Confesso: eu errei sobre os Estados Unidos em 2024. Escrevi, com toda a convicção de quem cobrira a Copa de 1994 em Los Angeles, que o país chegaria a 2026 completamente convertido ao futebol. Errei a temperatura, o timing e, principalmente, subestimei o poder de um time de basquete nova-iorquino num momento de graça. Hoje vejo o porquê.
Os Knicks roubaram a noite que deveria ser do futebol
Na quarta-feira, 11 de junho, enquanto o Copa do Mundo abria oficialmente com México x África do Sul no estádio Azteca — cerimônia às 18h30 (horário de Brasília), pontapé às 20h BST —, as ruas de Manhattan viviam outra festa. O New York Knicks completou a maior virada da história das Finais da NBA, eliminando os San Antonio Spurs com uma remontada que paralisou Nova York: torcedores em cima de carros na Quinta Avenida, bares em Santa Monica com gritos audíveis da rua. A série está 3 a 1 para os nova-iorquinos, e a cidade que deveria ser o epicentro do Mundial — o MetLife Stadium, rebatizado de New York New Jersey Stadium para o torneio, receberá oito jogos incluindo partidas de Brasil e Marrocos no sábado — estava, de fato, de joelhos para o basquete.
Uma pesquisa recente revelou que metade dos americanos entrevistados declarou não se importar com o torneio. Não é uma estatística menor: é o contexto inteiro. O futebol americano e o basquete não dividem espaço com o soccer nos Estados Unidos — eles ocupam o imaginário coletivo de uma forma que nenhum Mundial, por maior que seja, consegue deslocar em três semanas de fase de grupos.
A tese do legado de 1994 e a contra-leitura de 2026
A interpretação dominante — e ela tem fundamento — é que o Mundial de 1994 transformou o futebol americano de curiosidade em indústria. Foi aquele torneio, realizado nos EUA pela primeira vez, que abriu caminho para a criação da Major League Soccer no ano seguinte, em 1996. Trinta e dois anos depois, a MLS tem 30 franquias, e Lionel Messi — cujo rosto estampa um outdoor gigante na Times Square nesta semana — é o símbolo vivo de que o soccer chegou à cultura pop americana.
A contra-leitura, porém, é igualmente honesta: a Copa de 2026 chega num momento de desgaste político, ingressos caros e um calendário que colide frontalmente com as finais da NBA. A estreia dos Estados Unidos contra o Paraguai, marcada para sábado com início às 2h (horário de Brasília), acontece enquanto os Knicks podem selar o título ainda nesta semana. Não há tragédia nisso: há contabilidade. O torcedor americano médio tem um limite de atenção, e os Knicks estão no topo dessa fila há décadas sem aparecer.
O torneio em si é histórico por razões objetivas: pela primeira vez, 48 seleções disputam a Copa do Mundo, contra as 32 de todas as edições anteriores desde 1998. O formato muda: os grupos passam de quatro para três times, com o top-2 de cada chave e os melhores terceiros avançando. Quatro países estreiam na competição — Cabo Verde, Curaçao, Jordânia e Uzbequistão —, o maior número de estreantes desde 2006, quando seis nações debutaram. A sede é tripartida entre 16 estádios: 11 nos EUA, três no México e dois no Canadá, que recebe sua primeira Copa do Mundo masculina.
"Há evidências, se você olhar com atenção, de que esse torneio monstruoso começou", escreveu a BBC, descrevendo trens do metrô de Nova York decorados com as cores das seleções e fãs circulando com camisas do Marrocos e do Brasil pelas ruas da cidade.
Potências como Argentina, Brasil, França, Alemanha, Espanha e Inglaterra estão presentes. Mas Itália, Sérvia, Nigéria, Camarões, China e Índia ficaram de fora — ausências que reduzem o alcance global do torneio em mercados específicos. A Rússia segue suspensa pela FIFA desde fevereiro de 2022, após a invasão à Ucrânia.
O que pode virar o jogo a favor do futebol nas próximas semanas
A síntese justa pesa os dois lados. O futebol nos EUA não é mais um projeto — é uma realidade econômica com torcedores reais, como os que vestiram camisas de Brasil e Marrocos no metrô de Nova York nesta semana. O problema de 2026 não é ausência de público: é competição de atenção num mercado saturado de entretenimento esportivo de alto nível.
A variável decisiva, como aponta análise publicada em matéria do SportNavo sobre os custos do torneio, pode ser justamente a seleção americana. Uma campanha sólida dos EUA — que estreia contra o Paraguai no sábado — tem potencial de converter aquela metade indiferente da pesquisa em espectadores ocasionais, e espectadores ocasionais em audiência televisiva. A Fox Sports, detentora dos direitos, precisa desse roteiro.
A final está marcada para 19 de julho, no MetLife Stadium, em Nova Jersey, às 20h BST. Entre a estreia americana contra o Paraguai no sábado e aquele domingo de julho, há tempo suficiente para o futebol mudar de endereço no coração americano — ou para os Knicks levarem o troféu da NBA e manterem o país de olhos no basquete por mais algumas semanas. Se os EUA chegarem às oitavas de final, você acha que a Fox Sports consegue fazer a audiência do jogo superar a média das finais da NBA nesta temporada?








