Quantos zagueiros brasileiros chegaram a uma Copa do Mundo com 105 jogos pela Seleção nas costas, a braçadeira de capitão no braço e ainda com capacidade de subir no ranking histórico durante o próprio torneio? A pergunta não é retórica por acaso — ela delimita o tamanho exato do momento que Marquinhos atravessa antes de o Brasil estrear no Mundial de 2026 contra Marrocos, no próximo sábado (13), no MetLife Stadium.
A resposta começa a se desenhar nos números. No último sábado (7 de junho), na vitória por 2 a 1 sobre o Egito que encerrou a preparação brasileira, o zagueiro do PSG completou sua 105ª partida com a camisa amarelinha e passou a dividir a nona colocação do ranking histórico com Emerson Leão e com Ronaldo Fenômeno. Dois jogadores de gerações e posições radicalmente distintas — um goleiro campeão mundial em 1994 e um centroavante com dois títulos mundiais (1994 e 2002) — igualados por um zagueiro que estreou pela Seleção Principal em 16 de novembro de 2013, numa goleada por 5 a 0 sobre Honduras no Hard Rock Stadium, em Miami.
A interpretação dominante que precisa ser questionada
A narrativa mais confortável sobre Marquinhos é simples: um defensor consistente, presente, mas sem o brilho suficiente para ser classificado entre os maiores. Três Copas do Mundo disputadas (2018, 2022 e agora 2026), cinco edições de Copa América (2015, 2016, 2019, 2021 e 2024) e apenas um título de expressão com a equipe principal — a Copa América de 2019, conquistada em casa. Para os que exigem troféus como critério absoluto, os 105 jogos seriam apenas longevidade, não grandeza.
Essa leitura, porém, ignora o contexto geracional. Djalma Santos, um dos maiores laterais da história da Seleção, chegou a 113 jogos numa era em que o Brasil disputava bem menos partidas por ciclo. Pelé e Thiago Silva também somam 113. Lúcio, considerado por muitos o melhor zagueiro brasileiro do século XXI, parou em 107. Taffarel, ídolo máximo de uma geração inteira de goleiros, acumula 108. Marquinhos está a dois jogos de Lúcio e a três de Taffarel — e ainda tem, no mínimo, quatro partidas garantidas na Copa do Mundo de 2026 antes de qualquer eliminação.
O que os números de confronto revelam sobre a geração
Comparar gerações exige cuidado metodológico, mas alguns paralelos são inevitáveis. Lúcio chegou aos 107 jogos ao longo de 13 anos de Seleção, entre 1999 e 2012, período que incluiu uma Copa do Mundo vencida (2002), uma vice (1998) e uma semifinal (2006). Marquinhos chegou a 105 em ciclos marcados por instabilidade técnica e trocas de comissão — Tite, Ramón Menezes, Fernando Diniz, Dorival Júnior e agora Carlo Ancelotti comandaram o Brasil nesse intervalo. Manter-se titular e capitão em meio a tamanha rotatividade de treinadores não é trivialidade.
Seu primeiro gol pela Seleção veio em 11 de setembro de 2018, na vitória por 5 a 0 sobre El Salvador, em Washington — quase cinco anos após a estreia. A trajetória nas categorias de base reforça a solidez da formação: campeão do Sul-Americano Sub-17 em 2011, vencedor do Torneio de Toulon pela Seleção Sub-21 em 2014 e integrante do grupo que conquistou a medalha de ouro olímpica no Rio de Janeiro em 2016 — um título que, para qualquer brasileiro que viveu aquela final no Maracanã no ritmo da Lapa numa quinta-feira de agosto, carrega peso emocional difícil de mensurar em estatística.
A síntese que a Copa de 2026 vai escrever
A contra-leitura dos críticos tem sustentação parcial: longevidade sem conquistas na Copa do Mundo é um dado objetivo, e Marquinhos carrega essa lacuna. Mas a síntese justa precisa pesar também o que está em jogo agora. O zagueiro chega à Copa de 2026 como capitão de uma Seleção que, na avaliação do próprio Mano Menezes — ex-técnico do Brasil entre 2010 e 2012, hoje no comando do Peru —, ainda está em desvantagem em relação às favoritas.
"Hoje, vejo a Espanha como uma equipe melhor que o Brasil. A Espanha é uma equipe consolidada e sólida, que conhece sua escalação inicial, seus reservas e suas variações táticas. O Brasil é uma equipe em desenvolvimento, nesse processo de constante mudança, tão típico do Brasil", disse Menezes após a derrota do Peru para os espanhóis em amistoso realizado em Puebla na última segunda-feira (9).
Menezes, que treinou o Brasil em 53 jogos, não descartou o hexa:
"As coisas podem acontecer. E, claro, o Brasil pode ser campeão."A frase resume exatamente a ambivalência do momento — nem favorito absoluto, nem azarão. E é nessa zona de indefinição que Marquinhos, com 105 jogos e a faixa de capitão, tem a chance de transformar longevidade em legado.
O ranking histórico, registrado pelo SportNavo, mostra o tamanho da escalada possível: se o Brasil chegar às quartas de final, Marquinhos ultrapassa Taffarel (108) e entra no top 8 de todos os tempos. Se chegar às semifinais, encosta em Thiago Silva e Pelé (113). A estreia contra Marrocos, marcada para o próximo sábado (13) às 19h (horário de Brasília), é o primeiro passo. A última partida possível — a final, em 19 de julho — é onde os números poderiam alcançar proporções que nenhum zagueiro brasileiro já atingiu.








