Todo mundo já sabe que Neymar não vai estar em campo no sábado, dia 13 de junho, quando o Brasil enfrenta Marrocos em Nova Jersey na estreia da Copa do Mundo. O que ainda não ficou claro para muita gente é que essa ausência não apenas abre uma vaga na escalação — ela empurra para o centro do palco uma geração que estava ensaiando nos bastidores com uma seriedade que merece atenção técnica e estatística.
O diagnóstico mais revelador desta semana não veio de uma entrevista coletiva nem de um relatório médico. Veio de um treino. Nesta terça-feira (9), na parte aberta à imprensa durante a preparação nos Estados Unidos, o goleiro Leo Nannetti, 18 anos, do Flamengo, realizou defesas de alto nível em cobranças de Endrick e Igor Thiago — dois dos atacantes mais promissores do atual plantel brasileiro. Nannetti cresceu sobre os finalizadores, antecipou trajetórias e negou os gols com segurança técnica que não é comum em um atleta de sua faixa etária em uma situação de tamanha pressão simbólica.
O goleiro de 18 anos que Taffarel pediu pessoalmente
Leo Nannetti não foi convocado por acaso nem como figurante. Sua presença na delegação brasileira foi um pedido direto de Taffarel, preparador de goleiros da Seleção e um dos maiores nomes da posição na história do Brasil. Nannetti integrou o grupo desde os treinos na Granja Comary e seguiu com a delegação para os Estados Unidos — uma sequência de imersão que, para um atleta formado nas categorias de base do Flamengo, representa um salto de maturidade de proporções que dificilmente se mensura em meses de clube.
Para contextualizar o que esse chamado representa: Alisson, Ederson e Weverton são os três goleiros inscritos para jogar na Copa. Nannetti está autorizado apenas a treinar, o que significa que sua função imediata é absorver o ambiente, a intensidade e o padrão técnico da Seleção principal. Ainda assim, o desempenho desta terça-feira indica que ele já opera em um nível que justifica o interesse de Taffarel. No Flamengo, o jovem percorreu as categorias sub-17 e sub-20 com consistência, e sua convocação para integrar o grupo da Copa, mesmo sem registro na lista da FIFA, é um sinal claro do planejamento a médio prazo da comissão técnica.
Seria injusto chamar de era — mas é uma era em escala doméstica. O Flamengo, que já tem três representantes titulares na Seleção principal, agora exporta também um goleiro de 18 anos para o ambiente mais exigente do futebol mundial. A formação do clube carioca está sendo testada em tempo real, nas manhãs de treino nos EUA, com câmeras apontadas e Taffarel observando cada movimento.

A lesão de Wesley e o recado de Jorginho sobre resiliência
O corte do lateral Wesley, da Roma, por lesão, foi o episódio mais doloroso desta fase de preparação para a geração jovem. Aos 22 anos, o ex-Flamengo estava entre os nomes mais cotados para disputar posição no grupo de Ancelotti e foi tirado da Copa na semana passada, exatamente quando o torneio começava a se materializar.
Quem sentiu o peso desse momento e escolheu falar foi Jorginho, tetracampeão mundial em 1994. Em entrevista à ESPN, o ex-volante traçou um paralelo direto com sua própria história: também foi cortado da Seleção Brasileira por lesão às vésperas da Copa América de 1989, com idade próxima à de Wesley hoje.
"Quero dizer para o Wesley: você tem 22 anos, é muito importante e está fazendo sucesso na Roma. Você vai se recuperar. Eu sei que o coração tá muito triste, mas levanta a cabeça. Você tem um futuro pela frente. Fui cortado mais ou menos com a sua idade na Copa América de 89, fui convocado logo em seguida e campeão justamente com 30 anos", disse Jorginho.
A mensagem tem uma camada técnica que vai além do consolo. Jorginho projetou que Wesley, com 25 ou 26 anos na próxima Copa, estará no auge físico e com experiência acumulada suficiente para ser titular. É uma leitura de ciclo, não de consolação vazia.
"Você vai ter de 25 para 26 anos na próxima Copa, tem toda condição e capacidade para ser convocado novamente e criar uma linda história dentro da Seleção Brasileira", completou o tetracampeão.
Jorginho ainda aproveitou a entrevista para analisar a transformação do papel dos laterais no futebol contemporâneo, atribuindo a Pep Guardiola o início de uma revolução que reduziu os espaços tradicionais da posição: menos ultrapassagens, menos cruzamentos, mais jogo apoiado e intensidade constante. Para o tetracampeão, os laterais modernos são os atletas mais prejudicados por essa mudança estrutural.
O que a ausência de Neymar realmente abre no elenco
A confirmação de que Neymar não joga contra Marrocos no sábado (13), às 19h no horário de Brasília, não é apenas uma notícia de escalação. Ela reposiciona a hierarquia ofensiva do Brasil e obriga Ancelotti a distribuir responsabilidade criativa entre atletas que, na presença do camisa 10, operariam em papéis secundários.
Endrick, que nesta terça-feira foi parado por Nannetti no treino, é o nome mais simbólico dessa transição. O atacante do Real Madrid completou 18 anos em julho de 2024 e já soma minutos relevantes na Seleção principal, mas a Copa representa um salto de contexto: deixar de ser o jovem promissor da convocação e tornar-se um dos responsáveis pelo ataque brasileiro em um jogo que vale eliminação ou sobrevivência no torneio.
A trajetória de Ederson também entra nessa narrativa. Revelado pelo Ituano e profissionalizado cedo, o volante do Manchester City superou críticas e instabilidade para chegar à Copa como titular consolidado — um percurso que Ancelotti citou como referência de superação dentro do grupo, segundo informações do UOL Esporte desta terça-feira.
Marquinhos, por sua vez, completa esse padrão de resiliência. O zagueiro do PSG foi vaiado em fases anteriores, sofreu com pressão pública e chegou a 2026 como um dos líderes técnicos e emocionais do elenco. São trajetórias que validam o modelo de formação de longo prazo — e que servem de mapa para os que estão chegando agora.
O que os próximos dias vão revelar antes de Marrocos
Existe uma pergunta que a semana de preparação ainda não respondeu com clareza suficiente: qual versão do Brasil vai a campo no sábado — a que depende de nomes estabelecidos ou a que distribui protagonismo de forma mais coletiva?
A resposta vai determinar não apenas o resultado contra Marrocos, mas o papel que jovens como Nannetti — que, mesmo sem poder jogar, já demonstra nível para integrar o grupo principal em breve — terão no ciclo que começa agora e se estende até 2030. O treinamento desta terça-feira foi, nesse sentido, mais do que um aquecimento: foi um ensaio aberto de uma geração que está pedindo espaço com defesas, gols e resiliência.
O Brasil estreia na Copa do Mundo no sábado, dia 13 de junho, às 19h (horário de Brasília), contra Marrocos, em Nova Jersey. A escalação ainda não foi confirmada por Ancelotti, mas a ausência de Neymar já define o tom: o torneio começa com um elenco que precisa vencer sem sua principal referência ofensiva dos últimos 15 anos.








