Não é a idade que define o que Lionel Messi ainda pode fazer num campo de futebol. Essa pergunta está errada desde o começo. A questão real, a que ninguém consegue responder direito, é outra: como um homem de 38 anos consegue parecer mais jovem do que metade do time que está ao seu lado? Os amistosos pré-Copa contra Islândia e Zâmbia jogaram essa pergunta de volta para a torcida argentina — sem resposta fácil, mas com dois resultados cristalinos: 3 a 0 e 5 a 0.

Messi acende La Bombonera e despacha a Zâmbia com classe

A noite em Buenos Aires tinha aquele calor úmido de junho que gruda na pele. La Bombonera estava em pé desde antes do apito inicial, e quando Messi apareceu no onze titular — depois de ter ficado de fora do começo do jogo contra a Mauritânia — o estádio inteiro soltou um suspiro coletivo de alívio. Quatro minutos. Foi o tempo que levou para o capitão mostrar por que ainda é insubstituível.

No primeiro lance decisivo da noite, Messi controlou um lançamento no limite da área com a naturalidade de quem apanha um copo d'água — movimento suave, quase lento, como uma maré que avança sem fazer barulho — e costurou um passe milimétrico nos pés de Julián Álvarez, que abriu o placar para a Argentina. Dois minutos antes do intervalo, o próprio Messi tratou de registrar o gol de número 116 pela seleção argentina, o 902º da carreira, trocando uma tabela rápida com Alexis Mac Allister antes de encobrir o goleiro Willard Mwanza com um chute rasteiro no canto. Placar: 2 a 0.

No segundo tempo, com a partida já controlada, Messi recebeu uma penalidade após falta sobre Thiago Almada — e em vez de cobrar, entregou a bola a Nicolás Otamendi, companheiro de geração que, como ele, deve disputar sua última Copa. Otamendi converteu para o 3 a 0. O gesto disse mais do que qualquer estatística: Messi, aos 38, gerencia energia com a sabedoria de quem já viu tudo.

"Messi entrou e o jogo mudou para ataque contra defesa", registrou a cobertura publicada pela Folha de S.Paulo ao descrever o duelo contra a Islândia — síntese perfeita do que se repetiu diante da Zâmbia.

Em Auburn, Islândia aprende que 24 minutos de Messi valem uma partida inteira

Antes de La Bombonera, houve o Jordan-Hare Stadium, em Auburn, no Alabama. Mais de 88 mil torcedores nas arquibancadas, temperatura de verão americano, e uma Argentina que até os 24 minutos do segundo tempo vencia por apenas 1 a 0 — placar construído por Barco, de fora da área, após cobrança de falta de Lo Celso.

Scaloni havia poupado Messi, escalando um time com muitos reservas, incluindo o atacante palmeirense Flaco López na titularidade. A Islândia, 75ª no ranking da FIFA, chegou a assustar logo aos 3 minutos, quando Ellertsson ficou livre dentro da pequena área e mandou por cima do travessão. Mas quando o técnico argentino liberou o camisa 10, o roteiro mudou de gênero: saiu um jogo de amistoso e entrou um espetáculo de precisão cirúrgica.

No segundo toque na bola, Messi converteu um pênalti conquistado por Lautaro Martínez. Depois disso, criou chances pelos dois lados do campo, conduziu jogadas que terminaram no terceiro gol — De Paul cruzou, Almada fechou — e saiu do gramado com o placar em 3 a 0. Vinte e poucos minutos. Foi o suficiente.

O corpo de Messi na Copa do Mundo e o que Scaloni não revela publicamente

Os dois amistosos revelaram uma Argentina que funciona em dois registros distintos: com Messi em campo, o time tem profundidade, criatividade e o senso de oportunidade que só ele oferece; sem ele, o conjunto ainda vence — como mostrou o 1 a 0 construído antes de sua entrada contra a Islândia — mas perde aquela camada de imprevisibilidade que congela defesas.

Em Auburn, Islândia aprende que 24 minutos de Messi valem uma partida inteira Me
Em Auburn, Islândia aprende que 24 minutos de Messi valem uma partida inteira Me

A gestão física do craque é o tema central nos bastidores da seleção. Scaloni tem dosado os minutos com critério: Messi não começou o jogo contra a Mauritânia, entrou apenas no segundo tempo contra a Islândia e foi titular pleno contra a Zâmbia, quando o técnico precisava de uma resposta mais robusta. Segundo informações confirmadas pela cobertura do Buenos Aires Times, registradas também pelo SportNavo, o Inter Miami tem colaborado com a comissão técnica argentina para monitorar a carga física do jogador nas semanas que antecederam a convocação.

O contexto dos amistosos também importa: os jogos contra Mauritânia e Zâmbia foram organizados de última hora, depois que a Finalissima entre Argentina e Espanha, marcada para Doha, foi cancelada em razão do conflito no Oriente Médio. O duelo contra o Qatar também foi suspenso. Sobrou o improviso — e mesmo assim, Messi transformou partidas de preparação em demonstrações de liderança.

A Argentina ainda tem um amistoso contra a Sérvia programado para junho, e a comissão técnica negocia um segundo jogo antes da estreia na Copa do Mundo 2026. O plano é manter Messi aquecido sem sobrecarregá-lo — um equilíbrio que Scaloni tem administrado com cautela desde a conquista do título em 2022.

Na fase de grupos, a Copa do Mundo 2026 colocará a Argentina no Grupo J, contra Argélia, Áustria e Jordânia. A estreia está marcada para terça-feira, dia 16 de junho, às 22h (horário de Brasília), diante da Argélia no Kansas City Stadium, nos Estados Unidos. Messi, com 116 gols pela seleção e uma Copa já no bolso, entra em campo como capitão, como favorito e como a maior pergunta em aberto de todo o torneio — está pronto para mais uma final do mundo. Falta o palco.