Não, a Argentina sem Messi não é um time quebrado. A pergunta certa não é se a Albiceleste sobrevive sem o camisa 10 — ela sobrevive, como mostrou o 2 a 0 sobre Honduras no Kyle Field, no Texas, neste sábado (6). A pergunta certa é se ela consegue ser suficientemente boa para defender um título mundial com sete peças importantes fora de combate ao mesmo tempo. E aí a resposta fica mais complicada.

Lautaro Martínez abriu o placar de pênalti, aos 36 minutos do primeiro tempo, após Lo Celso acertar o travessão e Tagliafico ser derrubado na área por Meléndez. No segundo tempo, aos 8 minutos, o próprio Lautaro deu o passe de calcanhar para Giuliano Simeone, que dominou e chutou rasteiro na saída do goleiro Menjívar. Placar final: 2 a 0. Simples, sem drama, sem brilho excessivo.

Lautaro assume o centro e Simeone aparece como surpresa real

Lautaro Martínez foi o protagonista da noite. Gol marcado, assistência dada, 11 finalizações da equipe no primeiro tempo com ele como referência ofensiva. Não é novidade — o centroavante da Inter de Milão já operou como substituto funcional de Messi em diversas ocasiões desde o ciclo que culminou no título do Catar em 2022. Mas há uma diferença entre ser funcional e ser determinante. Neste sábado, ele foi as duas coisas.

Giuliano Simeone foi a surpresa mais interessante da noite. Filho de Diego Simeone, o atacante do Atlético de Madrid mostrou mobilidade, disposição para pressionar e, no gol, frieza para definir. Não é um jogador que vai substituir Messi na criação, mas tampouco precisa ser. Ele ocupa um espaço diferente — o de atacante de lado que trabalha os espaços deixados pela marcação adversária. Neste teste, funcionou.

Lo Celso também merece registro. O meia do Villarreal foi o mais criativo da equipe no primeiro tempo — foi dele o chute que explodiu no travessão antes do pênalti. Historicamente, jogadores como Lo Celso tendem a render mais quando Messi não está em campo, porque o espaço de criação se redistribui. Aconteceu com Riquelme na Seleção dos anos 2000, quando o camisa 10 do Boca precisava de espaço para respirar longe de Maradona — e o paralelo, embora imperfeito, ajuda a entender a dinâmica.

Sete ausências e o quebra-cabeça de Scaloni

A lista de desfalques é o dado mais relevante desta preparação, e foi registrada com detalhamento pelo SportNavo nas últimas semanas. Emiliano Martínez, Leonardo Balerdi, Leandro Paredes, Nahuel Molina, Gonzalo Montiel e Nicolás Paz todos se recuperam de problemas físicos. Messi foi preservado por fadiga muscular na coxa esquerda e sequer tirou o colete no banco de reservas. Scaloni chegou a convocar o lateral Giay, do Palmeiras, para complementar o grupo — um jogador que não está na lista final para a Copa.

Para contextualizar a gravidade disso: quando a Espanha chegou ao Mundial de 2010 com alguns desfalques pontuais, Del Bosque tinha um sistema tão consolidado que as peças eram intercambiáveis. A Argentina de Scaloni tem um sistema consolidado, mas depende de indivíduos específicos em posições específicas de forma mais acentuada. A ausência de Dibu Martínez no gol, por exemplo, é diferente de qualquer outra — o goleiro do Aston Villa é o melhor do mundo na posição há dois anos consecutivos, e seu substituto ainda não foi testado sob pressão real.

Honduras foi valente, mas não tem vaga na Copa do Mundo 2026. Isso precisa ser dito com clareza. A seleção centro-americana até criou alguns sustos para o goleiro Musso, mas as 20 finalizações argentinas contra 4 dos hondurenhos mostram a disparidade real. O 2 a 0 poderia ter sido 4 a 0 com mais eficiência — Lisandro Martínez quase marcou de bicicleta nos acréscimos do primeiro tempo, e Facundo Medina cabeceou com perigo no segundo.

O que o teste revela para a estreia contra a Argélia

A estreia da Argentina na Copa do Mundo acontece em 16 de junho, às 22h (horário de Brasília), contra a Argélia, pelo Grupo J. Antes disso, há ainda um último amistoso contra a Islândia, na terça-feira (9), às 21h30. Scaloni sinalizou que Messi não deve jogar contra os islandeses também — a ideia é tê-lo 100% para o dia 16.

Lautaro assume o centro e Simeone aparece como surpresa real Lautaro decide, Sim
Lautaro assume o centro e Simeone aparece como surpresa real Lautaro decide, Sim

A Argélia é um adversário de nível completamente diferente de Honduras. Tem jogadores na Ligue 1 e na Premier League, um sistema tático organizado e motivação histórica — nunca venceu a Argentina em confrontos oficiais. Mas a seleção norte-africana também não tem o histórico de pressionar equipes de alto nível com consistência fora do continente africano. A Argentina, mesmo incompleta, entra como favorita.

Sete ausências e o quebra-cabeça de Scaloni Lautaro decide, Simeone amplia e a A
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O modelo que Scaloni está construindo lembra, em certa medida, o que Arrigo Sacchi fez com a Itália em 1994: um time que não dependia de um único gênio para funcionar, mas que tinha o gênio disponível quando precisava decidir. A diferença é que Sacchi tinha Baggio como carta na manga e chegou à final. Scaloni tem Messi — que aos 38 anos ainda é capaz de mudar qualquer jogo — e uma estrutura coletiva que mostrou, neste sábado, ser suficientemente funcional para ganhar jogos sem ele.

"Queremos Messi", cantou a torcida argentina no Texas durante o segundo tempo — e o camisa 10 correspondeu ficando no banco, de colete, olhando para o campo com aquela expressão que mistura concentração e distância.

A Argentina joga contra a Islândia na terça-feira (9) para fechar a preparação. Vale acompanhar especialmente o desempenho do sistema defensivo — com Balerdi fora, Scaloni precisa definir a dupla de zaga titular antes do dia 16, e esse é o único ponto do time que ainda não tem resposta clara.