Quando o árbitro apitou o final no Nuevo Gasómetro, em Buenos Aires, o placar marcava 1 a 1 — e a pergunta que ecoava nas redes sociais e nas redações esportivas não era sobre a classificação do Santos na Sul-Americana, mas sobre o homem que lotou o estádio argentino: Neymar foi, nesta terça-feira (28), protagonista ou peso morto para o Peixe? Os números e os lances do jogo oferecem uma resposta incômoda para os dois lados do debate.

Os dados de uma atuação dividida

Neymar completou os 90 minutos pela primeira vez em um jogo fora de casa desde seu retorno ao Santos. Segundo dados compilados pela ESPN, o camisa 10 terminou a partida com apenas uma finalização — para fora —, 74% de aproveitamento nos passes, um drible certo em quatro tentados e dois duelos vencidos pelo chão. Foram três passes que levaram a finalizações, o que justifica parcialmente sua participação no gol que empatou o confronto.

O lance que resume sua noite aconteceu aos 32 minutos do primeiro tempo: Neymar recebeu de Rollheiser pelo lado esquerdo, avançou até a área e tocou de volta para o argentino, que ajeitou de calcanhar para Gabigol bater no canto e marcar seu nono gol desde o retorno ao clube. A jogada foi elegante e decisiva. Mas, em contrapartida, no último minuto da etapa inicial, o camisa 10 desperdiçou o melhor contra-ataque do Santos ao finalizar cruzado de fora da área, com a bola saindo pela linha de fundo. Aos 26 minutos, antes do empate, o único chute do Peixe havia sido de Rollheiser — Neymar ainda não tinha chegado perto do gol.

O peso que o time carrega

A tese de que Neymar desequilibra negativamente o coletivo ganhou força com um detalhe tático revelador. Contra o Bahia, sem o camisa 10, o Santos apresentou maior mobilidade e organização defensiva — dado que circulou amplamente na imprensa e foi citado por colunistas do UOL. Na Argentina, o time de Cuca voltou a mostrar as dificuldades de conciliar o protagonismo individual de Neymar com as exigências físicas de um jogo internacional fora de casa.

Willian Arão ilustrou esse custo de maneira literal: aos 26 minutos, o volante foi desarmado no meio-campo pelo meia Gulli, que acionou Cuello para um chute de fora da área no canto esquerdo de Brazão — 1 a 0 para o San Lorenzo. A falha individual custou o gol, mas a dinâmica que levou Arão àquela posição vulnerável é, segundo a análise do SportNavo, parcialmente explicada pelo posicionamento fixo de Neymar no lado esquerdo do ataque, que obriga os companheiros de meio-campo a cobrirem espaços maiores na transição defensiva.

"Perdeu várias vezes a bola? Perdeu. Perdeu o melhor contra-ataque do Santos, no último lance do primeiro tempo? Perdeu. Mas deu o passe para Rollheiser dar a assistência para o gol de Gabigol."

A avaliação acima, publicada pela colunista Alicia Klein no UOL, resume com precisão a ambivalência da noite. Neymar existiu no jogo — mas de forma episódica, enquanto o Santos precisava de constância.

A repercussão internacional e o fantasma da Copa do Mundo

O Nuevo Gasómetro estava lotado, e boa parte da presença argentina se explica por um nome: Neymar. A atração extrapolou o campo — mas a reação dos torcedores estrangeiros nas redes sociais foi impiedosa. Frases como "Hoje Neymar deu razão a Ancelotti" e "Ver o Neymar que não consegue se mover no campo dá pena" circularam amplamente após o apito final, segundo levantamento do Lance!, que compilou reações de seguidores argentinos e uruguaios.

O contexto importa: Neymar tem sido escalado nos 90 minutos de maneira consistente, numa estratégia que parece voltada a convencer Carlo Ancelotti — que não o convocou nas últimas listas da seleção brasileira — de que está em condições físicas de disputar a Copa do Mundo. A Copa de 2026, sediada nos Estados Unidos, Canadá e México, está no horizonte imediato. Mas jogar uma partida inteira em Buenos Aires, sob pressão argentina e com limitações técnicas evidentes, não produziu o argumento que Neymar precisava.

"Neymar erra muito mais que acerta e ainda é permanentemente procurado pelos companheiros, que sabem quem manda no clube."

A frase, do colunista Mauro Beting no UOL, é dura — mas reflete um padrão observável nos dados: a centralidade de Neymar no esquema do Santos não é proporcional à sua produção estatística nos últimos jogos.

A situação do Santos na Sul-Americana e o que vem a seguir

Com o empate em Buenos Aires, o Santos chega a dois pontos em três rodadas do Grupo D da Copa Sul-Americana — dividindo a lanterna com o Deportivo Recoleta. O San Lorenzo lidera com cinco pontos. O Peixe ainda não venceu na competição, somando dois empates e uma derrota. A matemática é crua: a classificação ao mata-mata exige uma virada de desempenho que, por ora, não tem respaldo nos números nem na consistência do elenco.

Os dados de uma atuação dividida Neymar jogou os 90 minutos, mas o Santos
Os dados de uma atuação dividida Neymar jogou os 90 minutos, mas o Santos

Gabriel Brazão foi, talvez, o jogador mais seguro do Santos na noite — com duas defesas decisivas nos primeiros 13 minutos e atuação sólida durante todo o jogo. Rollheiser foi o principal criador do Peixe no primeiro tempo, antes de ser substituído por Barreal na etapa final. A avaliação do SportNavo aponta que, sem o argentino em campo, o Santos perdeu mobilidade e capacidade de pressão, reduzindo suas tentativas ofensivas a uma média de menos de um chute ao gol nos primeiros 30 minutos do segundo tempo.

O próximo desafio não permite dispersão: no sábado (2), o Santos visita o Palmeiras no Allianz Parque, às 18h30, pela 14ª rodada do Brasileirão — onde o Peixe ocupa a 17ª posição, dentro da zona de rebaixamento, com apenas 14 pontos. Uma derrota para o líder do campeonato aprofundaria a crise em duas frentes simultaneamente. Neymar titular ou reserva, essa é a decisão que Cuca terá de tomar — e o resultado em Buenos Aires não facilitou a resposta.