O que exatamente torna uma seleção perigosa num torneio de 48 equipes? É a pergunta que qualquer analista deveria fazer antes de descartar Marrocos como coadjuvante no Grupo A da Copa do Mundo de 2026. A resposta não cabe numa única estatística, mas começa num dado que poucos torneios produzem: em 2022, no Qatar, a seleção marroquina eliminou Espanha e Portugal em sequência e chegou às semifinais — façanha inédita para qualquer seleção africana. Quatro anos depois, a estrutura que tornou isso possível não foi desmontada. Foi expandida.

A pergunta que o torcedor brasileiro faz agora — e que tem toda razão de fazer — é se aquela campanha foi um pico isolado ou o início de um ciclo. Os dados de elenco, a trajetória recente na Copa Africana de Nações e a incorporação de novos talentos sugerem que a resposta não é confortável para quem prefere encarar Marrocos como um adversário gerenciável na estreia do Mundial.

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O que sobrou de 2022 e o que Marrocos acrescentou desde então

A espinha dorsal que chegou às semifinais do Qatar permanece intacta. Yassine Bono segue na meta, Achraf Hakimi mantém o posto de lateral direito mais completo do mundo fora do eixo das seleções favoritas, Noussair Mazraoui opera no flanco oposto e Sofyan Amrabat ancora o meio com uma capacidade de recuperação de bola que poucos volantes no planeta igualam. Essa base, por si só, já justificaria atenção.

O que mudou foi a camada de cima. Brahim Díaz, que optou por defender Marrocos em vez de Espanha, integra agora um meio-campo que combina experiência europeia com agressividade jovem. Os meio-campistas Ayyoub Bouaddi e Ismael Saibari, além dos meia-atacantes Bilel El Khanouss e Abde Ezzalzouli — este último ausente por lesão às vésperas do torneio — representam uma geração que cresceu observando os mais velhos fazerem história. A diferença de maturidade entre o elenco de 2022 e o atual é da ordem de um ciclo completo de aprendizado em alto nível, o equivalente, em termos de percurso formativo, à distância entre São Luís e Porto Alegre — não é a mesma equipe, é uma equipe que foi além.

A troca de treinador merece atenção analítica. Walid Regragui, arquiteto da campanha histórica no Qatar, cedeu o posto a Mohamed Ouahbi. Mudanças de comando em ciclos de alta performance costumam gerar instabilidade, mas a campanha na Copa Africana de Nações demonstrou que o modelo tático — bloco baixo, transição veloz, pressão seletiva no campo do adversário — sobreviveu à transição. Ouahbi não reinventou o sistema; ele o refinou.

O que sobrou de 2022 e o que Marrocos acrescentou desde então Marrocos pode repe
O que sobrou de 2022 e o que Marrocos acrescentou desde então Marrocos pode repe

Por que o grupo com o Brasil é um teste e não uma sentença

O sorteio colocou Marrocos numa posição que seria descrita como desfavorável para qualquer seleção africana em edições anteriores da Copa. Estar no mesmo grupo da Seleção Brasileira poderia ser lido como fim de linha antecipado. Mas o contexto de 2026 é diferente, e o novo formato do torneio — 48 seleções, 12 grupos de quatro, com os dois primeiros e os oito melhores terceiros avançando — amplia as margens de sobrevivência.

Marrocos não precisa vencer o Brasil para avançar. Precisa, no mínimo, não ser destruído. E a história recente sugere que o time tem ferramentas defensivas para conter até os melhores ataques do mundo. No Qatar, a Espanha — que havia marcado 12 gols nas eliminatórias europeias sem sofrer nenhum — não conseguiu converter nenhuma de suas 22 finalizações contra a muralha marroquina. Portugal, com Cristiano Ronaldo no banco, também foi neutralizado.

O Brasil de 2026 chega ao torneio com uma proposta ofensiva renovada, mas ainda em processo de consolidação sob o comando de Ancelotti. A estreia contra Marrocos não é um passeio — é um exame de consistência para ambas as seleções. Segundo análises do portal Trivela, nas principais projeções do chaveamento, Marrocos pode ainda enfrentar Holanda ou Japão nas oitavas de final, o que tornaria a campanha ainda mais exigente a partir da segunda fase.

Quais seleções dividem com Marrocos o posto de zebra mais qualificada

Marrocos não está sozinho na lista de candidatos a protagonizar a surpresa do torneio. O Equador, segundo colocado nas Eliminatórias Sul-Americanas, chegou à Copa do Mundo de 2026 com uma evolução tática consistente sob Sebastian Beccacece — o técnico assumiu em 2024 e levou a seleção a uma vitória sobre a Argentina na última rodada das eliminatórias. A Bósnia e Herzegovina, que eliminou País de Gales e Itália nos pênaltis para chegar ao torneio, representa outro caso de campanha improvável transformada em presença real no Mundial — é sua segunda Copa como nação independente, 12 anos após a estreia no Brasil em 2014.

O Canadá de Jesse Marsch, anfitrião do grupo que inclui Suíça e Catar, chega ao torneio com apenas uma derrota nos últimos 15 jogos e com Jonathan David como maior artilheiro da história da seleção, com 39 gols em 77 partidas. A ausência de Alphonso Davies na estreia — o lateral do Bayern de Munique está fora por lesão muscular — muda o perfil ofensivo do time, mas não elimina o potencial de surpresa num grupo que, no papel, é mais equilibrado do que parece.

Entre todos esses candidatos, Marrocos se distingue por um critério objetivo que os outros ainda não têm: histórico comprovado de performance em Copa do Mundo contra adversários de elite. Equador, Bósnia e Canadá apostam em ciclos promissores. Marrocos tem uma semifinal documentada como referência.

"Com a base de quatro anos atrás mantida e adições importantes, Marrocos cresceu em um cenário geral, como demonstrou na campanha da Copa Africana de Nações", avaliou o portal Trivela ao listar as seleções com maior potencial de surpresa no torneio.

A estreia dos Leões do Atlas contra o Brasil está marcada para a fase de grupos, no MetLife Stadium, em Nova Jersey. Se Marrocos conseguir ao menos empatar ou sair derrotado por margem mínima, o grupo se abre de forma imprevisível — e a seleção africana, com o segundo jogo contra adversário mais acessível, pode chegar à segunda fase com moral e sistema intactos. A pergunta que fica para o leitor que acompanhará o torneio é concreta: se Marrocos empatar com o Brasil na estreia e avançar em segundo lugar do grupo, qual seleção europeia nas oitavas teria mais dificuldade de conter o bloco defensivo de Ouahbi — Holanda ou Japão?