Quantos jogadores conseguem mudar de seleção, estrear em amistoso e ainda chegar à Copa do Mundo — tudo em menos de quatro meses? A pergunta não é retórica por acaso. Ela descreve com precisão o que Maurício está vivendo em 2026.

O meia do Palmeiras concluiu a naturalização paraguaia em fevereiro, foi convocado pelo técnico Gustavo Alfaro em março e, no dia 27 daquele mês, entrou em campo no Estádio Georgios Karaiskáki, em Pireu, para substituir Diego Gómez, do Brighton, aos 16 minutos do segundo tempo. O Paraguai venceu a Grécia por 1 a 0. Maurício ficou em campo por cerca de 30 minutos — tempo suficiente para deixar sua marca no currículo da Albirroja a menos de três meses do início da Copa do Mundo.

O processo que começou antes de virar manchete

A história da naturalização não nasceu de uma articulação de última hora. Maurício revelou que o processo documental já estava em andamento desde a temporada passada, muito antes de qualquer notícia vazar nos portais esportivos. "Desde o ano passado, eu já vinha, por conta própria, fazendo esse trâmite de documentação", explicou o meia. "Também falei com o Gómez, que me ajudou nesse processo, mostrando o caminho. A notícia acabou saindo agora, mas eu já estava desde o ano passado atrás disso."

O laço com o Paraguai não é burocrático — é familiar. Maurício tem ascendência paraguaia por parte do pai, o que deu base legal e emocional para a mudança de nacionalidade esportiva. Gustavo Gómez, zagueiro e capitão da Albirroja, foi o principal facilitador dentro do vestiário da seleção. A relação entre os dois no Palmeiras tornou o caminho mais curto.

Nas redes sociais, após a confirmação da convocação, Maurício publicou a foto oficial com a camisa do Paraguai e escreveu:

"O sangue da minha família falou mais alto. Orgulhoso de defender a Albirroja! ¡Aguyje Paraguay, che retã!"

O que Alfaro enxerga que os números confirmam

Gustavo Alfaro não foi modesto ao explicar por que queria Maurício. Em coletiva antes do amistoso contra a Grécia, o técnico argentino foi direto: "No caso do Mauricio, ele é um jogador que de repente nos dá essa capacidade de organizar o jogo que talvez o Paraguai não tenha, porque o Paraguai não tem organizador nato. Temos bons jogadores, mas não temos um que controle o ritmo da equipe."

A leitura de Alfaro faz sentido quando se olha para os dados da temporada 2025/2026 do Palmeiras. Maurício é um dos meias mais eficientes do Brasileirão em termos de progressive passes — passes que avançam ao menos 10 metros em direção ao gol adversário. Enquanto a média de um meia-titular no campeonato fica em torno de 6 a 8 progressive passes por 90 minutos, Maurício consistentemente supera essa marca, funcionando como o conector entre a saída de bola e a criação ofensiva.

Dois outros indicadores reforçam o perfil que Alfaro busca:

  • xA (expected assists): mede a qualidade das chances criadas por passes. Maurício acumula valores acima de 0,15 xA por 90 minutos na temporada atual — o que, traduzindo, significa que ele cria pelo menos uma chance de gol a cada 6-7 partidas só pelo peso dos passes, independentemente de o atacante converter ou não.
  • PPDA (passes permitidos por ação defensiva): essa métrica avalia o quanto uma equipe pressiona o adversário. Quando Maurício está em campo pelo Palmeiras, o PPDA do time cai — o que indica que ele também participa ativamente do pressing alto, não sendo apenas um jogador de posse.

Para um Paraguai que historicamente depende de transições rápidas e organização defensiva, ter um meia que une construção de jogo e pressão ativa é, de fato, algo que a seleção não tinha de forma consistente.

"Um meia com esse perfil muda completamente o eixo de um time que vive de transições. O Paraguai sempre teve guerreiros — agora tem um maestro", disse um analista tático de seleções sul-americanas, em comentário publicado durante a transmissão do amistoso.

O Grupo D e o que Maurício representa para a Albirroja em junho

O Paraguai retorna ao Mundial após 16 anos de ausência — a última participação foi na África do Sul, em 2010. Para a edição de 2026, a seleção de Alfaro caiu no Grupo D ao lado de Estados Unidos, Austrália e o vencedor da repescagem da Uefa. Três adversários com perfis bastante distintos, o que exige versatilidade tática.

A estreia de Maurício foi o segundo amistoso do ciclo preparatório, depois do confronto contra Marrocos, na França, em 31 de março. O técnico usou as duas datas FIFA de março para observar o rendimento do palmeirense em contexto de seleção — e a avaliação interna, segundo os relatos pós-jogo, foi positiva.

O próprio Maurício calibrou as expectativas com clareza: "Fico muito feliz por ter dado certo, porque é uma opção a mais que a gente tem. É claro que eu tenho que fazer um trabalho muito bem feito aqui no Palmeiras para poder ter essa oportunidade na Seleção Paraguaia, mas sempre pensando também na parte familiar, porque temos esse laço muito forte."

Além de Maurício, o Palmeiras terá outros dois representantes na Copa: Gustavo Gómez, que iniciou o amistoso contra a Grécia como titular e é capitão da equipe, e Ramón Sosa, que entrou no decorrer da partida. Três jogadores do mesmo clube no mesmo grupo de uma Copa do Mundo é um dado que, conforme apurado em matéria do SportNavo, reforça o peso do futebol brasileiro no atual ciclo paraguaio.

O Paraguai estreia no Grupo D em junho, e Maurício deve estar na lista definitiva de Alfaro. Vale acompanhar as próximas convocações — a confirmação do nome na lista final para o Mundial deve sair nas próximas semanas e vai definir se o meia do Palmeiras entra em campo no maior palco do futebol com a camisa vermelha e branca da Albirroja.