Não foi a falta de talento que custou um ponto ao Brasil na estreia da Copa do Mundo. O empate por 1 a 1 com Marrocos, no último sábado (13), foi decidido por um lapso coletivo de dois zagueiros entre os mais experientes do planeta — e a sentença mais dura veio de quem conhece o ofício por dentro. Luisão, ex-capitão do Benfica e da Seleção Brasileira, não escolheu palavras ao analisar o gol marroquino durante a live Seleção Estadão.

"Foi um erro de sub-11 de dois zagueiros que acabaram de disputar final de Champions League. Foi de uma infantilidade muito grande. É algo que precisa ser corrigido e conversado, pois esse tipo de erro pode causar uma eliminação."

A frase circulou com a velocidade do trânsito da Avenida Paulista em horário de pico e dividiu torcedores, analistas e ex-jogadores ao longo do domingo. A força do diagnóstico reside justamente no contraste: Marquinhos, capitão do Paris Saint-Germain, e Gabriel Magalhães, titular do Arsenal, são dois dos zagueiros mais bem pagos e mais testados da Europa. Ambos estiveram em finais de Champions na temporada 2025/2026. E ambos falharam num lance de bola parada — o tipo de situação que é trabalhada em treinos desde as categorias de base.

O gol que expôs a falha de marcação na bola parada

O lance do gol marroquino revelou uma quebra de cobertura na segunda trave. A bola cruzada encontrou espaço entre os dois zagueiros brasileiros, que não estabeleceram responsabilidades claras sobre o marcador adversário. Num Mundial com equipes cada vez mais treinadas para explorar bolas paradas — Marrocos chegou à Copa invicta há 29 jogos justamente pela solidez defensiva e eficiência ofensiva em standards —, o descuido custou caro.

Marquinhos tem 30 anos e acumula mais de 400 jogos pelo PSG. Gabriel Magalhães, 27 anos, é titular absoluto de Mikel Arteta há três temporadas consecutivas no Arsenal. A experiência dos dois torna o erro ainda mais difícil de justificar tecnicamente. Luisão foi direto ao ponto: a falha não foi de leitura de jogo — foi de concentração e responsabilidade individual dentro de uma marcação zonal.

Ancelotti no banco e a ausência de Endrick no segundo tempo

O erro defensivo não foi o único alvo das críticas após o apito final. Carlo Ancelotti optou por não acionar Endrick no segundo tempo, mesmo com o Brasil pressionando em busca da virada. A decisão gerou reação imediata de analistas e torcedores. Luisão foi categórico também sobre esse ponto:

"Ele sabe que errou nas substituições. O Endrick parece um jogador veterano e mexe com o jogo."

Endrick, de 19 anos, soma 14 gols pelo Real Madrid na temporada 2025/2026 e entrou em campo em apenas quatro dos últimos seis jogos da equipe merengue como titular. Sua capacidade de desequilibrar em espaços reduzidos é justamente o que o Brasil não encontrou quando precisou abrir a defesa marroquina. Ancelotti não explicou publicamente a decisão após a partida.

O ex-zagueiro foi além na análise e distribuiu responsabilidades de forma mais ampla. Segundo ele, o resultado reflete um acúmulo institucional: "Ficamos três anos na capa de jornais com casos de corrupções e trocas de treinadores. Perdemos três anos que poderíamos ter formado um time." A declaração, registrada pelo SportNavo a partir da transmissão do Estadão, conecta o empate a um contexto que antecede a Copa em anos.

O que o Brasil precisa corrigir antes de enfrentar o Haiti

O empate não compromete matematicamente a classificação. O Brasil tem dois jogos restantes na fase de grupos e parte como favorito contra o Haiti, na próxima sexta-feira (19), às 21h30 (horário de Brasília), no Lincoln Financial Field, em Filadélfia. Mas o cenário exige respostas concretas da comissão técnica.

Três pontos precisam ser endereçados antes de sexta: a comunicação entre Marquinhos e Gabriel Magalhães nas bolas paradas defensivas, o critério de substituições de Ancelotti e a integração de Endrick ao plano de jogo. O atacante do Real Madrid tem potencial para ser o diferencial ofensivo que a equipe não teve contra Marrocos — e o técnico italiano sabe disso melhor do que ninguém.

A última partida da fase de grupos será contra a Escócia, no dia 24, em Miami. Com seis pontos disponíveis, o Brasil ainda controla seu próprio destino. O problema é que um segundo erro defensivo infantil, nas palavras de Luisão, pode transformar o controle em sobrevivência.