Quantas vezes, em toda a história da Copa do Mundo, um único jogador chegou ao torneio a apenas quatro gols de reescrever o livro máximo da competição? A pergunta não é retórica por vaidade — ela traduz, com exatidão matemática, o que Lionel Messi carrega nas costas ao embarcar para os Estados Unidos em junho de 2026. Do outro lado do vestiário, Kylian Mbappé, com 12 gols em dois Mundiais, está a cinco de ultrapassar Miroslav Klose, o alemão que construiu o recorde de 16 gols entre 2002 e 2014.

A distância parece pequena no papel. Mas o futebol não se joga no papel, e a história das Copas está repleta de grandes artilheiros que chegaram perto e não tocaram o topo. Ronaldo Fenômeno, com 15 gols em quatro edições, morreu sem o recorde. Gerd Müller, com 14 em duas Copas, também ficou para trás. O que torna 2026 singular é que, pela primeira vez, dois jogadores com perfis tão distintos — um de 38 anos no ocaso da carreira, outro de 27 no auge físico — perseguem o mesmo número ao mesmo tempo.

O que os números de cada Copa revelam sobre Messi e Mbappé

A trajetória de Lionel Messi nas Copas é um estudo em progressão tardia. Em 2006, na Alemanha, marcou apenas 1 gol em 4 jogos, saindo do banco na maioria das partidas sob Pekerman. Em 2010, na África do Sul, terminou o torneio sem marcar nenhum gol em 5 jogos — a Argentina caiu nas quartas para a Alemanha por 4 a 0. Em 2014, no Brasil, foram 4 gols e 1 assistência em 7 partidas, com a Argentina chegando à final e perdendo para a Alemanha de Klose por 1 a 0, na prorrogação, no Maracanã. No Qatar, em 2022, Messi atingiu seu pico: 7 gols e 3 assistências em 7 jogos, incluindo dois na final histórica contra a França — aquela partida de 3 a 3 que terminou com a Argentina campeã nos pênaltis.

Mbappé, por sua vez, estreou em 2018, na Rússia, com 4 gols em 7 jogos e a França campeã. Em 2022, no Qatar, foram 8 gols — incluindo um hat-trick na final contra a Argentina — tornando-se o segundo jogador da história a marcar três vezes em uma decisão de Copa, feito que antes pertencia apenas a Geoff Hurst, em 1966. Seus 12 gols em apenas dois Mundiais representam uma média de 1,71 gol por jogo disputado, superior à de Klose (16 gols em 24 jogos, média de 0,67) e à de Messi (13 gols em 26 jogos, média de 0,50).

"Cada Copa é uma história diferente. Em 2022, eu precisava muito ganhar aquela taça. Agora, quero continuar escrevendo minha história neste torneio", disse Messi em entrevista à imprensa argentina antes do início da preparação para o Mundial de 2026.

A leitura que os dados fazem de cada candidato

No compasso de uma Porto Alegre de inverno, onde o futebol se discute com a seriedade de quem viveu décadas de Copa, a questão que os números levantam é simples: Messi tem mais experiência no torneio, mas Mbappé tem mais eficiência. O francês marcou em 8 dos 14 jogos disputados em Mundiais — uma taxa de 57%. Messi marcou em 11 dos 26 jogos — 42%. Se a França chegar às semifinais em 2026, Mbappé terá entre 6 e 7 jogos para marcar 5 gols. Pela sua média histórica, isso é perfeitamente dentro do esperado.

Messi, contudo, tem um argumento que os números não capturam completamente: ele nunca foi tão decisivo quanto em 2022, quando ganhou a Copa e o prêmio de melhor jogador do torneio pela segunda vez. A Argentina de Scaloni chega ao Mundial de 2026 como atual campeã, com um elenco maduro e um sistema de jogo construído em torno do camisa 10 do Inter Miami. A questão física é real — Messi completa 39 anos em junho de 2026 —, mas o argentino demonstrou em 2022 que a longevidade técnica pode compensar a perda atlética.

"Mbappé está no melhor momento da vida dele como jogador. Mas Messi ainda é capaz de decidir uma Copa do Mundo sozinho. Não subestime nenhum dos dois", afirmou o técnico Didier Deschamps em coletiva da seleção francesa, em maio de 2026.

A possibilidade real de ambos ultrapassarem Klose no mesmo torneio

Em matéria do SportNavo publicada nesta semana, o destaque foi para o fato de que cinco dos seis gols da final de 2022 no Qatar foram marcados por Messi e Mbappé — um dado que sintetiza a dominância conjunta dos dois sobre o maior palco do futebol mundial. A pergunta que emerge agora é se essa dominância pode se converter, simultaneamente, em dois recordes históricos quebrados no mesmo torneio.

Para que isso aconteça, Argentina e França precisariam chegar pelo menos às semifinais — o que exigiria entre 6 e 7 jogos para cada seleção. Historicamente, ambas as equipes têm capacidade para isso: a Argentina é a atual campeã e a França foi vice em 2022. Se Messi mantiver a média de 2022 (1 gol por jogo), chegaria a 19 ou 20 gols no total — acima de Klose. Se Mbappé repetir 2022 (1,14 gol por jogo), chegaria a 18 ou 19. A matemática favorece os dois.

O único precedente de dois jogadores ultrapassando o mesmo recorde de artilharia histórica em um único torneio não existe nas Copas — o que tornaria 2026 um evento sem paralelo na história do futebol. Klose, que marcou seus 16 gols ao longo de 2002 (5 gols), 2006 (5 gols), 2010 (4 gols) e 2014 (2 gols), construiu o recorde com consistência ao longo de quatro ciclos. Messi e Mbappé têm, cada um, no máximo mais uma Copa pela frente — e ambos sabem disso. O jogo de abertura da Copa do Mundo de 2026 acontece em 11 de junho, e os dois entram em campo nos primeiros dias do torneio.