A CBF deu largada nesta segunda-feira (6) ao processo de unificação das ligas brasileiras, com foco na gestão única das Séries A e B a partir de 2030. Enquanto grandes clubes discutem poder e receita, as divisões inferiores enfrentam a perspectiva de ficarem ainda mais distantes do centro das atenções e recursos.

Leila Pereira, presidente do Palmeiras, aproveitou o evento na CBF para alfinetar o Flamengo. Questionada sobre a unificação, disparou referência ao patrocínio do rival carioca com a Shopee, plataforma de e-commerce.

"Têm clubes que se acham o Real Madrid, que podem ser o da Shopee", declarou Leila Pereira durante o evento na CBF.

A declaração expõe as tensões entre os gigantes do futebol brasileiro na disputa por protagonismo na nova estrutura. O Flamengo, maior torcida do país com 46,1 milhões de seguidores no Instagram, versus Palmeiras, atual campeão brasileiro e com forte gestão financeira.

Série C e D ficam de fora da discussão

O projeto de unificação contempla apenas as duas principais divisões do Campeonato Brasileiro. As Séries C e D, que reúnem 108 clubes, permanecem sob gestão direta da CBF sem perspectiva de mudanças estruturais significativas.

Clubes como Ferroviário-CE, atual líder da Série C com 42 pontos, e Athletic-MG, destaque da Série D, enfrentam realidades financeiras completamente diferentes dos gigantes. Enquanto o orçamento médio da Série A ultrapassa R$ 200 milhões anuais, na Série C raramente passa de R$ 10 milhões.

A nova liga unificada promete redistribuição de receitas mais eficiente entre A e B, mas exclui automaticamente as divisões inferiores desse benefício. O modelo pode ampliar o abismo já existente no futebol brasileiro.

Calendário nacional sob pressão

A gestão unificada das Séries A e B impacta diretamente o calendário nacional. Clubes das divisões inferiores dependem das datas liberadas pela CBF para realizar seus jogos, especialmente nos estádios compartilhados.

O Campeonato Brasileiro da Série C tem 38 datas, enquanto a Série D utiliza 26 rodadas. Com a priorização das duas principais divisões sob nova gestão, essas competições podem enfrentar janelas ainda mais apertadas.

Estados como São Paulo e Rio de Janeiro, que concentram grandes estádios, já registram conflitos de agenda. O Morumbi, por exemplo, recebe jogos do São Paulo na Série A e eventualmente partidas de clubes menores em competições estaduais.

Impacto financeiro nas divisões esquecidas

A concentração de recursos nas Séries A e B pode criar um círculo vicioso para clubes menores. Menos visibilidade resulta em menores contratos de patrocínio e transmissão televisiva.

O SBT pagou R$ 200 milhões pelos direitos da Série C até 2026, valor que representa menos de 10% do que a Globo investe na Série A. A diferença tende a aumentar com a nova estrutura organizacional.

Clubes tradicionais como Remo e Paysandu, que alternam entre Série B e C, podem enfrentar maior dificuldade para ascender economicamente. O modelo de gestão unificada beneficia quem já está dentro do sistema.

A implementação da liga única está prevista para 2030, mesmo ano da Copa do Mundo nos Estados Unidos, México e Canadá. A CBF terá seis anos para definir os detalhes operacionais e financeiros da mudança estrutural mais significativa do futebol brasileiro nas últimas décadas.