Os maiores astros da Copa do Mundo chegam ao torneio mais importantes de suas carreiras carregando a mesma contradição: são insubstituíveis e frágeis ao mesmo tempo. Neymar, 33 anos, realiza até três sessões diárias de recuperação no CT do New York Red Bulls, em Morristown, Nova Jersey. Lionel Messi, que completa 39 anos no dia 24 de junho, foi testado em amistoso contra a Islândia com minutos ainda indefinidos pela comissão técnica argentina. Dois homens, dois países, um mesmo relógio.

A rotina silenciosa de Neymar em Nova Jersey

Desde que os exames diagnosticaram uma lesão grau 2 na panturrilha esquerda, o camisa 10 brasileiro passou a cumprir uma rotina que poucos atletas aceitariam sem resistência. Três períodos de atividade por dia, coordenados pelo fisioterapeuta particular Rafael Martini e por Cristiano Nunes, coordenador de preparação física da Seleção Brasileira. A dedicação de Nunes ao caso foi tão intensa que ele sequer viajou para Cleveland acompanhar o amistoso contra o Egito, disputado no último sábado, 6 de junho.

Um dos equipamentos centrais do processo é uma esteira antigravidade, tecnologia desenvolvida originalmente pela NASA, que reduz o impacto sobre a musculatura lesionada e permite progressão segura das cargas. A expectativa é que Neymar inicie trabalhos no gramado do CT do New York Red Bulls ainda nesta semana. Caso não haja intercorrências, o jogador pode ser relacionado para a partida contra o Haiti, marcada para 19 de junho, na Filadélfia.

Há uma dimensão econômica e simbólica nesse esforço que merece atenção. A CBF e os patrocinadores da Seleção construíram ao longo de anos uma narrativa em torno da figura de Neymar como ativo de audiência e de receita. Uma Copa sem ele não é apenas uma ausência técnica — é uma variável que afeta contratos de transmissão e o engajamento de torcedores que, como no trânsito da Avenida Paulista às 18h, não param por nada, mas esperam por uma saída.

O ciclo que persegue Messi desde 2023

A situação argentina tem contornos distintos e, sob certos aspectos, mais preocupantes do ponto de vista clínico. Messi sentiu um desconforto muscular na coxa esquerda no dia 24 de maio. O técnico Lionel Scaloni confirmou a participação do jogador no amistoso contra a Islândia, mas com tempo de jogo ainda a ser definido em conversa com o próprio atleta.

"O Messi vai jogar contra a Islândia. Não sei por quantos minutos. Ainda vamos conversar com ele e veremos quanto tempo será para não haver nenhum risco", declarou Scaloni na véspera do confronto.

O cuidado extremo tem razão documentada. Em setembro de 2023, Messi sentiu a região posterior da coxa direita a serviço do Inter Miami, tentou o retorno em 20 de setembro e reclamou novamente do mesmo local — uma recaída que custou mais três jogos de ausência. O padrão se repetiu em agosto de 2025, desta vez com a coxa esquerda. Dois ciclos de lesão, tratamento, retorno e nova lesão em menos de três anos.

O ex-médico do Palmeiras Rubens Sampaio ofereceu uma leitura técnica precisa sobre o fenômeno: a área cicatricial de uma lesão anterior fica com fibras menos elásticas, mais presas, com menor capacidade de alongar e contrair de forma coordenada. Somado a isso, há o fator etário — Messi completa 39 anos durante o próprio torneio.

"Há o fato de o jogador ter uma lesão anterior no mesmo local, então essa área cicatricial fica vulnerável. O outro fator é a idade", analisou Sampaio, acrescentando que a experiência de Messi o torna capaz de administrar o problema de forma diferente de um atleta mais jovem e inseguro.

O que a presença ou ausência de cada um significa para o torneio

A Copa do Mundo de 2026 reúne 48 seleções e 104 jogos disputados em três países. A densidade do calendário cria um cenário de pressão física acumulada que já preocupa comissões técnicas de toda a competição — conforme registrado pelo SportNavo em cobertura da fase preparatória. Algumas seleções dos grupos I, K e L terão apenas quatro dias de descanso entre a segunda e a terceira rodada da fase de grupos, um intervalo que fisiologistas como Cláudio Pavanelli, ex-coordenador científico do Flamengo, consideram no limite do aceitável.

Para o Brasil, a estreia ocorre no dia 13 de junho contra o Marrocos, em New Jersey, sem Neymar disponível. Carlo Ancelotti já afirmou ter equipe definida na cabeça, mas mantém segredo sobre a formação — em 12 partidas à frente da Seleção, produziu 12 escalações diferentes. A ausência do camisa 10 força o treinador italiano a redistribuir responsabilidades criativas entre Vinicius Jr., Raphinha e Rodrygo.

Para a Argentina, a questão é diferente em natureza. Messi não é apenas o principal criador da equipe — é o eixo em torno do qual Scaloni constrói cada plano de jogo desde 2018. Uma recaída muscular durante o torneio não seria apenas uma perda técnica. Seria a interrupção abrupta do que pode ser, em termos históricos, a última Copa do mundo do maior jogador de todos os tempos.

O amistoso contra a Islândia funciona, portanto, como um termômetro clínico de alto risco. Se Messi encerrar o jogo sem queixas, a Argentina chega à estreia do Mundial com seu principal ativo disponível. Se o ciclo de recaídas se repetir pela terceira vez em três anos, Scaloni terá de refazer planos em questão de dias. O teste já aconteceu — e o resultado vai definir a estratégia argentina para as próximas semanas.