"Estamos aguardando para ver a gravidade das lesões. É isso que mais me preocupa neste momento", admitiu Mohamed Ouahbi logo após o empate por 1 a 1 com a Noruega, em Nova Jersey, no último domingo (7). O técnico de Marrocos não escondia o nervosismo — e tinha razão para isso: Abde Ezzalzouli, o ponta de 24 anos que fez a melhor temporada da carreira, saiu mancando do gramado no intervalo e não voltou para o segundo tempo.

O que aconteceu com Abde no amistoso contra a Noruega

A lesão veio de um lance sem bola. Nos acréscimos do primeiro tempo, após uma cobrança de escanteio adversária, o próprio zagueiro marroquino Chadi Riad caiu sobre a perna direita de Abde ao disputar a bola com um norueguês. A torção foi imediata. O departamento médico entrou em campo, o atacante ficou — visivelmente com dificuldades para caminhar — mas não retornou após o intervalo.

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Os exames iniciais, segundo os jornais L'Équipe e Marca, apontaram suspeita de entorse no ligamento colateral medial do joelho direito. A previsão de recuperação é de três a quatro semanas — prazo que, se confirmado, inviabiliza a participação de Abde em toda a fase de grupos da Copa do Mundo. A seleção marroquina ainda não divulgou boletim médico oficial, e novos exames foram realizados nesta segunda-feira (8).

Não bastasse a situação de Abde, o lateral-direito Noussair Mazraoui também deixou o mesmo amistoso ainda no primeiro tempo com suspeita de luxação no ombro esquerdo. Dois titulares fora em um único treino de véspera — o cenário é o pior possível para Ouahbi a menos de uma semana da estreia.

O que aconteceu com Abde no amistoso contra a Noruega Lesão de Abde expõe o flan
O que aconteceu com Abde no amistoso contra a Noruega Lesão de Abde expõe o flan

Por que Abde era tão perigoso para o Brasil

Quem acompanha La Liga sabe o que Abde fez pelo Real Betis na temporada 2025/26: 15 gols e 9 assistências em todas as competições, sendo 9 gols e 7 assistências só no campeonato espanhol. São números que colocam o marroquino entre os pontas mais produtivos da liga — e que se traduzem em métricas ofensivas bastante consistentes.

Para contextualizar o impacto tático, três dados ajudam a entender o que Marrocos perde:

  • xG (expected goals) por 90 minutos — Abde gerava oportunidades acima da média dos pontas de La Liga, combinando finalizações de dentro da área com movimentos de ruptura que forçam erros defensivos. Tirá-lo do esquema reduz o xG ofensivo marroquino de forma direta.
  • Progressive passes recebidos — Abde era o principal destino das jogadas progressivas de Marrocos pelo corredor esquerdo. Sem ele, a equipe perde o receptor preferencial nas transições rápidas — exatamente o tipo de jogada que mais machuca defesas posicionadas.
  • Defensive actions no terço ofensivo — o atacante também pressionava alto, contribuindo para o PPDA (passes permitidos por ação defensiva) compacto que Ouahbi costuma exibir. A ausência dele afrouxa a primeira linha de pressão marroquina.

Abde — que atuou ao lado do brasileiro Antony no Betis nesta temporada — defende Marrocos desde 2022 e acumula 35 jogos pela seleção. Não existe substituto direto com o mesmo perfil de velocidade e capacidade de driblar em espaços reduzidos.

Como o Brasil pode explorar o flanco descoberto

A ausência de Abde não é só uma perda ofensiva para Marrocos — ela cria um desequilíbrio estrutural que a Seleção Brasileira pode explorar de forma sistemática. O corredor esquerdo marroquino, que seria protegido pela pressão alta do atacante, fica mais vulnerável às subidas do lateral brasileiro pelo lado direito.

Do ponto de vista do pass network, Marrocos vai precisar redistribuir as conexões ofensivas — e isso custa tempo de adaptação que, às vésperas de uma Copa, simplesmente não existe. O substituto natural de Abde terá menos entrosamento nos movimentos de troca de posição que caracterizam o esquema de Ouahbi.

Há outro efeito colateral importante: com Mazraoui também em dúvida pelo ombro esquerdo, Marrocos pode entrar em campo no dia 13 sem dois titulares — um em cada lado do campo. A combinação de ausências fragiliza tanto a saída de bola quanto a transição defensiva, dois momentos nos quais o Brasil, com jogadores de alta capacidade de progressão, costuma ser mais letal.

"Espero que os jogadores lesionados possam se recuperar e que tenhamos eles na estreia contra o Brasil", declarou Ouahbi após o jogo, revelando que a dúvida sobre Abde já era real antes mesmo dos exames desta segunda.

O que Marrocos ainda tem — e o Brasil não pode ignorar

Seria um erro transformar a lesão de Abde em garantia de resultado. Marrocos chega à Copa do Mundo de 2026 como uma das seleções africanas mais bem estruturadas taticamente — o desempenho na Copa do Qatar em 2022, quando chegou às semifinais, não foi acidente. Achraf Hakimi segue intacto como arma ofensiva pelo lado direito, e o meio-campo marroquino mantém qualidade para controlar o jogo em blocos baixos.

Ainda assim, conforme apurado em matéria do SportNavo, a combinação de lesões no setor ofensivo e na lateral direita representa uma perda mensurável de eficiência — especialmente em termos de xA (expected assists) gerados pelas jogadas de ruptura que Abde protagonizava. Sem ele, Marrocos perde o principal criador de desequilíbrio em situações de 1 contra 1 na largura do campo.

Brasil e Marrocos se enfrentam no próximo sábado, 13 de junho, às 19h (horário de Brasília), no MetLife Stadium, em Nova Jersey, pela primeira rodada do Grupo C da Copa do Mundo. Até lá, o departamento médico marroquino divulga o diagnóstico definitivo — e a comissão técnica brasileira saberá exatamente com qual Marrocos vai se deparar no gramado.