Quantos gamers brasileiros abriram o EA Sports FC 26 nos últimos dias esperando ver Neymar na Seleção e encontraram o goleiro Hugo Souza no lugar? A cena gerou até um post indignado nos fóruns oficiais da EA — alguém escreveu em caixa alta que a ausência do camisa 10 era "inadmissível" — e a empresa ouviu. Não no sentido literal, claro, mas o timing foi revelador: o update de 2 de junho chegou com Neymar, Matheus Cunha e Weverton, enquanto Hugo Souza e Éder Militão saíram do elenco virtual.

A razão técnica para a ausência inicial era simples: Neymar havia trocado o Al-Hilal pelo Santos, clube que não tinha licença no jogo. Com o retorno da Seleção Brasileira totalmente licenciada pela primeira vez em muitos anos — uniformes, escudo e elenco completo convocado por Carlo Ancelotti —, a EA precisou correr para ajustar o plantel. O modo The World's Game, lançado em 27 de maio, emula um torneio de Copa do Mundo com 48 seleções em formato de fase de grupos e mata-mata, mas a versão brasileira chegou com lacunas que só foram preenchidas depois.

E aí vem o problema — ou melhor, o dado que mais interessa ao jogador médio que quer montar seu time do Brasil no modo Carreira.

O que o overall 83 diz sobre onde Neymar está agora

Neymar aparece no EA FC 26 com nota geral 83 e quatro posições disponíveis: meia-atacante, ponta-esquerda, atacante e meia-central. Quem acompanhou a franquia nos anos de ouro do jogador — entre o FIFA 14, quando ele tinha 86, e o FIFA 20, onde chegou a 92 em edições especiais — vai sentir a diferença. Mas o 83 de hoje não é um insulto; é um reflexo honesto de um atleta que voltou ao futebol depois de meses parado, ainda se recuperando fisicamente.

O que o overall 83 diz sobre onde Neymar está agora Neymar volta ao EA FC 26 com
O que o overall 83 diz sobre onde Neymar está agora Neymar volta ao EA FC 26 com

O paralelo mais justo é o de Ronaldo Fenômeno no FIFA 2002: quando a franquia o colocou com 94, estava capturando o auge de um ciclo. Quando o mesmo jogador voltou à série anos depois com notas na casa dos 80, o dado contava outra história — não de decadência, mas de uma trajetória em reconstrução. Neymar está nessa segunda fase, e os algoritmos da EA costumam ser brutalmente honestos com isso.

Na hierarquia da Seleção virtual, o camisa 10 do Santos divide a liderança do futebol brasileiro com Arrascaeta, do Flamengo, ambos com 83. Logo abaixo vem Memphis Depay, com 80. Mas quando se olha o plantel completo do Brasil no jogo, o retrato é de uma equipe desequilibrada entre topo e base.

A Seleção no jogo revela três camadas de elenco

Os dados do update mais recente mostram uma estrutura clara. No topo absoluto estão Vinicius Júnior, Raphinha e Gabriel Magalhães, todos com overall 89 — o que os coloca entre os melhores jogadores de qualquer seleção no game. Marquinhos aparece com 87 e Bremer com 86, formando uma zaga virtualmente impenetrável.

A segunda camada, onde Neymar se encaixa junto com Matheus Cunha e o goleiro Ederson, todos com 83, representa jogadores que ainda têm peso de estrela mas perderam o status de intocáveis nas simulações. Casemiro e Fabinho aparecem com 82, João Pedro e Ibañez também. É uma geração de transição capturada num instante delicado.

A terceira camada revela um problema real: Wesley (79), Lucas Paquetá (79), Endrick (78) e Rayan (78) estão num intervalo que, em simulações de Copa, muitas vezes não decide jogos. Weverton, recém-adicionado, tem 77 — número razoável para um goleiro reserva, mas que posiciona o Grêmio como segunda opção no gol, atrás de Ederson com 83.

Curiosamente, Alisson, Bruno Guimarães e Gabriel Martinelli — todos convocados por Ancelotti para a Copa de 2026 — ainda não aparecem no game. Bento (78), Andrey Santos (80) e João Pedro (82), fora da convocação real, continuam no elenco virtual. Novos updates devem corrigir isso, mas por ora o Brasil do EA FC 26 e o Brasil de Ancelotti não são exatamente o mesmo time.

O retorno do Brasil licenciado e o que muda para os fãs

Há uma dimensão cultural nessa novidade que vai além do overall. A última vez que a Série A esteve no jogo de forma oficial foi no FIFA 14 — doze anos atrás. O FIFA 16 chegou a licenciar times individualmente, mas a liga como entidade ficou de fora. Para uma geração inteira de gamers que cresceu sem poder usar Flamengo, Palmeiras ou Santos com uniformes e escudos reais, o retorno tem peso simbólico.

São 32 jogadores do Campeonato Brasileiro disponíveis nesta atualização, distribuídos por nove clubes: Flamengo lidera com 9 representantes, Palmeiras tem 7, Atlético-MG tem 4, Internacional e Grêmio têm 2 cada, e Corinthians, Fluminense, Santos, Botafogo, Vasco, São Paulo, Athletico-PR e Bragantino contribuem com 1 atleta cada. No modo Carreira, esses jogadores aparecem como agentes livres e podem ser contratados sem custo — o que cria possibilidades táticas interessantes para quem gosta de montar elencos híbridos.

No Ultimate Team, alguns desses atletas ganharão cartinhas especiais. Neymar, com seu histórico na franquia e o apelo comercial que ainda carrega, deve ser um dos mais disputados. Mas o impacto imediato está no modo Torneio, onde o Brasil de Ancelotti — ainda que incompleto — já pode ser escalado para simular a Copa do Mundo com toda a identidade visual oficial. Para os fãs que passaram anos usando uma seleção genérica sem nome nem escudo, isso já muda tudo. A próxima rodada de updates, esperada para corrigir ausências como Alisson e Bruno Guimarães antes do início do torneio, vai definir se a versão virtual do Brasil finalmente espelha a equipe que Ancelotti levará a campo.