Confesso: eu subestimei Josh Hokit em 2025. Quando o nome apareceu nas primeiras matérias sobre o UFC Casa Branca, pensei que era mais um personagem de prateleira — aquele tipo de lutador que o Ultimate escala para criar ruído em semana de luta e some depois da pesagem. Hoje, olhando para o que aconteceu na coletiva de imprensa de maio, percebo que errei feio na leitura.
A coletiva que saiu do controle e o gesto de Topuria
Era início de maio. O palco do UFC Casa Branca reunia nomes pesados — literalmente. Alex Pereira, Ilia Topuria, Derrick Lewis e outros lutadores escalados para o card de 14 de junho dividiam o espaço quando Josh Hokit decidiu transformar a coletiva em seu próprio show. O americano direcionou insultos a Poatan — e foi além. Envolveu a mãe do brasileiro em seus ataques verbais, cruzando uma fronteira que poucos ousam atravessar em qualquer cultura, mas especialmente no universo das artes marciais mistas.
A barreira do idioma funcionou, por alguns instantes, como um escudo involuntário para Poatan. Ele não compreendeu de imediato o que estava sendo dito. Quem reagiu na hora foi Topuria, que arremessou uma garrafa na direção de Hokit. A equipe de segurança retirou o americano do palco. A cena viralizou. E a pergunta que ficou no ar: quando Poatan entendesse tudo, como reagiria?
Semanas depois, 100% a par do conteúdo dos insultos, o ex-campeão peso-médio e meio-pesado do UFC foi ao programa The Ariel Helwani Show e respondeu com a frieza característica de quem já nocauteou Jon Jones, Jiri Prochazka e Israel Adesanya.
"Acho que sim, ele passou dos limites. Eu nunca vi ninguém falar assim da mãe de ninguém. Você vê as provocações, normalmente o cara fala de mulher, do pai. Mas mãe é um negócio sagrado. Essa lei da rua é mundial. Não é só no Brasil, no mundo todo. Quando xingam sua mãe, era motivo para brigar. Então o cara ultrapassou um pouco esses limites. Mas tudo tem um preço", disse Pereira.
Quem é Hokit e por que os números dele assustam
Com apenas três lutas no UFC, Josh Hokit já figura no top 5 do ranking dos pesos-pesados. Três lutas. Esse dado, sozinho, exige atenção. Não é o perfil de lutador que o UFC usa apenas para encher card — é alguém que está construindo um cartel rápido numa divisão onde o próprio Poatan ainda não tem cinturão confirmado.
O episódio do hotel reforçou que Hokit não é personagem de uma semana. Um vídeo de bastidores divulgado pelo UFC mostra o americano xingando Pereira assim que o avista num corredor. Poatan não respondeu. Virou as costas e se afastou — um gesto que, para quem conhece o histórico do brasileiro, diz mais do que qualquer declaração inflamada. É a calma de quem sabe que a resposta definitiva acontece dentro do octógono.
A provocação de Hokit tem lógica comercial clara. Ele enfrenta Derrick Lewis no mesmo card em que Poatan disputa o cinturão interino contra Ciryl Gane no co-main event. Uma vitória de ambos coloca os dois numa rota de colisão direta. O UFC sabe disso. Hokit sabe disso. E Poatan, agora, também sabe.
O que os próximos rounds dessa rivalidade podem render
Existe uma cena que eu sempre associo ao ritmo das grandes rivalidades do MMA — aquela tensão de quinta-feira à noite na Lapa carioca, quando todo mundo finge que está relaxado mas o ar vibra com algo prestes a explodir. É exatamente o que essa história entre Pereira e Hokit tem construído desde maio.
Se Poatan vencer Gane em 14 de junho e conquistar o cinturão interino dos pesos-pesados, seu ranking na divisão salta de forma significativa. Hokit, caso supere Lewis — veterano com 29 nocautes na carreira —, consolida sua posição no top 5. O UFC teria em mãos o ingrediente perfeito: o brasileiro mais popular do esporte contra o americano mais odiado do momento.
A fórmula não é nova, mas funciona. E o detalhe que transforma essa rivalidade em algo além do marketing é justamente o que Poatan disse no Ariel Helwani Show. Ele não falou em revanche. Não pediu a luta. Disse apenas que "tudo tem um preço". Em mais de uma década cobrindo MMA, aprendi a reconhecer quando um lutador está realmente incomodado — e não apenas performando para a câmera.
Enquanto essa narrativa se desenvolve no peso-pesado, o boxe brasileiro também tem um duelo continental marcado. O Spaten Fight Night 3, confirmado para 29 de agosto em São Paulo, fecha seu card com um confronto direto entre Brasil e Argentina: Luan Medeiros enfrenta Juan Cruz Unco por um título. A informação foi publicada em matéria do SportNavo após o anúncio oficial da organização nesta terça-feira (9). Dois esportes, uma mesma energia — a rivalidade como motor do espetáculo.
O UFC Casa Branca acontece em 14 de junho. Poatan enfrenta Ciryl Gane pelo cinturão interino dos pesos-pesados. Hokit enfrenta Derrick Lewis. Se ambos vencerem, a conversa sobre quem paga o preço prometido por Pereira começa imediatamente depois do apito final.








