O Estádio Olímpico Nilton Santos estava vazio quando a delegação brasileira chegou para o último treino antes do sábado — mas o silêncio não enganava ninguém que acompanha esse grupo há dois anos. A seleção feminina de Arthur Elias enfrenta os Estados Unidos em dois amistosos, no dia 6 e no dia 9 de junho, e o peso desses 180 minutos é desproporcional ao calendário. A Copa do Mundo de 2027 será disputada em solo brasileiro, e cada ensaio contra as americanas vale como capítulo de um roteiro que o Brasil ainda está escrevendo.
Marta no centro do tabuleiro de Arthur Elias
Marta, 40 anos, é a peça que organiza o debate tático e o debate emocional ao mesmo tempo. Nenhuma outra jogadora da história do futebol feminino acumula o que ela acumula — seis prêmios de melhor do mundo pela FIFA, artilheira histórica de Copas com 17 gols, presença em seis edições do torneio. Quando ela aparece na lista de convocadas, o questionamento sobre a utilidade da veterana já está superado: Arthur Elias a convoca porque ela resolve situações que nenhuma jovem de 22 anos resolve, sobretudo em campo reduzido e sob pressão de marcação americana.
O histórico direto entre Brasil e Estados Unidos é de domínio americano nas grandes decisões. Nas Olimpíadas de Paris 2024, as norte-americanas venceram o Brasil na final por 1 a 0, com gol de Mallory Swanson, conquistando o ouro. O vice olímpico dói — mas também funciona como combustível. Dudinha, Gabi Portilho e Ludmila, trio brasileiro que defende o San Diego Wave na NWSL, falaram sobre esse sentimento antes dos jogos desta semana.
"Jogar em casa é uma das melhores sensações. Contra os Estados Unidos, tenho certeza que bastante gente vai assistir. Vai ser um clima de Copa do Mundo de fato. A torcida nos apoiando sempre dá uma inspiração, dá uma vontade maior", explicou Dudinha.
A afirmação de Dudinha tem respaldo histórico. O Brasil jogou a FIFA Series em Cuiabá no segundo semestre de 2025 e venceu a competição diante de sua própria torcida — resultado que Arthur Elias usou como referência de comportamento tático coletivo. A diferença agora é o nível do adversário: os EUA são tetracampeões mundiais, com títulos em 1991, 1999, 2015 e 2019, e a equipe atual foi reconstruída com velocidade após a aposentadoria de Alex Morgan.
O estilo "louco" que Elias construiu e o que ele representa
Ludmila, que jogou pelo Atlético de Madrid antes de se transferir para os EUA, definiu Arthur Elias com uma palavra que nenhum técnico costuma receber como elogio: "louco". No contexto do futebol feminino brasileiro, onde a herança de Vadão e de esquemas conservadores ainda pesa, ser "louco" significa escalar cinco atacantes, alternar entre 4-3-3 e 4-2-3-1 dentro do mesmo jogo e usar as laterais em função ofensiva com uma frequência que surpreende os adversários.
"Trabalhar com o Arthur é muito bom. Ele sempre tem surpresas", disse Ludmila, sem entregar os detalhes táticos — o que por si só é uma informação sobre o grau de confiança que o grupo deposita no técnico.
Gabi Portilho, que conhece o impacto da torcida pelos anos no Corinthians — clube com o qual venceu múltiplos títulos nacionais e internacionais —, colocou a questão em perspectiva histórica de forma direta. O Corinthians feminino dominou o futebol brasileiro entre 2017 e 2023 com uma média de público superior a qualquer outro clube do país, e Portilho viveu isso de dentro.
"Quando eu joguei no Corinthians e tinha os jogos decisivos, a Arena lotada era o nosso 12.º jogador, isso fazia muita diferença. A gente ganhou muitos títulos por causa disso. A gente vai plantando a sementinha para poder ir amadurecendo cada vez mais até a Copa", complementou a atacante.
O que Brasil precisa provar antes da Copa de 2027
A seleção brasileira chega à Copa do Mundo de 2027 sem nenhum título na competição. A única final foi em 2007, na China, quando o Brasil perdeu para a Alemanha por 2 a 0 — com gols de Birgit Prinz e Simone Laudehr. Desde aquele torneio, o Brasil não voltou a uma semifinal sequer. Dezoito anos de ausência nas fases decisivas é um dado que Arthur Elias carrega como contexto e como motivação.
Os dois amistosos contra os EUA têm função dupla: testar o esquema ofensivo que Elias quer consolidar e medir a resistência defensiva contra uma equipe que usa pressão alta com eficiência industrial. A zaga brasileira foi o ponto fraco em Paris — Swanson encontrou espaço na final que uma equipe bem organizada não deveria oferecer. Nos treinos desta semana, o técnico trabalhou especificamente a saída de bola sob pressão, conforme registrado pelo SportNavo a partir de fontes próximas à comissão técnica.
Marta não joga como ponta nem como centroavante clássica neste ciclo. Arthur Elias a usa como meia-atacante pelo lado direito, função que libera Ary Borges para circular pelo meio e Adriana para explorar a profundidade. Esse arranjo deu certo contra equipes de bloco médio na FIFA Series. Contra os EUA, que pressionam alto e têm Rose Lavelle e Lindsey Horan como dupla de contenção de alto nível, a prova será outra — e Marta precisará resolver em menos espaço e em menos tempo do que estava acostumada nos anos 2010.
O primeiro amistoso acontece no sábado, dia 6 de junho, e o segundo na terça-feira, dia 9. Dois jogos, um diagnóstico: o Brasil de 2027 já existe ou ainda está sendo inventado.








