Todo mundo sabe que Neymar vai jogar sua última Copa do Mundo. O que ainda divide o Brasil é se esse capítulo final vai ser redenção ou mais um capítulo de dor. A resposta começou a ser escrita quando o perfil oficial da Fifa publicou uma galeria de fotos do camisa 10 nos Mundiais de 2014, 2018 e 2022 — e ele respondeu com duas palavras em inglês que valem um tratado sobre expectativa e pressão: "The last dance".

"The last dance" — Neymar, em resposta à publicação oficial da Fifa nas redes sociais, referindo-se à Copa do Mundo de 2026.

Três Copas e uma conta que ainda não fecha

A trajetória de Neymar em Mundiais é um inventário de momentos que chegaram perto, mas não chegaram. Em 2014, no Brasil, ele foi o rosto da campanha: quatro gols e uma assistência nas cinco partidas que disputou. O número sete nunca foi tão pesado quanto na semifinal contra a Alemanha — que ele não jogou. Uma joelhada de Zúñiga nas costas, nas quartas contra a Colômbia, tirou o camisa 10 da partida mais traumática da história do futebol brasileiro. O 7 a 1 aconteceu sem ele, e desde então o país nunca decidiu se isso o absolve ou o isenta de uma responsabilidade que talvez nunca tenha sido sua.

Em 2018, na Rússia, foram dois gols e uma assistência. A eliminação para a Bélgica nas quartas, por 2 a 1, deixou menos cicatriz histórica do que a imagem do próprio Neymar rolando no gramado — um comportamento que virou meme global e contaminou a leitura da sua atuação técnica, que foi consistente ao longo do torneio.

O capítulo mais cruel foi 2022. Contra a Croácia nas quartas de final, Neymar marcou na prorrogação, aos 105 minutos, o gol que parecia encerrar qualquer discussão sobre seu valor para a Seleção. O Brasil estava em vantagem. Faltavam 15 minutos para uma semifinal.

A Croácia empatou. Nos pênaltis, Rodrygo e Marquinhos erraram. O Brasil foi eliminado.

O que a lesão na panturrilha revela sobre o momento atual

Neymar não viajou com a Seleção Brasileira para o amistoso contra o Egito por conta de uma lesão na panturrilha de grau dois — o tipo de contusão muscular que exige entre duas e quatro semanas de recuperação dependendo do protocolo adotado. A expectativa da comissão técnica é que ele esteja disponível a partir da segunda rodada da Copa, contra o Haiti, em 19 de junho. Ou seja: o jogador que anunciou sua última dança chega ao torneio com o corpo em compasso de espera.

Não é a primeira vez. Em 2014, foi a lesão nas costas. Em 2022, uma torção no tornozelo no primeiro jogo o tirou de dois confrontos da fase de grupos. Neymar e Copas do Mundo têm uma relação que passa invariavelmente pelo departamento médico.

Aos 34 anos, o metabolismo de recuperação é diferente. O grau dois numa panturrilha, para um atleta nessa faixa etária, carrega um risco real de recaída se a volta ao jogo for precipitada. A pressão pelo título, a narrativa da última dança e a necessidade de provar que ainda é indispensável formam uma combinação que raramente favorece a cautela.

Três Copas e uma conta que ainda não fecha Neymar anuncia última dança e o Brasi
Três Copas e uma conta que ainda não fecha Neymar anuncia última dança e o Brasi

O que Ancelotti precisa que Neymar seja em 2026

Carlo Ancelotti não convocou Neymar para os amistosos de preparação por acidente. A inclusão do camisa 10 na lista final para a Copa foi uma decisão que pesou contexto técnico, impacto simbólico e pressão institucional em proporções que provavelmente nunca serão totalmente reveladas. O que o técnico italiano precisa, objetivamente, é de um Neymar que jogue entre linhas, que atraia marcação dupla e que converta as situações que o Brasil cria com Vinicius Jr. e Rodrygo nas pontas.

Vinicius Jr. recebe hoje R$ 146 milhões por ano no Real Madrid — um valor que, por si só, indica onde está o centro de gravidade técnico da Seleção em 2026. Neymar não é mais o jogador que carregava o time nas costas. A questão é se ele aceita esse papel de catalisador ou se a narrativa da última dança o empurra para uma protagonismo que o elenco atual não precisa e que o corpo talvez não suporte por 90 minutos durante seis partidas consecutivas.

O legado que ainda pode ser escrito em campo

Neymar tem 77 gols pela Seleção Brasileira — o maior artilheiro da história do país, superando Pelé em 2023. Mas artilharia individual não preenche a lacuna do título coletivo, e o Brasil sabe disso melhor do que qualquer torcida. Romário ganhou a Copa em 1994 com 34 anos. Rivaldo foi decisivo em 2002 com 30. A idade, sozinha, não é o argumento.

O argumento é o seguinte: Neymar tem sete gols em três Copas do Mundo, uma média de participação direta em gols que coloca poucos jogadores à sua frente na história do torneio. Ele foi decisivo em momentos que importavam — e foi ausente em outros que importavam mais ainda. Essa é a ambiguidade que define sua relação com o Mundial e que torna a declaração da última dança tão carregada.

Se a panturrilha responder, se Ancelotti encontrar o encaixe tático certo e se o Brasil avançar além das quartas de final — onde caiu nas últimas duas edições —, a última dança pode ser a cena que reescreve tudo que veio antes.

Se não, a imagem que fica é a de um jogador extraordinário que disputou quatro Copas do Mundo, marcou gols bonitos, sofreu lesões injustas e nunca segurou a taça. Neymar entra em campo contra o Haiti no dia 19 de junho. Essa é a data real em que a última dança começa — e o Brasil vai assistir com o coração na garganta, como sempre fez.