A última vez que um jogador saiu de uma Copa do Mundo com a artilharia histórica do torneio pertencendo a ele foi em julho de 2014, no Maracanã. Miroslav Klose marcou o segundo gol da Alemanha na semifinal contra o Brasil — aquele 7 a 1 que ainda dói — e encerrou a carreira em Mundiais com 16 gols em 24 partidas, distribuídos por quatro edições: cinco em 2002, cinco em 2006, quatro em 2010 e dois em 2014. Doze anos depois, a marca segue intacta. Mas pela primeira vez desde então, dois jogadores em plena atividade chegam a uma Copa com condições matemáticas reais de alcançá-la.

Como Klose construiu um recorde que resistiu a três Copas

Para entender a dimensão do que Klose realizou, convém percorrer a linha do tempo da artilharia histórica do torneio. Em 1930, o argentino Guillermo Stábile estabeleceu o primeiro marco com oito gols. O brasileiro Leônidas da Silva igualou a marca em 1938. Depois veio Ademir Menezes, com nove gols na Copa de 1950 no Brasil — título que a FIFA só reconheceu integralmente décadas depois, após rever créditos de gols contestados. Em 1954, o húngaro Sándor Kocsis elevou o padrão para 11 gols em apenas seis jogos. Quatro anos mais tarde, o francês Just Fontaine chegou a 13 gols em uma única Copa — Suécia 1958 — marca que permanece o recorde de gols em uma só edição. Gerd Müller empurrou o limite para 14 gols com 10 em 1970 e mais quatro em 1974. Ronaldo Fenômeno chegou a 15 gols em três Copas (quatro em 1998, oito em 2002, três em 2006). Klose superou o brasileiro em 2014 e chegou a 16.

O que torna o recorde do alemão particularmente resistente é a combinação de longevidade e consistência: Klose nunca foi artilheiro isolado de uma edição, mas entregou entre dois e cinco gols em cada uma das quatro Copas que disputou. Uma média de quatro gols por torneio ao longo de 12 anos — de 2002 a 2014 — é o tipo de regularidade que jogadores geniais raramente sustentam no maior palco do futebol.

O que os números de Messi e Mbappé revelam sobre a missão em 2026

Lionel Messi chega à Copa do Mundo de 2026 com 13 gols em cinco edições — 2006 (um gol), 2010 (nenhum), 2014 (quatro gols), 2018 (um gol) e 2022 (sete gols). A progressão é reveladora: Messi marcou mais da metade de seus gols mundialistas em uma única Copa, no Qatar, aos 35 anos, quando finalmente ergueu o troféu. Nos 18 jogos anteriores ao torneio de 2022, somava apenas seis gols. Para superar Klose em 2026, precisará de pelo menos quatro gols — e tem 38 anos de idade.

Kylian Mbappé, por sua vez, acumula 12 gols em duas Copas: quatro em 2018, quando a França foi campeã, e oito em 2022 — incluindo um hat-trick na final contra a Argentina. Com 27 anos em 2026, o atacante do Real Madrid está no pico físico e precisa de cinco gols para igualar Klose. A comparação de eficiência é contundente: Mbappé chegou a 12 gols em apenas 14 partidas, contra 24 de Klose para chegar a 16. Se Mbappé mantiver a média de gols por jogo que teve até aqui — 0,85 por partida —, bastam seis jogos para ele não apenas igualar, mas superar o alemão.

A diferença entre os dois candidatos é, antes de tudo, biológica. Messi disputará sua sexta Copa com um corpo que já foi submetido a mais de 1.000 partidas profissionais. Mbappé disputará sua terceira com a energia de quem ainda tem pelo menos duas edições pela frente caso não consiga o recorde agora. Nas palavras do próprio Mbappé em entrevista à imprensa francesa antes da convocação, "marcar gols em Copas do Mundo é o que define um jogador para a história" — uma declaração que soa menos como pressão e mais como propósito.

O que os números de Messi e Mbappé revelam sobre a missão em 2026 Messi precisa
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A armadilha que derrubou Ronaldo, Pelé e outros candidatos ao recorde

A história das Copas está repleta de jogadores que chegaram a uma edição com potencial matemático para alcançar o recorde de sua época e foram barrados por lesão, fase ruim ou eliminação precoce da seleção. Pelé, por exemplo, terminou sua carreira com 12 gols em quatro Copas — seis deles em 1958, na Suécia, quando tinha 17 anos. Mas uma lesão em 1962 e as seguidas faltas brutais que sofreu em 1966 limitaram sua produção nas edições seguintes. Ele nunca mais chegou perto da marca de Fontaine naquela era.

Nos anos 1980, Gary Lineker marcou seis gols na Copa de 1986 no México — artilheiro isolado da edição — e chegou a 10 gols em duas Copas, mas a Inglaterra caiu nas quartas de final em 1986 (eliminada por Maradona) e nas semifinais em 1990 (eliminada pela Alemanha nos pênaltis). Sem jogos suficientes, o recorde ficou intangível. Jürgen Klinsmann acumulou 11 gols em três Copas e também não chegou perto. A lição é clara: para bater o recorde de Klose, Messi e Mbappé precisam que suas seleções avancem profundamente no torneio — de preferência até a semifinal ou final.

A Copa de 2026 tem formato expandido para 48 seleções, com uma fase extra de grupos e mais jogos no mata-mata. Um campeão disputará até oito partidas, contra sete nas edições anteriores. Essa partida adicional pode ser decisiva: para Messi, significa uma chance a mais de marcar; para Mbappé, pode ser a diferença entre igualar e superar Klose com margem.

Neymar, Harry Kane e Cristiano Ronaldo também aparecem com oito gols cada na artilharia histórica, mas precisariam de oito gols adicionais para empatar com Klose — uma missão praticamente impossível em uma única Copa. A disputa real é entre dois nomes: o argentino de 38 anos que fez a Copa de sua vida em 2022, e o francês de 27 que já demonstrou que Mundiais são o seu palco favorito. Quatro gols. Cinco gols. Números pequenos no papel, enormes na história — como uma partitura de dois compassos que, se executada com precisão, muda o que fica gravado para sempre.