Quando George Pittar anotou 9.00 — a maior nota da final masculina em Margaret River — o cenário ficou matematicamente claro: Gabriel Medina precisaria de ao menos 8.35 na onda final para virar o placar. O mar, porém, ficou lento nos últimos minutos da bateria. Sem encontrar o set necessário, o tricampeão mundial aceitou o vice-campeonato com 12.46 pontos somados, contra 15.17 do australiano. A derrota na areia, no entanto, não impediu a conquista que realmente importava no ranking da temporada 2026 da WSL.

A conta que fechou no ranking

Com um terceiro lugar em Bells Beach e o vice em Margaret River, Medina acumulou 13.885 pontos e assumiu a liderança do Championship Tour pela primeira vez desde o início de 2022 — quando estreou a temporada como número 1 do mundo antes de se afastar para cuidar da saúde mental. Pittar, campeão da etapa australiana, aparece em segundo com 13.320 pontos, empatado com Miguel Pupo, mas à frente pelos critérios de desempate da WSL. O Brasil fecha o top 5 com Yago Dora (12.545 pts) na quarta posição e Samuel Pupo (10.830 pts) em quinto.

A conta que fechou no ranking Medina vice em Margaret River e retoma l
A conta que fechou no ranking Medina vice em Margaret River e retoma l
"Faz bastante tempo que eu não visto a lycra amarela. Eu senti saudade e estou feliz de receber a lycra amarela", disse Medina em entrevista à WSL logo após a final.

Há algo de simbólico na transferência de liderança que ocorre agora. A lycra amarela estava com Miguel Pupo, campeão da abertura em Bells Beach e um dos nomes mais próximos de Medina dentro do circuito. O próprio tricampeão reconheceu o gesto com leveza, mas sem tirar o foco da longa temporada à frente.

"Ela estava antes com um dos meus melhores amigos, o Miguel, e vou pegar. Obrigado, Miguel! Mas é só uma lycra. Eu acho que preciso trabalhar mais, porque o ano está apenas começando. Vamos atrás", completou Medina.

A final e o estilo que separou os dois

Medina começou melhor a decisão, abrindo com 4.67 e 3.50 para assumir a liderança inicial. Pittar reverteu a situação com 6.17 e 5.50, e consolidou a virada ao cravar o 9.00 que se tornaria a nota dominante da bateria. O australiano de 23 anos tem construído um repertório de manobras de tubo e aéreos que mistura a agressividade característica do surfe oceânico australiano com uma leitura de onda sofisticada — ingredientes que, segundo análise do SportNavo, o posicionam como o principal rival individual de Medina nesta temporada.

O caminho de Pittar até a final passou pela eliminação de Ítalo Ferreira na semifinal, enquanto Medina despachou Samuel Pupo numa decisão 100% brasileira. A semifinal entre os dois compatriotas foi simbólica do nível geral da Brazilian Storm: dos quatro semifinalistas masculinos, três eram do Brasil.

Domínio brasileiro e o peso dos números

Quatro dos cinco primeiros colocados no ranking masculino do CT ostentam bandeira verde e amarela. A presença de Medina (1º), Miguel Pupo (3º), Yago Dora (4º) e Samuel Pupo (5º) no topo da classificação repete — e em certos aspectos supera — as estatísticas das melhores temporadas do grupo brasileiro nos últimos anos. No feminino, Luana Silva também subiu ao pódio em Margaret River, vencendo a campeã mundial Caitlin Simmers na semifinal antes de ser virada por Lakey Peterson na decisão. A brasileira ocupa a quarta posição do ranking feminino com 12.545 pontos, empatada com Molly Picklum.

O levantamento feito pelo SportNavo com os dados acumulados nas duas primeiras etapas mostra que o Brasil soma mais pontos coletivos no top 10 do que qualquer outra nação: Ítalo Ferreira ainda aparece em sétimo lugar com 9.405 pts, mesmo sem chegar às fases finais em Margaret River. A Austrália, por sua vez, tem Pittar como único representante no top 5, com Joel Vaughan, Ethan Ewing, Callum Robson e Oscar Berry pulverizados na parte de baixo da tabela.

Gold Coast como próximo campo de batalha

A janela da etapa de Gold Coast abre na próxima quinta-feira, dia 30, e será o primeiro evento da temporada em que Medina vestirá a lycra amarela. O circuito retorna à Austrália para uma prova realizada no banco de areia de Snapper Rocks, ponto de ondas que historicamente favorece surfistas com capacidade de tubo e manobras em ondas longas — terreno onde Pittar demonstrou evolução significativa em Margaret River. A diferença de 565 pontos entre o líder Medina e o segundo colocado Pittar é suficiente para gerar pressão, mas insuficiente para garantir tranquilidade: no CT da WSL, um quarto de final muda completamente a equação do ranking.