Uma seleção que não joga em casa há quatro anos e que forma seu elenco majoritariamente em ligas europeias chega à Copa do Mundo como uma das mais temidas do planeta. Esse é o paradoxo marroquino — e o amistoso deste domingo contra a Noruega, às 16h (de Brasília), no Sports Illustrated Stadium, em Nova Jersey, é o último laboratório antes de o mundo descobrir se a contradição é aparente ou real.

A herança de 2022 e o peso de superá-la

Poucos feitos na história das Copas do Mundo têm o peso simbólico que carrega a campanha marroquina de 2022, no Catar. Pela primeira vez, uma seleção africana alcançou as semifinais de um Mundial: quatro vitórias e uma eliminação diante da França de Mbappé, por 2 a 0, após derrubar Espanha (nos pênaltis), Portugal (1 a 0) e Bélgica (2 a 0) no caminho. O índice de PPDA (passes permitidos por ação defensiva) do Marrocos naquele torneio ficou consistentemente abaixo de 8,0, o que, para o leigo, significa que a equipe sufocava o adversário antes mesmo que a bola chegasse ao terço final — uma das marcas de pressão mais agressivas da competição.

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O técnico Walid Regragui, responsável pelo feito em 2022, deixou o cargo em março de 2025 após resultados abaixo do esperado na Copa Africana de Nações. Seu substituto, Mohamed Ouahbi, manteve o esquema base em 4-3-3 mas introduziu variações posicionais que permitem transições mais verticais. Sob Ouahbi, o Marrocos disputou 12 partidas e perdeu apenas duas — ambas em 2025, contra a Costa do Marfim (1 a 0) e contra a França (2 a 1) em amistoso de novembro. Nos últimos 14 meses, nenhuma derrota.

O que a escalação contra a Noruega revela sobre o plano de Ouahbi

A formação confirmada para o amistoso deste domingo já entrega intenções táticas. No gol, Yassine Bounou, que passou pelo Sevilla e hoje defende o Al-Hilal na Arábia Saudita, é um dos goleiros de maior leitura de jogo do circuito internacional — salvou três chutes de dentro da grande área na fase eliminatória de 2022. Na lateral direita, Achraf Hakimi, do PSG, é o jogador de maior valor de mercado do elenco (estimado em €70 milhões) e o principal mecanismo de progressão pela direita, com média de 4,2 cruzamentos por partida na temporada 2025/26 pela Ligue 1.

No meio-campo, a presença de Brahim Díaz — nascido em Málaga, naturalizado marroquino, formado no Manchester City e hoje no Real Madrid — é o elo entre a criação e a finalização. Ao lado dele, Ezzalzouli e El Khannouss formam um trio que combina velocidade e técnica de toque curto. A linha de cinco no meio (quando o time recua) transforma o 4-3-3 em um 4-5-1 compacto que historicamente reduz os espaços para seleções que dependem de posse, como o Brasil.

A herança de 2022 e o peso de superá-la Marrocos chega ao Brasil sem ter perdido
A herança de 2022 e o peso de superá-la Marrocos chega ao Brasil sem ter perdido
"Queremos mostrar que 2022 não foi sorte — foi método", declarou Ouahbi em entrevista coletiva realizada em Rabat, em maio de 2026, ao apresentar a lista de convocados para a Copa.

Haaland e a Noruega como termômetro real

O adversário deste domingo não é figurante. A Noruega retorna a uma Copa do Mundo pela primeira vez desde a edição de 1998, na França, quando foi eliminada na segunda fase pelo Brasil de Ronaldo, Rivaldo e Bebeto — placar de 4 a 1 em Marselha. A geração atual, liderada por Erling Haaland e Martin Ødegaard, é estruturalmente diferente: o Manchester City pagou £51,2 milhões por Haaland em 2022 e o norueguês acumulou 54 gols em 41 partidas pela seleção até maio de 2026, média de 1,32 por jogo. O técnico Ståle Solbakken perdeu apenas uma das últimas 15 partidas com a equipe.

Para Marrocos, enfrentar Haaland no último teste é quase um presente. O centroavante do City opera exatamente no espaço entre a linha defensiva e o volante — a mesma zona que Rodrygo e Raphinha tentarão explorar em 13 de junho. Se El Aynaoui e a dupla de zaga formada por Halhal e Diop conseguirem anular o norueguês ou ao menos limitar seus movimentos sem linha defensiva, Ouahbi terá validado um esquema. Se Haaland encontrar espaço, o Brasil saberá exatamente onde atacar, conforme registrado por SportNavo ao longo do acompanhamento do ciclo preparatório dos Leões do Atlas.

"Haaland é o melhor teste que poderíamos ter antes de uma Copa. Quem consegue segurar ele tem meio caminho andado", disse o zagueiro Nayef Aguerd em declaração ao canal oficial da Federação Marroquina, publicada em 4 de junho de 2026.

O que o Brasil enfrenta no dia 13 de junho

A estreia do Brasil na Copa do Mundo de 2026 está marcada para 13 de junho, em local ainda a confirmar pela FIFA dentro dos três países-sede. O Marrocos que vai a campo naquela data não é o mesmo de 2022 — é mais veloz, com um xG (expected goals) médio de 1,7 por partida nos últimos oito amistosos, índice que supera o registrado pelos africanos durante toda a fase de grupos em 2022 (média de 1,1). Hakimi terá 27 anos, Brahim Díaz 26: o núcleo técnico está no pico fisiológico.

A seleção brasileira, sob o comando de Carlo Ancelotti, precisará ter respostas para um bloco baixo que pressiona alto nos primeiros 20 minutos e depois recua para sufocar. O histórico direto entre Brasil e Marrocos registra apenas dois confrontos oficiais: uma vitória brasileira por 3 a 0 nas quartas de final dos Jogos Olímpicos de 2020 (Tóquio, 2021) e um empate sem gols em amistoso de 2006. Em Copas do Mundo, o encontro será inédito.

Marrocos está pronto para ser protagonista — falta o palco do MetLife Stadium para confirmar se a história de 2022 foi apenas o ensaio geral.