Diz-se que a Seleção Brasileira convocada por Carlo Ancelotti é a mais coletiva dos últimos anos, com perfil tático mais europeu e menor dependência de um único jogador. Os números contradizem essa leitura — e a contradição é expressiva. Neymar chega à Copa do Mundo com 79 gols pela Amarelinha. Os outros 25 convocados somam, juntos, 65. O camisa 10 do Santos supera sozinho todo o restante do elenco por uma margem de 14 gols — uma diferença maior do que a artilharia completa de Lucas Paquetá (12), o segundo maior goleador do grupo.
Como Neymar construiu os 79 gols que nenhum brasileiro construiu antes
A trajetória ofensiva de Neymar pela Seleção não foi linear — foi acumulada ao longo de quase 15 anos de convocações, atravessando quatro ciclos de Copa do Mundo e três torneios continentais. Revelado pelas categorias de base do Santos, o atacante profissionalizou-se ainda aos 17 anos e estreou pela Seleção principal em 2010, antes mesmo de completar 18. Desde então, tornou-se o maior artilheiro da história do Brasil, superando o recorde que pertencia a Pelé.
Em Mundiais, Neymar soma oito gols distribuídos entre 2014, 2018 e 2022 — três Copas consecutivas com a camisa 10. Se entrar em campo no torneio de 2026, como se espera, disputará seu quarto Mundial com o número mais icônico da Seleção, igualando a marca de Pelé, que vestiu a 10 nas edições de 1958, 1962, 1966 e 1970. É um dado histórico que vai além da artilharia: é uma sobreposição de simbolismo e continuidade geracional raramente vista no futebol.
O retorno ao elenco — após um período de ausências motivadas por lesões graves — foi confirmado por Ancelotti na convocação divulgada no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. O técnico italiano, que estreou no comando da Seleção em junho de 2025 no empate sem gols com o Equador pelas Eliminatórias, teve 10 jogos para avaliar seu elenco antes de definir os 26 nomes. Neymar, em recuperação de lesão, viajou com o grupo para os Estados Unidos no dia 1º de junho e registrou o embarque nas redes sociais com a legenda "Todos juntos".
A distância entre Neymar e os demais atacantes convocados
Quando se isola o setor ofensivo, o desequilíbrio estatístico fica ainda mais evidente. Entre os atacantes convocados — excluindo meias e defensores com gols —, Raphinha aparece em segundo lugar com 11 gols, seguido por Vinícius Júnior com oito. Gabriel Martinelli tem quatro, Endrick três, Luiz Henrique dois, Matheus Cunha e Igor Thiago um cada. Rayan, o mais jovem do grupo, ainda não balançou as redes pela Seleção principal.
Somados, esses oito atacantes — sem contar Neymar — totalizam 30 gols. O camisa 10 tem quase o triplo disso sozinho. Mesmo expandindo para todo o grupo de campo, a conta não fecha: Lucas Paquetá lidera os demais com 12 gols, Casemiro tem oito, Marquinhos sete. Jogadores como Léo Pereira, Fabinho, Ibañez, Wesley e Douglas Santos jamais marcaram pela Seleção principal. A concentração goleadora em Neymar — 54,8% do total histórico dos convocados — é um dado que qualquer análise de dependência tática precisa processar.
"Ele é um grandíssimo goleiro. Acho que vem demonstrando nesses últimos anos a sua qualidade" — a frase é de Dida sobre Alisson, mas a lógica se aplica ao debate em torno de Neymar: a qualidade acumulada ao longo de anos cria uma expectativa que não se apaga por lesões ou ausências.
A Era Ancelotti — os 10 jogos disputados entre junho de 2025 e março de 2026 — produziu 13 gols, com Estêvão liderando a artilharia com cinco. O problema é que Estêvão está lesionado e não foi convocado para a Copa, assim como Rodrygo e Éder Militão. Três dos jogadores mais utilizados pelo técnico nos amistosos preparatórios ficaram fora da lista definitiva por razões físicas — o que reforça, por contraste, o peso do retorno de Neymar.
O que os 79 gols projetam para o Brasil no Grupo C
O Brasil estreia na Copa do Mundo no dia 13 de junho — três dias a partir desta publicação, registrada pelo SportNavo — contra o Marrocos, no MetLife Stadium, em East Rutherford, Nova Jersey. O Grupo C é completado por Escócia e Haiti, adversários com perfis defensivos distintos: a Escócia historicamente organizada taticamente, o Haiti com limitações técnicas evidentes no contexto global.
A questão central não é se Neymar marcará gols — é quantos minutos estará disponível para jogar. O atacante chegou à concentração ainda em processo de recuperação de lesão, e sua condição física é monitorada de perto pela comissão técnica. Ancelotti, que em 10 jogos à frente da Seleção nunca pôde contar com Neymar disponível, terá pela primeira vez a oportunidade de escalar o maior artilheiro da história do Brasil numa Copa do Mundo.
Se Neymar marcar pelo menos dois gols no torneio — meta conservadora para um atacante com seu histórico em Mundiais —, chegará a 81 gols pela Seleção e ampliará ainda mais a distância em relação ao segundo colocado histórico. A diferença entre ele e os demais convocados, já expressiva hoje, tende a crescer a cada partida que ele disputar. O Brasil joga a segunda rodada do Grupo C no dia 19 de junho, contra o Haiti, no Lincoln Financial Field, na Filadélfia — e é nesse jogo que Ancelotti provavelmente terá Neymar em condições plenas de jogo pela primeira vez numa fase de grupos de Copa do Mundo desde 2014. Em 19 de junho saberemos se os 79 gols começam a virar 80.








