O atacante brasileiro Helinho, de 25 anos, tornou-se mais um caso de discriminação racial no futebol mexicano após ser alvo de insultos racistas durante a partida entre Toluca e América, no último sábado (18), no Estádio Azteca. O clube rubro formalizou denúncia à Federação Mexicana de Futebol (FMF), enquanto o jogador revelado pelo São Paulo cobrou punição efetiva em suas redes sociais.

Padrão histórico de punições insuficientes

A Liga MX acumula precedentes preocupantes no combate ao racismo. Em 2019, o goleiro Jonathan Orozco foi vítima de cânticos discriminatórios em Tijuana versus Monterrey, resultando em multa de apenas 150 mil pesos (cerca de R$ 45 mil) ao clube mandante. No ano seguinte, o zagueiro colombiano Andrés Mosquera sofreu ataques similares em partida do León, gerando sanção de um jogo com portões fechados parciais.

O caso mais emblemático ocorreu em 2021, quando o atacante equatoriano Renato Ibarra denunciou insultos racistas vindas das arquibancadas do Estádio Akron, em Guadalajara versus Atlas. A punição foi limitada a multa de 300 mil pesos e interdição de dois setores por uma partida. Segundo apuração do SportNavo, nenhum torcedor foi identificado ou processado criminalmente nos casos mencionados.

Investigação atual enfrenta limitações estruturais

A Comissão de Gênero e Diversidade da FMF iniciou processo investigativo para identificar os responsáveis pelos ataques a Helinho. O protocolo prevê análise de imagens de segurança e depoimentos de testemunhas presentes no Azteca, que comporta 87 mil espectadores. A amplitude do estádio dificulta a localização precisa dos agressores verbais.

O regulamento disciplinar da Liga MX estabelece multas entre 100 mil e 500 mil pesos para casos de discriminação, além de possível interdição parcial do estádio por até três jogos. As sanções individuais contra torcedores dependem de identificação formal e colaboração das autoridades civis, processo historicamente moroso no México.

"O racismo é crime e essas condutas não podem ser normalizadas na Liga MX", declarou Helinho em vídeo publicado em suas redes sociais após os ataques.

Contradição disciplinar expõe falhas do sistema

Paradoxalmente, Helinho recebeu suspensão de três partidas por "conduta violenta" durante confusão com Alejandro Zendejas, do América, na mesma partida em que foi vítima de racismo. O técnico Antonio Mohamed e os jogadores Henry Martín e Zendejas foram punidos com um jogo cada. A rapidez da punição disciplinar contrasta com a morosidade das investigações por discriminação.

Dados da FMF mostram que apenas 12% dos casos de racismo reportados entre 2018 e 2024 resultaram em identificação dos agressores. O índice de reincidência em estádios previamente multados por discriminação atinge 34%, evidenciando a ineficácia das medidas punitivas atuais.

Precedentes internacionais pressionam mudanças

A FIFA intensificou cobrança sobre confederações nacionais após casos de discriminação na Copa do Mundo de 2022. O protocolo de três etapas (parada do jogo, suspensão temporária, encerramento da partida) foi implementado em torneios internacionais, mas não se tornou obrigatório em competições domésticas.

A CONMEBOL aplicou multa de 100 mil dólares ao River Plate em março de 2024 por cânticos discriminatórios na Libertadores, valor 15 vezes superior às penalidades médias da Liga MX. A disparidade nas sanções regionais expõe a necessidade de padronização punitiva no futebol continental.

O Toluca enfrenta o Puebla na próxima rodada, marcada para sábado (25), no Estádio Nemesio Díez, onde Helinho cumprirá o primeiro jogo de suspensão enquanto aguarda o desfecho da investigação por racismo que o vitimou.