"Ele não prescreveu hormônio ou tratamento com esteroides." A frase é do Dr. Neal ElAttrache, médico que operou Conor McGregor após a fratura de fíbula e tíbia sofrida no UFC 264, em julho de 2021. O problema é o que vem logo depois: ElAttrache admitiu ao New York Times que escreveu uma carta apoiando um pedido de isenção especial para que McGregor pudesse usar substâncias proibidas durante a recuperação. A isenção foi negada pela USADA. O que aconteceu depois disso, ninguém do entorno do irlandês quis explicar.

O que o NY Times revelou e o silêncio de McGregor confirma

A reportagem do New York Times, publicada na última quinta-feira, não é uma especulação de vestiário. O jornal cita fontes que apontam que McGregor e sua equipe tentaram explorar uma brecha no programa de testes da USADA — então parceira oficial do UFC — usando como argumento a recuperação de uma lesão grave. Reparemos no detalhe: a isenção foi negada, mas o pedido já existia. Isso, por si só, coloca McGregor em território de explicações obrigatórias.

Audie Attar, empresário do lutador, se recusou a comentar o regime de recuperação de McGregor e se houve ou não uso de substâncias proibidas. Esse silêncio, em um mundo onde a transparência é o único antídoto contra a desconfiança, funciona como confissão implícita para boa parte do público. Lutadores como Justin Gaethje e Matt Brown já haviam levantado publicamente a suspeita de que McGregor estava explorando justamente essa lacuna — a de que, fora do calendário competitivo, o atleta não estava sujeito ao monitoramento contínuo da USADA.

"Ele não prescreveu hormônio ou tratamento com esteroides", disse o Dr. Neal ElAttrache ao New York Times — mas confirmou ter escrito carta de apoio ao pedido de isenção para uso de substâncias proibidas.

Quando McGregor se retirou da lista de testados pela USADA após a lesão, ficou acordado que, ao retornar, precisaria de seis meses de testes antes de poder lutar. Esse protocolo existe exatamente para coibir o uso de drogas no período fora de competição. O que as fotos publicadas pelo próprio McGregor nas redes sociais durante sua recuperação mostravam era um corpo visivelmente mais volumoso — imagem que também apareceu com destaque no filme Road House, de 2022. Não é prova jurídica. Mas é evidência circunstancial que qualquer analista sério não pode ignorar.

O argumento em defesa de McGregor e por que ele não se sustenta

Há quem diga que atletas de alto nível frequentemente buscam isenções médicas para uso de substâncias controladas e que o simples pedido não configura infração. Esse argumento tem fundamento formal — a USADA prevê o mecanismo de isenção terapêutica (TUE) para casos legítimos. O problema é que a própria agência negou a solicitação de McGregor. Se o caso fosse clinicamente justificável, a isenção teria sido concedida. A negativa é o dado que derruba a narrativa defensiva.

Há ainda o argumento de que, sem um teste positivo documentado, qualquer acusação é especulação. Tecnicamente correto. Mas McGregor estava fora do pool de testados — e é exatamente aí que mora o problema estrutural. Atletas que se retiram do calendário competitivo ficam em zona de baixíssima fiscalização. A USADA reformou parte desse protocolo nos últimos anos, mas o período entre 2021 e o retorno de McGregor ao octógono representa uma janela de cinco anos com monitoramento reduzido. Pedir que o público confie cegamente nessa lacuna é pedir demais.

"Ele estava claramente usando algo", disse Matt Brown em comentários públicos sobre a transformação física de McGregor durante a recuperação — declaração que repercutiu entre veteranos do UFC e foi registrada por SportNavo à época.

O que está em jogo no UFC 329 e na reputação de McGregor

A luta contra Max Holloway no UFC 329, marcada para julho de 2026, já era tecnicamente desfavorável para McGregor antes dessa revelação. Holloway nocauteou Justin Gaethje no UFC 300 com um dos finais de luta mais brutais da história recente da organização e chega como o mais perigoso da sua carreira — volume de golpes, leitura de distância e resistência física que McGregor simplesmente não enfrentou nos últimos cinco anos. A acusação de doping não muda esse quadro técnico, mas adiciona uma camada de desconfiança sobre o que McGregor vai apresentar no octógono.

Se McGregor entrar em forma excepcional contra Holloway, a pergunta vai surgir de forma inevitável: esse desempenho é produto de cinco anos de recuperação legítima ou de um programa que a USADA tentou barrar? A sombra da acusação não desaparece com uma vitória. Ela se amplifica. É como um temporal sem trovão — você sente a pressão na atmosfera antes de qualquer raio cair, e quando cai, ninguém diz que não foi avisado.

A reputação de McGregor já vinha desgastada por questões extraesportivas desde 2021. Uma acusação de doping com base em reportagem do New York Times — não de um tabloide, não de uma conta anônima nas redes — eleva o nível do problema para outro patamar. Dana White prometeu recordes de audiência no UFC 329. Mas se a narrativa dominante até julho for a de um lutador que tentou burlar o sistema antidoping, o evento vai carregar esse peso independentemente do resultado da luta. McGregor tem até o dia da pesagem para dar uma resposta concreta. O silêncio, até agora, não está funcionando a seu favor.