Confesso: eu errei sobre o algoritmo SUM em 2023. Quando a Fifa reformulou definitivamente o modelo de pontuação, publiquei que a mudança seria cosmética — que o ranking continuaria sendo, na prática, uma fotografia estática entre janelas de atualização. Hoje, assistindo o México saltar para a 13ª posição após um único jogo contra a África do Sul, preciso rever essa avaliação em voz alta.

A novidade desta Copa do Mundo não está apenas nos 48 países ou nos três países-sede. Está em algo que parece técnico mas tem consequências políticas e esportivas enormes: a Fifa manteve a chamada "janela de mudanças" aberta durante todo o torneio, abandonando o modelo de datas fixas de atualização. Cada partida disputada recalcula posições em tempo real — e o placar de México 1×0 África do Sul já foi suficiente para derrubar a Colômbia da 13ª colocação.

O que mudou na mecânica do ranking e por que isso importa agora

Desde 2018, a Fifa opera com o algoritmo SUM — uma fórmula que atribui valor a cada resultado cruzando a pontuação prévia das duas equipes com o placar obtido e o que era estatisticamente esperado para aquele confronto. A Copa do Mundo carrega o maior coeficiente de peso de todas as competições, e esse peso cresce progressivamente a partir das quartas de final. Um triunfo nas oitavas vale menos do que um triunfo na semifinal — e essa escala cria uma curva de valorização que pode transformar campanhas longas em catapultas de ranking.

O que a abertura da janela permanente adiciona é a volatilidade contínua. Historicamente, seleções tinham de esperar meses para ver seus resultados refletidos no ranking. Agora, como registrado por SportNavo ao acompanhar as primeiras rodadas do torneio, a Coreia do Sul — que venceu a Tchéquia — pulou três posições de uma vez, ultrapassando Turquia, Equador e Áustria para chegar ao 22º lugar. Essas três seleções, por sua vez, podem recuperar suas posições caso vençam seus próprios jogos de estreia, o que torna o ranking um organismo vivo ao longo das próximas semanas.

Seleções em ascensão ganham uma janela histórica de legitimação

Para entender a dimensão do que está acontecendo, vale recuar até a Copa de 1994, nos Estados Unidos — o torneio que consolidou a Bulgária, com Hristo Stoichkov, e a Romênia de Gheorghe Hagi como potências respeitáveis. Naquela época, o ranking da Fifa mal completava três anos de existência e não tinha nenhuma sofisticação algorítmica. Uma boa campanha levava até um ano para se traduzir em posicionamento oficial. Agora, uma seleção como a Coreia do Sul — que oscilou entre o 22º e o 30º lugar na última década — pode consolidar um salto real em questão de semanas, com reflexos diretos nos potes de sorteio de futuras competições.

Esse é o ponto que muita gente subestima. O ranking da Fifa não é apenas um índice de prestígio — ele determina cabeças de chave em eliminatórias e em torneios continentais. Uma Coreia do Sul na casa do 20º lugar entra em potes mais favoráveis nas eliminatórias asiáticas da próxima Copa. Um México consolidado entre os 12 primeiros — ele estava no 13º posto antes mesmo de disputar oitavas — muda sua posição de poder nas negociações da Concacaf e na composição de grupos.

"A fórmula atribui valor a cada resultado de acordo com a pontuação das equipes antes do jogo e o placar obtido, sempre comparado ao que era esperado para o confronto", explica a Fifa em seu documento técnico sobre o algoritmo SUM.

O paralelo com a revolução do ranking ELO no xadrez — e o que o futebol ainda não faz direito

Quem acompanhou a adoção do sistema ELO no xadrez nos anos 1970 reconhece a lógica. O matemático Arpad Elo criou um modelo em que cada partida redistribui pontos entre os jogadores — exatamente o princípio que a Fifa importou para o SUM. A diferença é que o xadrez opera com atualizações mensais há décadas, enquanto o futebol chegou tarde à festa e ainda carrega distorções: seleções europeias com calendário denso de jogos amistosos e de Nations League acumulam mais oportunidades de pontuar do que confederações africanas ou asiáticas, cujas janelas de data Fifa são mais esparsas.

Essa assimetria — que persiste mesmo com a janela permanente — faz da Copa do Mundo o único momento em que todas as seleções competem em igualdade de condições de peso. Um triunfo do Marrocos ou do Senegal nas oitavas vale exatamente o mesmo algoritmicamente que um triunfo da França ou da Espanha. É por isso que campanhas profundas de seleções africanas e asiáticas em Mundiais tendem a produzir saltos de ranking tão expressivos: elas concentram em quatro semanas o que as seleções europeias diluem ao longo de dois anos de competições.

"A Copa do Mundo, evidentemente, tem o maior peso, que cresce a partir dos duelos das quartas de final", detalha o regulamento técnico da entidade, indicando que os jogos decisivos do torneio terão impacto desproporcional nos cálculos finais.

O que esperar das próximas rodadas para México, Coreia e os ultrapassados

O México — que historicamente oscila entre o 11º e o 17º lugar desde a Copa de 2014, quando chegou às oitavas pela sexta edição consecutiva — tem agora uma oportunidade concreta de cravar uma posição de elite global. Uma campanha até as quartas de final, com o coeficiente máximo do torneio entrando em ação, pode projetá-lo para algo próximo do 9º ou 10º lugar, um território que o país jamais ocupou de forma sustentada. A Coreia do Sul, por sua vez, já mostrou em 2002 — semifinalista em casa — que campanhas inesperadas têm poder de reconfigurar percepções por anos.

As seleções ultrapassadas — Turquia, Equador e Áustria — ainda jogam suas estreias e podem recuperar terreno com vitórias. A volatilidade do sistema é exatamente esse: nenhuma posição está garantida até a última partida do torneio. Colômbia, que caiu da 13ª para a 14ª colocação com a vitória mexicana, também entra em campo nos próximos dias e pode reverter o quadro.

Em 19 de junho, quando a segunda rodada da fase de grupos estiver completa, teremos o primeiro mapa real de como o ranking se reconfigurou — e se a janela permanente está, de fato, cumprindo o papel de tornar a classificação mais dinâmica do que jamais foi em 34 anos de história do índice.