Confesso: eu errei sobre o Marrocos em 2024. Achei que a campanha histórica do Qatar, semifinalista em 2022, era um pico isolado — uma daquelas janelas que o futebol abre raramente e fecha depressa. Hoje, vendo 29 jogos sem derrota e três títulos acumulados em menos de 12 meses, entendo que errei a leitura. Os Leões do Atlas não repetiram um feito; eles construíram uma identidade.

29 jogos, três títulos e a muralha que o Brasil precisa demolir

A série invicta do Marrocos começou em agosto de 2025 e atravessou amistosos, eliminatórias e competições oficiais. No período, a equipe do técnico Mohamed Ouahbi conquistou o Campeonato Africano de Nações, a Copa Árabe e a Copa das Nações Africanas — esta última por W.O., após decisão da Confederação contra o Senegal, o que não diminui o peso administrativo do título, mas reduz seu valor competitivo como indicador de nível.

O meio-campo é a parede de ferro que sustenta essa sequência. Sofyan Amrabat, do Betis, opera como pivô defensivo e organizador ao mesmo tempo — função que exerceu com destaque no Qatar e que ganhou ainda mais consistência nos últimos meses. É ele quem dá ritmo e freio à equipe, impedindo transições rápidas adversárias e alimentando o ataque com passes verticais precisos.

Na véspera da estreia, Amrabat foi direto ao ponto em entrevista à TV Globo:

"O Brasil, eu acho, desde que nasci, sempre foi a Seleção com grandes estrelas, jogadores incríveis. Eles têm uma Seleção fantástica, então, temos muito respeito por eles. Mas estaremos prontos, vamos dar tudo de nós. E sim, vamos tentar, é claro, vencê-los, porque temos que ter muita confiança em nós mesmos e na nossa qualidade."

O volante complementou o recado sem hesitar:

"Mais uma vez, com muito respeito por eles, mas não temos medo de ninguém. Acho que o Brasil ainda será o favorito, mas nós também somos bons. E, repito, não temos medo. Temos muita confiança, mas com muito respeito e humildade. E vamos lutar por isso."

A leitura oposta — três baixas que abrem brechas reais

A narrativa da invencibilidade, porém, encontra ruído nos relatórios médicos desta quarta-feira (10/6). O treinamento realizado em Basking Ridge, em Nova Jersey, teve três ausências significativas que podem reconfigurar o plano de Ouahbi para o duelo de sábado, no MetLife Stadium, em East Rutherford.

O caso mais delicado envolve Abde Ezzalzouli, atacante do Betis e um dos destaques ofensivos da equipe. O jogador sofreu uma lesão no joelho direito durante o empate por 1 a 1 com a Noruega e precisou deixar o campo auxiliado pela equipe médica. A tendência é que ele fique fora da estreia, embora a comissão técnica tenha optado por mantê-lo no grupo, apostando em uma possível recuperação para a reta final da fase de grupos ou o mata-mata.

A lateral esquerda é o segundo ponto de tensão. Noussair Mazraoui, do Manchester United, sofreu lesão no ombro no mesmo amistoso contra a Noruega e segue em recuperação. Anass Salah Eddine, que seria o substituto imediato na posição, também não participou dos treinos. Se ambos forem vetados para sábado, Youssef Belammari, do Al-Ahly, seria a única opção disponível — um jogador com muito menos rodagem internacional.

Em contrapartida, Ouahbi recebeu uma notícia positiva: o zagueiro Nayef Aguerd voltou a treinar normalmente com o restante do grupo. Afastado desde março após cirurgia para tratar uma pubalgia, o defensor tem grandes chances de atuar desde o início contra o Brasil.

O Brasil de 2026 não é o Brasil de 1998 — e Amrabat sabe disso

O único precedente entre as duas seleções em Copas do Mundo data de 1998: vitória brasileira por 3 a 0, na fase de grupos da edição francesa. Amrabat, nascido em 1996, foi taxativo ao contextualizar aquele resultado: "Foi há muito tempo, eu nem tinha nascido ainda. Então, não posso falar muito sobre aquela época, mas agora estamos em 2026. Acho que Marrocos deu passos enormes. E sim, estamos aqui, espero, para vencer."

A síntese justa entre os dois ângulos desta matéria aponta para um confronto genuinamente equilibrado. O Marrocos tem consistência estatística e identidade tática consolidada — mas chega ao jogo mais importante do ano com a lateral esquerda indefinida e o principal atacante em dúvida. O Brasil, favorito reconhecido até pelo próprio adversário, tem a obrigação de explorar exatamente essas arestas: pressão sobre o corredor esquerdo marroquino e velocidade nas transições para testar a defesa reconstruída.

Brasil e Marrocos se enfrentam no sábado, 13 de junho, às 19h (horário de Brasília), no MetLife Stadium, em East Rutherford, Nova Jersey, pela primeira rodada do Grupo C da Copa do Mundo de 2026. O grupo ainda conta com Escócia e Haiti. Uma vitória marroquina seria a primeira sobre a Seleção Brasileira em toda a história das duas nações.