25 minutos. Esse é o número que define o atual momento de Gabriel Bonfim, o Marretinha. Cinco rounds completos de controle absoluto sobre Belal Muhammad — ex-campeão dos meio-médios — sem que o brasileiro cedesse sequer um assalto na pontuação dos juízes. A decisão unânime não foi uma vitória apertada: foi um argumento técnico construído round a round, que catapultou o brasiliense da 11ª posição direto para o top 5 da categoria. A pergunta que o octógono agora obriga a responder é objetiva — Marretinha consegue disputar o cinturão ainda em 2026?
O que 25 minutos contra Muhammad revelam sobre o jogo de Marretinha
Belal Muhammad não é um adversário qualquer para servir de régua. O ex-campeão construiu seu reinado com wrestling de elite, clinch asfixiante e um takedown accuracy que historicamente supera os 50% — números que tornam qualquer luta contra ele uma batalha de posicionamento. Marretinha não apenas sobreviveu a esse modelo: ele o neutralizou. O sprawl defensivo do brasileiro funcionou com consistência nos três primeiros rounds, impedindo que Muhammad estabelecesse o ground and pound que é a base do jogo do ex-campeão.
Quando o striking diferencial entra na equação, o desempenho fica ainda mais nítido. Marretinha finalizou a luta com vantagem significativa em significant strikes conectados, especialmente no trabalho de médio alcance com jabs duplos seguidos de cruzado de direita — uma combinação que Muhammad não conseguiu calibrar a defesa ao longo dos 25 minutos. O finish rate de Bonfim ao longo da carreira, superior a 60% nas vitórias, não se concretizou em nocaute desta vez, mas a qualidade técnica do desempenho foi, nas palavras do próprio lutador após o evento, direta ao ponto.
"Eu vim aqui para mostrar que sou o melhor da divisão. Queria o nocaute, mas a decisão unânime diz tudo sobre o que aconteceu naquele octógono", declarou Marretinha nos bastidores do evento.
Com 28 anos e um cartel que agora acumula vitórias sobre nomes de peso da divisão, Bonfim deixou de ser promessa monitorada para se tornar ameaça catalogada. A escalada do ranking — da 11ª para o top 5 em uma única noite — é o tipo de salto que o UFC raramente ignora quando precisa construir a narrativa do próximo desafiante ao título.
Rakhmonov no topo e os três nomes que travam a rota de Bonfim ao cinturão
Shavkat Rakhmonov segura o cinturão dos meio-médios com um cartel invicto e um finish rate de 100% nas vitórias — cada adversário que o cazaque enfrentou no UFC foi finalizado, seja por nocaute técnico ou por submission. Esse dado torna o cinturão da divisão um dos mais intimidadores do Ultimate atualmente. Para chegar até Rakhmonov, Marretinha precisa atravessar pelo menos mais um nome do top 3.
Quando se analisa o top 3 atual da divisão, três perfis distintos surgem como possíveis adversários e, simultaneamente, como obstáculos técnicos específicos. Jack Della Maddalena — ex-detentor do cinturão e alvo público declarado por Bonfim após a vitória sobre Muhammad — representa o teste de striking mais puro que o brasileiro poderia enfrentar. O australiano tem potência de nocaute em ambas as mãos e uma base de kickboxing que exigiria de Marretinha um trabalho de distância muito mais preciso do que o aplicado contra Muhammad.
"Della Maddalena, você é o próximo. Estou no top 5 e quero o melhor da divisão", afirmou Bonfim publicamente após o resultado ser anunciado.
Quando enfrenta lutadores com base de wrestling sólida, Marretinha tende a elevar o ritmo de striking para dissuadir o takedown antes mesmo que ele seja tentado — uma estratégia que consome energia nos rounds finais, mas que contra Muhammad funcionou até o quinto assalto sem queda de rendimento visível. Quando enfrenta trocadores puros, ele demonstra capacidade de variar o ângulo de entrada e usar o clínch para interromper o ritmo do adversário. Essa versatilidade técnica é o argumento mais forte a favor de um title shot em 2026.
O cenário mais realista para Marretinha chegar ao cinturão antes de dezembro
O calendário do UFC para o segundo semestre de 2026 abre uma janela concreta. Se Bonfim confirmar a luta contra Della Maddalena — ou contra outro nome do top 3 — até agosto, e o evento for realizado em outubro ou novembro, o resultado positivo colocaria o brasileiro como desafiante mandatório com argumentos irrecusáveis. O UFC tem histórico de acelerar title shots quando a narrativa comercial e o ranking se alinham, e Marretinha reúne os dois elementos agora.

Há, contudo, uma variável que o ranking não captura: a disponibilidade de Rakhmonov. O campeão tem defendido o cinturão com intervalos longos entre lutas, e qualquer lesão ou negociação prolongada pode empurrar uma eventual disputa para 2027. A movimentação da divisão também impacta outros brasileiros — Caio Borralho, que desceu para a quinta posição nos médios após uma cirurgia por lesão na costela, é exemplo de como o tempo de inatividade corrói posições conquistadas com suor.
No universo dos pesos-médios leves, a cena brasileira ganha outro capítulo em agosto. Michael Oliveira, o PQD, fará sua estreia no UFC no dia 1º de agosto, no card do UFC Sérvia, diante do galês Oban Elliott — uma estreia que o prospecto carioca aguarda há quase um ano. O desempenho de Oliveira nessa noite vai indicar se o Brasil terá um segundo nome em ascensão simultânea para monitorar no segundo semestre.
Para Marretinha, a janela está aberta e os números sustentam a candidatura. Uma vitória sobre Della Maddalena ou qualquer nome do top 3 antes de outubro coloca o brasiliense de 28 anos em posição de exigir a luta pelo cinturão de Rakhmonov. Se o UFC Sérvia de 1º de agosto servir de termômetro para o interesse da organização na cena brasileira, e se Bonfim fechar contrato nas próximas semanas, saberemos até o fim de setembro se o title shot chega ainda em 2026 ou escorrega para o início do próximo ano.








