"Não posso jogar para torcedores que me tratam como animal." A frase, dura como concreto, saiu da boca de Kylian Mbappé depois da eliminação da França nas oitavas de final da Euro 2020 — e ela quase virou um adeus definitivo à camisa azul. O atacante tinha 22 anos, era o jogador mais veloz do planeta, e estava a um passo de fechar a porta da seleção francesa para sempre.

Os ataques racistas que quase silenciaram Mbappé na seleção francesa

O verão europeu de 2021 deixou uma marca que nenhum placar apaga. Após perder o pênalti decisivo contra a Suíça no Estádio Nacional de Bucareste — eliminação nas oitavas, para um time que ninguém esperava — Mbappé foi bombardeado nas redes sociais com mensagens racistas que misturavam xingamentos e imagens degradantes. O volume foi suficiente para travar qualquer ser humano. Segundo relatos publicados na imprensa francesa, o atacante chegou a comunicar ao staff da federação que não queria mais ser convocado. A palavra "quase" nunca pesou tanto no futebol europeu.

Para entender a dimensão da crise, basta olhar para o passado. Na Copa de 1998, quando a França levantou o troféu pela primeira vez ao derrotar o Brasil por 3 a 0 no Stade de France, o discurso nacional era de uma seleção que representava a diversidade como força — "black, blanc, beur", como ficou conhecida aquela geração. Mais de duas décadas depois, em 2021, Mbappé descobria que parte da torcida ainda não havia absorvido essa ideia. O contraste entre o discurso e a realidade era brutal.

O então técnico Didier Deschamps teve papel central na contenção da crise. Segundo fontes próximas ao vestiário francês, o treinador ligou pessoalmente para Mbappé, garantiu apoio institucional da federação e trabalhou para que o caso não chegasse ao ponto de ruptura pública. A federação francesa, por sua vez, abriu processo formal contra os autores das mensagens — um gesto que, segundo o próprio jogador à época, foi decisivo para que ele reconsiderasse sua posição.

"Várias seleções o querem", disse Mbappé ao ser perguntado sobre o futuro de Deschamps, numa declaração que carrega muito mais do que elogio profissional.

O que os números revelam sobre a relação entre Mbappé e Deschamps

Desde a Euro 2020 até a convocação para a Copa do Mundo 2026, Mbappé disputou mais 47 partidas pela seleção francesa — praticamente uma nova carreira dentro da carreira. Sob o comando de Deschamps, ele acumula 48 gols em 90 jogos com a camisa da França, tornando-se o maior artilheiro da história da seleção acima de Thierry Henry, que marcou 51 gols em 123 partidas. A diferença de eficiência é gritante: Mbappé atinge a média de 0,53 gols por jogo, contra 0,41 de Henry.

Os ataques racistas que quase silenciaram Mbappé na seleção francesa Mbappé pede
Os ataques racistas que quase silenciaram Mbappé na seleção francesa Mbappé pede

Deschamps, por sua vez, carrega uma credencial que apenas outros dois técnicos na história do futebol mundial possuem: conquistou a Copa do Mundo como jogador, em 1998, e como treinador, em 2018, quando a França bateu a Croácia por 4 a 2 na final de Moscou. Além dele, só Mário Zagallo — bicampeão em 1958 e 1962 como jogador ao lado de Pelé e Garrincha, campeão em 1970 como técnico — e Franz Beckenbauer — campeão em 1974 como jogador e em 1990 como técnico, contra a Itália — ostentam esse feito. Quando Mbappé diz que quer que Deschamps seja bem despedido, ele fala de alguém que está nessa prateleira histórica.

A Itália, que busca uma reformulação completa após ficar de fora de mais uma Copa do Mundo — desta vez, sem passar pela repescagem europeia — colocou o nome do técnico francês na lista de candidatos. A Argentina também foi apontada como possível destino. Mas Mbappé foi direto ao ponto quando o assunto veio à tona.

"A forma ideal de homenageá-lo é ganhar a Copa do Mundo, porque ele adora vencer. Então, vamos tentar garantir que ele tenha a melhor Copa do mundo de todos os tempos", declarou o atacante em entrevista recente.

A leitura de Mbappé sobre Deschamps, a Itália e o que está em jogo

O pedido público de Mbappé para que a Itália não contrate Deschamps tem uma camada emocional que vai além da lealdade esportiva. Um técnico que segurou um craque de 22 anos no limite de uma crise existencial dentro da seleção não é apenas um gestor de elenco — é alguém que entendeu o que estava em jogo fora do campo. Essa gratidão aparece agora, às vésperas da Copa do Mundo, como um ato de reconhecimento público.

Em matéria do SportNavo publicada anteriormente, já havia sido abordado como os ataques racistas da Euro 2020 criaram uma fissura profunda no relacionamento de Mbappé com parte da torcida francesa. O que a cena atual revela é que essa fissura foi costurada — e que Deschamps foi o cirurgião. O atacante, hoje com 27 anos, chegará ao Mundial com o peso de ser o melhor jogador do mundo e a obrigação de entregar um título que a França não conquista desde 2018.

Se a Itália insistir na candidatura de Deschamps, encontrará pela frente não apenas a resistência do treinador — que ainda não confirmou qualquer interesse externo — mas também a pressão simbólica de seu maior pupilo. E Mbappé, que já enfrentou racismo, pênalti perdido e pressão de abandonar a seleção, sabe melhor do que ninguém o que significa ter alguém ao lado nas horas mais difíceis. A Copa do Mundo começa no dia 11 de junho de 2026 — Mbappé terá exatamente 27 anos e 5 meses quando a bola rolar, e Deschamps estará no banco pela última vez com a camisa azul.