A morte de Oscar Schmidt, aos 68 anos, nesta sexta-feira (17), reacende uma das discussões mais fascinantes do basquete mundial: como seria o desempenho do 'Mão Santa' na era moderna da NBA? Com sua média histórica de 30,7 pontos por jogo construída majoritariamente com arremessos de dois pontos, os números do brasileiro poderiam ser ainda mais estratosféricos na liga atual, onde a linha de três pontos revolucionou o jogo ofensivo.

Oscar construiu seu legado numa época em que a linha de três pontos ainda engatinhava no basquete mundial. Seus 49.737 pontos em carreira vieram principalmente de arremessos de média e longa distância que, hoje, valeriam três pontos. Na FIBA, a linha só foi implementada definitivamente em 1984, quando Schmidt já estava no auge da carreira europeia.

"Não existe mão santa, existe mão treinada", costumava dizer o brasileiro, sempre destacando que seus números eram fruto de dedicação extrema aos treinamentos.

Projeção estatística na era dos três pontos

Análise técnica do SportNavo indica que Oscar poderia facilmente superar os 35 pontos de média na NBA atual. Seu percentual de acerto de longa distância na Itália, onde jogou por 11 temporadas, ficava consistentemente acima dos 45%. Com o ritmo acelerado da liga moderna - que passou de 94,8 posses por jogo nos anos 80 para 100,3 atualmente - suas oportunidades de arremesso multiplicariam significativamente.

No Juvecaserta italiano, Schmidt chegou a marcar 13.957 pontos em 340 jogos, média de 41 pontos por partida. Considerando que cerca de 60% de seus arremessos vinham de zonas que hoje valeriam três pontos, sua média saltaria para aproximadamente 47,4 pontos por jogo - números que rivalizariam com Wilt Chamberlain na temporada histórica de 1961-62.

Adaptação às defesas modernas

A evolução tática também favoreceria o estilo de Oscar. As defesas zonais, hoje permitidas na NBA, criariam mais espaços para arremessadores puros como ele. Stephen Curry, com características similares de arremesso, revolucionou a liga justamente explorando essas brechas defensivas que Schmidt dominava instintivamente.

Nos Jogos Olímpicos de Seul 1988, Oscar marcou 338 pontos em oito jogos, incluindo a histórica marca de 55 pontos contra a Espanha. Com as regras atuais da FIBA - que adotou a linha de três pontos FIBA em 1984 -, essa performance individual poderia ter resultado em mais de 70 pontos numa única partida.

"Ele estava 20 anos à frente do seu tempo. Era um Curry antes do Curry existir", analisou o técnico Ary Vidal sobre o estilo revolucionário de Schmidt.

Comparação com estrelas atuais

LeBron James, que recentemente superou Oscar como maior pontuador da história do basquete, mantém média de 27,2 pontos em carreira. Considerando que James joga numa era com spacing ofensivo otimizado e regras favoráveis ao atacante, os números projetados de Oscar na mesma época seriam superiores a qualquer marca atual.

Damian Lillard, outro especialista em arremessos de longa distância, tem média de 24,7 pontos em carreira com 37,3% de aproveitamento nas bolas de três. Oscar, com percentuais históricos superiores e volume maior de tentativas, facilmente ultrapassaria os 30 pontos de média que caracterizaram sua carreira original.

O brasileiro também se beneficiaria das modernas estratégias de pick-and-roll, que criam situações ideais para arremessadores de elite. Sua habilidade de encontrar espaços em quadra, demonstrada nos 1.093 pontos em cinco Olimpíadas consecutivas, seria potencializada exponencialmente pelas táticas contemporâneas.

"A gente está honradíssimo de estar aqui nesse momento, porque a gente sabe de tudo o que o meu pai se dedicou ao basquete", disse Felipe Schmidt ao receber homenagem do COB em março, destacando o legado eterno do pai.

Oscar Schmidt morreu no Hospital Municipal Santa Ana, em Santana de Parnaíba, após enfrentar um câncer cerebral desde 2011. Seu legado transcende números: revolucionou o basquete brasileiro e mundial com um estilo que antecipou tendências que só se consolidariam décadas depois.