Confesso: eu errei sobre Manuel Neuer em 2023. Escrevi, aqui mesmo, que o goleiro havia perdido a capacidade de ser o centro emocional da seleção alemã — que o tempo e as lesões haviam transformado o guardião do Allianz Arena numa figura protocolar, presente pelo currículo mais do que pela influência. O placar do NRG Stadium, em Houston, neste domingo, 14 de junho, me obrigou a rever esse julgamento.

O número que o futebol não deixa envelhecer

Sete a um. O marcador eletrônico de Houston repercutiu como um sinal de rádio captado em frequência errada — a mensagem chegou, mas o receptor precisou de alguns segundos para processar. A Seleção Brasileira não estava em campo. A vítima era Curaçao, estreante na Copa do Mundo, uma nação de 160 mil habitantes que disputou sua primeira fase de grupos da história. E ainda assim o placar ativou uma memória muscular que nenhum torcedor brasileiro consegue desligar voluntariamente.

Foi o mesmo 7 a 1 do Mineirão, em 8 de julho de 2014 — semifinal que a Alemanha venceu contra o Brasil num jogo que definiu, para toda uma geração, o que significa ver uma equipe desmontada em tempo real. Doze anos depois, o único homem que esteve nos dois campos é o mesmo que precisou explicar a diferença entre eles.

"Começar um Mundial dessa forma é algo muito especial. Isso traz confiança, tranquilidade e serenidade. Mas sabemos colocar as coisas em perspectiva. Não foi uma semifinal contra o Brasil terminando em 7 a 1. Foi apenas o primeiro jogo da fase de grupos contra Curaçao", disse Neuer após a partida.

A frase é cirúrgica. Neuer, que disputa sua quinta Copa do Mundo, conhece melhor do que ninguém o peso específico de cada 7 a 1. O de Belo Horizonte eliminou o país sede e abriu caminho para o tetracampeonato alemão. O de Houston venceu uma seleção que nunca havia jogado numa fase de grupos de Copa. A diferença de contexto é oceânica — e o capitão alemão foi o primeiro a nomeá-la.

Havertz, os dois gols e a memória de um adolescente de 14 anos

Kai Havertz tinha entre 14 e 15 anos quando assistiu ao Mineirão em 2014. Neste domingo, entrou em campo como titular e marcou dois dos sete gols alemães — tornando-se um dos protagonistas de um placar que, para ele, era até então apenas memória de televisão. A posição que ocupa na narrativa mudou radicalmente.

"Eu assisti àquele jogo quando tinha 14 ou 15 anos. Acho que aquele resultado de 2014 faz parte da história da seleção alemã. Começar uma Copa do Mundo desta forma também é algo especial. Isso deve nos dar muita confiança. Acho que apenas o Manu (Neuer) estava naquele time de 2014. Então vou perguntar depois para ele como foi viver aquilo", declarou o atacante do Arsenal.

Há uma ironia geracional no comentário de Havertz: o jogador que viveu 2014 como espectador hoje é parte da geração que reproduziu o número — sem a carga emocional, sem o adversário histórico, mas com a mesma eficiência clínica que sempre caracterizou o futebol alemão quando está em dia.

O jogo também teve um subplot interno que Julian Nagelsmann não escondeu. Jamal Musiala, que contribuiu com um gol e duas assistências antes de ser substituído aos 18 minutos do segundo tempo, questionou diretamente o técnico sobre a troca. A tensão foi administrada com transparência incomum.

"Ele me disse: 'estou em forma, por que tenho de sair?'. Eu disse a ele que queríamos dar uma chance a outros jogadores que estão jogando bem, como o Deniz (Undav)", explicou Nagelsmann à imprensa.

A substituição tinha uma justificativa além da rotação: Musiala, de 23 anos, passou por uma grave lesão no tornozelo esquerdo em julho de 2025, durante a Copa do Mundo de Clubes, e ainda fraturou a tíbia durante a recuperação, retornando apenas em janeiro de 2026. Nagelsmann observou o jogador colocar a mão na coxa algumas vezes no segundo tempo — sinal suficiente para tirar o principal motor criativo da equipe de campo antes que qualquer risco se materializasse. Undav, substituto, fez o sexto gol e deu mais duas assistências.

A confiança que a Alemanha precisa calibrar antes do Grupo E decidir

A interpretação dominante após o apito final era previsível: a Alemanha está de volta, poderosa, com profundidade de elenco e um placar que ecoa décadas de tradição. Sete gols em um único jogo de fase de grupos é um feito raro — na história da Copa do Mundo, poucos jogos chegaram a essa marca com adversário tão desconhecido.

A contra-leitura, porém, merece atenção. Curaçao chegou à Copa do Mundo pela primeira vez, com um elenco formado majoritariamente por jogadores de segunda e terceira divisão europeia. Aplicar 7 a 1 nesse contexto é diferente de fazê-lo contra o Brasil de Neymar num Mineirão lotado de 58.141 pessoas. A goleada diz mais sobre o nível do adversário do que sobre o potencial real da seleção alemã.

A síntese honesta está no meio do caminho: a Alemanha foi eficiente, variada na criação — com Musiala, Havertz e Undav em papéis distintos — e demonstrou que Nagelsmann tem opções reais no banco. Isso conta. Mas o Grupo E ainda reserva Costa do Marfim, em 20 de junho, e Equador, em 25 de junho, adversários com nível técnico incomparavelmente superior ao de Curaçao. É contra eles que a narrativa de Houston será testada ou desmentida.

Conforme apurado em matéria do SportNavo, a Alemanha lidera o Grupo E com três pontos e saldo de seis gols — e Neuer, único elo vivo entre o Mineirão e Houston, já sinalizou que sabe exatamente quanto esse número vale. O próximo exame chega em seis dias, num estádio ainda a confirmar, com Costa do Marfim esperando para dar uma resposta diferente ao 7 que Houston colocou no placar.