Dois homens abaixo de duas horas na mesma prova oficial, no mesmo dia, no mesmo percurso londrino. O queniano Sabastian Sawe cruzou a linha em 1h59min30, seguido pelo etíope Yomif Kejelcha em 1h59min41, na Maratona de Londres 2026 disputada no domingo (26). O feito jogou por terra uma das últimas fronteiras do atletismo de resistência — e fez o mundo revisitar, inevitavelmente, a tarde de outubro de 2019 em Viena, quando Eliud Kipchoge percorreu os mesmos 42,195 km em 1h59min40 cercado de condições que a federação internacional jamais reconheceu como legítimas.
O que Viena tinha que Londres não tinha
No INEOS 1:59 Challenge, realizado em 12 de outubro de 2019 no Parque Prater, Kipchoge contou com 41 pacemakers que se revezavam em grupos de sete a cada cinco quilômetros — atletas de altíssimo nível como os irmãos noruegueses Ingebrigtsen, o etíope Selemon Barega e os americanos Bernard Lagat e Paul Chelimo. Um carro elétrico projetava lasers no asfalto indicando o ritmo ideal, e a formação em V dos pacemakers ao redor do queniano funcionava como escudo aerodinâmico, quebrando a resistência do vento. O circuito de 9,6 km, completamente plano, tinha trechos recém-asfaltados e era percorrido em quatro voltas fechadas, o que elimina qualquer surpresa de topografia. A Associação Internacional de Federações de Atletismo (IAAF) foi taxativa: não reconheceu o tempo por se tratar de prova fechada, com pacemakers rotativos e auxílio mecânico.
"Sou o homem mais feliz por correr em menos de duas horas para inspirar muitas pessoas, para dizer a elas que nenhum ser humano tem limites", disse Kipchoge logo após cruzar a meta em Viena.
O próprio Kipchoge reconheceu a complexidade do que foi montado para ele. "Os pacemakers estão entre os melhores atletas do mundo. Pode dizer que estou cansado — foi uma corrida difícil", afirmou em entrevista após o desafio. Mas a estrutura era inegavelmente controlada: temperatura de cerca de 9°C, ventos entre 0,5 e 1,5 m/s, posto móvel de reidratação durante toda a prova. Nada que se veja em qualquer maratona de rua.
O que Londres entregou de diferente
A Maratona de Londres 2026 foi disputada sob o regulamento padrão da World Athletics — pacemakers fixos (não rotativos), sem auxílio mecânico externo, percurso homologado e competição aberta a todos os atletas inscritos. O ugandense Jacob Kiplimo completou o pódio em 2h00min35, tempo que, isolado, já representaria um recorde mundial até poucos anos atrás. O recorde anterior em provas oficiais pertencia ao queniano Kelvin Kiptum, com 2h00min35 estabelecido em Chicago em 2023 — marca igualada pelo terceiro colocado em Londres, o que dá dimensão do nível geral da prova.
Na categoria feminina, a etíope Tigst Assefa cruzou a linha em 2h15min41, atualizando seu próprio recorde mundial por dez segundos. Tanto os tempos masculinos quanto o feminino aguardavam a oficialização formal da World Athletics no momento do fechamento desta reportagem.
"Esperava que, depois de Viena, mais pessoas conseguissem completar uma maratona em menos de duas horas", havia previsto Kipchoge em 2019. Seis anos depois, isso aconteceu — e sem nenhum carro elétrico.
A comparação que o atletismo precisa fazer
A análise do SportNavo mostra que os dois feitos não são equivalentes, mas tampouco são excludentes. O de Kipchoge foi uma prova de conceito científico: demonstrou que o corpo humano consegue sustentar 2min50s/km por 42,195 km. O de Londres 2026 provou que esse ritmo é alcançável em condição de competição real, com adversários, vento real e sem formação aerodinâmica artificial. Sawe, em 1h59min30, foi dez segundos mais rápido do que Kipchoge conseguiu com toda a engenharia da INEOS ao seu redor.
O percurso londrino tem sua própria fama de ser rápido — plano em boa parte, com o vento predominante soprando no sentido da corrida em trechos estratégicos e temperatura amena na primavera britânica. Mas o que nenhum percurso entrega é a formação de 41 atletas de elite se revezando ao redor do corredor para reduzir o arrasto aerodinâmico, recurso que pesquisadores da University of Brighton estimaram, à época, em uma vantagem de até 2,5% na economia de energia.
O que vem pela frente
Com dois homens abaixo de 2 horas em prova oficial, o debate agora se volta para quando — e não se — a barreira de 1h58min será alcançada. O recorde mundial oficial ainda precisava ser ratificado pela World Athletics, mas o precedente de Londres muda o patamar de expectativas para Berlim, Chicago e Tóquio nos próximos ciclos. Sawe, o vencedor de 2026, tem 24 anos e um cartel ainda em construção nas grandes maratonas. Kejelcha, o segundo colocado em 1h59min41, é o mesmo atleta que detém o recorde mundial de 1 milha indoor. A geração que Kipchoge inspirou em Viena, em 2019, chegou à maturidade — e chegou rápido.








