do grupo. São 20h no horário de Brasília, é a terceira rodada do Grupo F da Copa do Mundo de 2026, e o que está sobre a mesa ultrapassa a aritmética de pontos.
A Holanda acumulou quatro pontos em dois jogos — um empate em 2 a 2 com o Japão na estreia e uma goleada de 5 a 1 sobre a Suécia na segunda rodada. Os números parecem saudáveis. Mas quem acompanhou os 90 minutos contra os japoneses viu uma seleção que cedeu dois gols em sequência após ter dominado a primeira etapa, uma equipe que pareceu perder o fio condutor exatamente quando o adversário exigiu mais. Koeman saiu daquele jogo com o placar empatado e com uma pergunta colada na lapela: sua Holanda tem consistência para ir longe, ou é um time de lampejos?
A goleada sobre a Suécia silenciou parte da crítica — Cody Gakpo, Donyell Malen e Frenkie de Jong protagonizaram uma tarde de futebol que lembrou, por instantes, a Laranja Mecânica de outros carnavais. Mas o futebol tem memória seletiva, e a memória da torcida holandesa guarda com mais nitidez os minutos finais contra o Japão do que qualquer gol marcado contra os suecos.
A Tunísia que precisa de um milagre e não tem nada a perder
Do outro lado, Hervé Renard comanda uma Tunísia que chegou à terceira rodada com três pontos — número que parece razoável até se descobrir que eles vieram de um único jogo e que os africanos sofreram nove gols em dois jogos, sendo goleados tanto pela Suécia quanto pelo Japão. O ambiente no vestiário tunisiano ficou turbulento após a derrota para os japoneses, e Renard, técnico experiente em Copa do Mundo com seleções africanas — ele levou Marrocos às quartas em 2022 —, enfrenta o desafio de transformar uma despedida em algo que valha ser lembrado.

A escalação provável da Tunísia traz Hannibal Mejbri como peça criativa e Ellyes Skhiri como âncora no meio-campo. São jogadores com passagens por clubes europeus de peso, mas que ainda não encontraram coesão coletiva nesta Copa. Para avançar, os tunisianos precisam vencer — e torcer por um tropeço do Japão contra a Suécia na partida paralela. A combinação de fatores é estreita, mas existe.
"Vamos jogar para vencer. Essa seleção tem qualidade e dignidade — não vamos entregar o jogo a ninguém", disse Renard em coletiva antes do confronto, numa declaração que soou mais como motivação interna do que promessa ao torcedor.
O diagnóstico que divide especialistas sobre o futuro de Koeman
A interpretação dominante sobre Koeman é a de um técnico sólido, vencedor da Eurocopa de 1988 como jogador e respeitado como treinador após passagens por Barcelona e Everton. Nessa leitura, o empate com o Japão foi um acidente de percurso, e a goleada sobre a Suécia prova que a equipe tem repertório ofensivo de sobra para ir longe no torneio. Ryan Gravenberch, do Liverpool, e Tijjani Reijnders, do Milan, formam um meio-campo moderno e dinâmico que poucos grupos da Copa podem igualar.
A contra-leitura, porém, é igualmente fundamentada. Koeman já havia sofrido críticas na fase de qualificação europeia, e a seleção holandesa demonstrou, nas duas últimas Copas, uma tendência a desaparecer quando o torneio exige mais do que talento individual. Em 2022, no Catar, a Holanda caiu nas quartas para a Argentina nos pênaltis após um jogo em que pareceu satisfeita demais com o empate. O padrão de ceder vantagem no segundo tempo — repetido contra o Japão — não é novo, e parte da imprensa europeia já questiona se Koeman tem os instrumentos táticos para corrigir esse vício.
"Temos de ser mais sólidos defensivamente. Não podemos dar dois gols de presente em uma Copa do Mundo", admitiu o próprio Koeman após o empate com o Japão, numa rara concessão pública de que algo precisa mudar.
O que uma vitória — ou derrota — muda para além da tabela
A síntese honesta é que a Holanda tem material humano para ser semifinalista desta Copa. Virgil van Dijk é um dos melhores zagueiros em atividade, Gakpo chega em forma após uma temporada sólida pelo Liverpool, e Micky van de Ven traz velocidade e leitura de jogo que poucos laterais-centrais do mundo possuem. O problema de Koeman não é o elenco — é a sensação de que a equipe ainda não encontrou um rosto próprio, uma identidade que resista à pressão dos momentos decisivos.
Uma vitória sobre a Tunísia, especialmente com placar elástico, encerra a discussão pelo menos até as oitavas e devolve a Koeman o crédito consumido pelo empate com o Japão. Uma derrota, por outro lado, abriria um debate que vai muito além da fase de grupos: o da continuidade do técnico à frente da seleção após o torneio, independentemente do que aconteça nas rodadas seguintes. A federação holandesa (KNVB) já trocou de treinador após decepções em Copas anteriores com uma velocidade que não deixa margem para interpretações generosas.

A bola rola no Arrowhead Stadium às 20h desta quinta-feira. Se a Holanda vencer, Koeman chega às oitavas com o crédito restaurado e a discussão adiada. Se tropeçar, a conversa sobre seu futuro não esperará o apito final — e a resposta definitiva sobre o projeto desta geração holandesa virá, no mais tardar, quando os confrontos das oitavas forem definidos na tarde de 27 de junho.








