A mais importante jogadora da história do futebol feminino brasileiro estava no banco. Portimão ficou para trás. O gramado do amistoso contra os Estados Unidos, nesta terça-feira (9), foi ocupado por outras onze — e Marta, pela primeira vez em muito tempo, precisou assistir de fora enquanto a seleção tentava funcionar sem ela. O paradoxo é real: o maior símbolo da equipe se tornou, nas últimas semanas, a maior incógnita da preparação para a Copa do Mundo.
A lesão que mudou o roteiro de Portimão
No dia 24 de maio, durante um treino da Seleção Brasileira Feminina, Marta sentiu dor na coxa esquerda. O diagnóstico confirmou lesão no bíceps femoral — o mesmo músculo que já assombrou carreiras inteiras no futebol masculino e feminino. Desde então, a camisa 10 não toca em bola. A rotina dela é fisioterapia em Portimão, Portugal, onde a delegação brasileira montou sua base de preparação para os amistosos pré-Copa.
A comissão técnica comandada por Arthur Elias foi cautelosa. Marta foi relacionada para o amistoso contra os EUA, marcado para as 21h20 (horário de Brasília) desta terça, mas com minutagem controlada. A decisão sinaliza que o corpo técnico não quer arriscar uma recaída a menos de dois meses do início da competição. Nos bastidores, a tensão é real — e quem acompanha o dia a dia da delegação sabe que o nome de Marta aparece em toda conversa sobre escalação.
O peso de um número que assusta qualquer planejamento
Marta tem 40 anos. Já marcou mais gols em Copas do Mundo Femininas do que qualquer jogador — homem ou mulher — na história do torneio: 17 gols em cinco edições. Para ter uma dimensão do que isso representa fora do esporte, é como se um único músico tivesse composto mais álbuns de platina do que toda uma gravadora em quatro décadas. A comparação soa exagerada até você olhar os números de perto.
O problema não é apenas a ausência temporária. É o que a lesão revela sobre a dependência estrutural da equipe. A seleção feminina brasileira construiu, ao longo dos anos, um sistema que orbita em torno da genialidade individual de Marta. Com ela fora do treino coletivo, Arthur Elias precisou redistribuir responsabilidades criativas — e o amistoso contra os Estados Unidos serviu exatamente como laboratório para essa redistribuição.
Arthur Elias e o xadrez sem a rainha
O técnico Arthur Elias não revelou publicamente qual será o esquema tático caso Marta precise ser poupada na fase de grupos da Copa. Mas as movimentações nos treinos em Portimão indicam que a comissão técnica tem testado variações com Ary Borges e Kerolin assumindo protagonismo na criação. As duas têm perfis diferentes de Marta — mais físicas, menos dependentes da genialidade de um toque de calcanhar ou de uma virada de quadril — mas têm mostrado consistência nos amistosos preparatórios.

Nas palavras do próprio Arthur Elias, em entrevistas recentes à imprensa brasileira, a prioridade é chegar à Copa com Marta disponível, mesmo que em ritmo de jogo reduzido. A lógica é clara: uma Marta de 70% é diferente de qualquer outra jogadora de 100%. O técnico, no entanto, sabe que não pode planejar apenas para um cenário. A preparação precisa contemplar os dois caminhos — com e sem a camisa 10 em campo desde o início.

"A Marta está fazendo o processo de recuperação dentro do esperado. A gente vai cuidar dela com muito carinho e responsabilidade", disse Arthur Elias em coletiva antes do embarque para os amistosos.
O amistoso desta terça contra os EUA — transmitido pela Globo a partir das 21h20 — não é apenas um teste tático. É a primeira vez que o público vê em campo a resposta para a pergunta que domina as conversas da torcida: o Brasil feminino consegue ser competitivo sem Marta nos primeiros minutos? A resposta que vier do gramado vai pesar diretamente nas decisões de Arthur Elias para a estreia na Copa.
"Ela foi relacionada, mas a decisão de quando ela entra é nossa. Vamos respeitar o processo", reforçou o treinador, deixando claro que não haverá pressa na volta da atleta.
A Copa do Mundo Feminina de 2027 será realizada no Brasil — e Marta já sinalizou que quer disputar o torneio em casa, diante da própria torcida, em uma despedida à altura de tudo que construiu. Para que esse roteiro se cumpra, cada semana de fisioterapia em Portimão é uma peça no lugar. A seleção feminina brasileira, neste momento, funciona como uma receita em que o ingrediente principal ainda está fora do forno — e o chef precisa decidir o que servir enquanto espera.








