O corredor estava quase vazio. Uma máquina estranha, com uma espécie de saia inflável na cintura e sensores nas laterais, zumbia baixinho no centro da sala. Dentro dela, Neymar caminhava — sem o peso real do próprio corpo, sem o impacto que a panturrilha direita ainda não suporta. Era sábado, 6 de junho, na concentração da Seleção Brasileira em Nova Jersey. E o camisa 10 estava literalmente suspenso entre o chão e a Copa do Mundo.

A esteira que veio do espaço para salvar o número 10

O equipamento não é ficção científica. A esteira antigravidade — desenvolvida originalmente pela NASA para reabilitação de astronautas após longas missões — funciona vedando a cintura do atleta com uma câmara de ar inflável. A partir daí, controla a porcentagem do peso corporal que incide sobre as pernas, permitindo que a equipe médica aumente a carga de forma gradual, sessão por sessão. Neymar entrou na máquina no sábado como parte de um protocolo intensificado para acelerar a recuperação da lesão muscular na panturrilha direita. Na segunda-feira, dia 8 de junho, um novo exame de imagem vai definir se ele recebe liberação para iniciar a transição para o campo. O Brasil estreia contra o Marrocos no próximo sábado, dia 13.

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A esteira que veio do espaço para salvar o número 10 Neymar usa esteira da NASA
A esteira que veio do espaço para salvar o número 10 Neymar usa esteira da NASA

Clubes brasileiros como Cruzeiro e Flamengo já utilizam esse tipo de equipamento há mais de uma década. Mas ver a tecnologia sendo usada às vésperas de uma Copa do Mundo, com o jogador mais simbólico do país dentro dela, dá à cena uma dimensão que vai além da fisioterapia. É uma corrida contra o relógio — e o relógio está na parede, bem visível.

Na mesma noite de sábado, nas redes sociais, outra imagem chamou atenção. O cabeleireiro de Neymar publicou um vídeo mostrando o novo visual do atacante: um corte mais curto, limpo, que remete diretamente ao estilo que ele usou na Copa de 2018, na Rússia. A internet parou. Para muitos torcedores, o gesto foi lido como sinal — o jogador se preparando mentalmente para entrar em campo, mesmo que o corpo ainda esteja em compasso de espera.

Ancelotti já bateu o martelo sem esperar pela resposta médica

Enquanto Neymar corria na esteira antigravidade, Carlo Ancelotti estava a alguns metros de distância, diante de jornalistas, com a voz calma de quem já tomou uma decisão difícil e dormiu bem depois. Após a vitória sofrida por 2 a 1 sobre o Egito, em amistoso realizado em Cleveland, o técnico italiano foi direto:

"Eu tenho a escalação inicial para jogar contra o Marrocos. Tenho uma ideia clara. Eu acho que a dupla Vinicius e Raphinha funcionou muito bem. Porque combinaram bem, tivemos oportunidades. Eu acho que a partida dos dois foi muito boa."

Vinicius Jr. e Raphinha no ataque. Essa é a aposta de Ancelotti para a estreia. A dupla mostrou entrosamento contra o Egito, criou as melhores chances e deu ao técnico a segurança que ele precisava para não deixar a vaga em aberto enquanto espera pela evolução clínica do camisa 10. O recado foi dado sem rodeios, com a clareza de quem não quer que a ansiedade coletiva sobre Neymar contamine o planejamento do grupo.

O resultado contra o Egito, contudo, deixou uma sombra. O 2 a 1 foi suficiente para a vitória, mas a defesa vacilou em momentos que a comissão técnica não gostou de ver. O gol sofrido acendeu uma luz amarela nos bastidores: contra o Marrocos, uma equipe compacta e disciplinada taticamente, qualquer brecha pode custar caro. Ancelotti sabe disso. E é justamente por isso que o foco desta semana, segundo pessoas próximas à delegação, está dividido entre a recuperação de Neymar e o ajuste defensivo.

O que muda se Neymar for liberado — e o que muda se não for

O exame de segunda-feira é o ponto de virada. Se os resultados indicarem evolução satisfatória, Neymar iniciará atividades de menor impacto no gramado ainda nesta semana, com progressão gradual até o limite que a comissão médica estabelecer. Entrar no jogo contra o Marrocos, mesmo que por alguns minutos, ainda é um cenário possível — mas longe de garantido.

O grupo se reapresentou na noite deste domingo na concentração de Nova Jersey, com folga concedida durante o dia. A semana que começa nesta segunda é decisiva: cinco dias separam o Brasil da estreia em uma Copa do Mundo que o país espera há 24 anos. Neymar já viveu esse peso antes — em 2014, saiu lesionado nas quartas. Em 2018, entrou em campo, mas o sonho terminou nas semis. Agora, aos 34 anos, o contexto é outro: há um técnico que já escalou o time sem ele, dois atacantes que provaram funcionar juntos e um exame de imagem que vai responder, em pixels e ressonância, o que a torcida quer saber desde que a convocação foi anunciada.

Conforme apurado em matéria do SportNavo, a tendência dentro da delegação é de cautela: ninguém vai forçar o retorno se o músculo não estiver pronto. O Brasil estreia na Copa do Mundo no sábado, dia 13 de junho, contra o Marrocos, às 19h (horário de Brasília). Neymar ou não, o forno já está quente — e a receita, desta vez, foi escrita por Ancelotti.