Um ponto em duas rodadas. Esse é o retrato numérico do Santos na fase de grupos da Copa Sul-Americana — a posição de lanterna do Grupo D que torna o duelo desta terça-feira (28), às 19h (horário de Brasília), diante do San Lorenzo, no Estádio Nuevo Gasómetro, em Buenos Aires, algo próximo de uma obrigação de resultado. Para tornar o quadro ainda mais tenso, a equipe entrou na semana sem garantias sobre a presença de seu jogador mais valioso: Neymar, afastado dos treinos no último domingo (26) por conta de uma virose confirmada pelo clube.

O retorno que o Peixe precisava

A confirmação de Neymar entre os titulares, divulgada pelo clube antes do embarque à capital argentina, representa muito mais do que a resolução de uma dúvida médica. Representa a recomposição do principal argumento ofensivo santista. O técnico Cuca vai a campo com sua melhor configuração disponível: Gabriel Brazão; Mayke, Lucas Veríssimo, Luan Peres e Escobar; Willian Arão e Oliva; Gabriel Bontempo, Neymar e Rollheiser; Gabigol. A escalação reúne, na linha de frente, dois dos contratados de maior impacto simbólico do futebol brasileiro na temporada.

Brazão retorna após ausência nos últimos dois jogos em razão do falecimento de seu pai no início da semana — circunstância que, por si só, evidencia a pressão humana e institucional que recai sobre o elenco neste momento. Igor Vinícius também está de volta após cumprir suspensão, enquanto Willian Arão foi preservado na rodada anterior do Brasileirão e agora reassume a posição de pivô de contenção no meio-campo.

O que Neymar altera na dinâmica ofensiva

A análise do SportNavo sobre o desempenho santista nas duas primeiras rodadas da Sul-Americana aponta um padrão claro: sem Neymar em plenas condições físicas, o Santos perde profundidade na transição e transfere ao Gabigol o ônus de criar e finalizar simultaneamente — função para a qual o centroavante não foi contratado. A presença do camisa 10 resolve esse gargalo estrutural ao redistribuir a responsabilidade criativa e liberar Gabigol para atuar mais próximo da área.

Historicamente, a dupla funcionou em contextos de alta pressão. Gabigol e Neymar compartilharam espaço na Seleção Brasileira em ciclos anteriores, e a familiaridade entre ambos no terço final do campo é um ativo tático que Cuca não tem em nenhuma outra combinação disponível no elenco. A questão, contudo, é física: Neymar vem de um quadro infeccioso que comprometeu ao menos 48 horas de preparação, o que torna qualquer projeção de rendimento pleno ao longo dos 90 minutos conservadora.

A história entre os clubes e o peso da tabela

Santos e San Lorenzo se enfrentaram seis vezes na história dos torneios sul-americanos, com três vitórias do Peixe, dois empates e uma derrota. O último duelo entre as equipes ocorreu em 13 de abril de 2021, pela Copa Libertadores, com empate em 2 a 2. A partida foi realizada no Estádio Mané Garrincha, em Brasília, em razão das restrições sanitárias impostas pela pandemia de Covid-19 — detalhe geográfico que confere à Praça da Vila Belmiro brasiliense uma pequena nota de curiosidade histórica para quem conhece a capital federal.

O contexto da tabela amplia a dimensão do jogo. Com um ponto conquistado até aqui, o Santos precisará, na aritmética mais básica, vencer as quatro rodadas restantes para se colocar em posição competitiva de classificação. Uma derrota nesta terça praticamente encerra o projeto continental da equipe antes de chegar à metade da fase de grupos — desfecho que teria implicações diretas sobre a receita gerada pela participação no torneio e sobre o capital político interno de um projeto esportivo que chegou à Vila Belmiro com enorme expectativa midiática e comercial.

Competição continental como variável econômica

A permanência na Sul-Americana não é apenas questão esportiva. Conforme levantamento do SportNavo com base nos demonstrativos financeiros publicados pela CONMEBOL, a participação de um clube na fase de grupos garante cotas mínimas que, no caso da Sul-Americana, giram em torno de US$ 600 mil — valor que sobe progressivamente a cada fase eliminatória alcançada. Para um clube ainda em processo de reequilíbrio financeiro como o Santos, a eliminação precoce em um torneio ao qual chegou com dois jogadores de contrato milionário representa um descasamento entre investimento realizado e retorno gerado que não passa despercebido nas salas de conselho.

Nas palavras do técnico Cuca, registradas pela imprensa antes da viagem a Buenos Aires, o time vai ao Nuevo Gasómetro com tudo que tem de melhor à disposição — frase que, por sua concisão, diz tanto sobre a confiança quanto sobre a escassez de alternativas. A partida desta terça é, portanto, o primeiro teste real de que a equipe santista tem capacidade de transformar potencial individual em resultado coletivo fora de casa. Se o Santos vencer o San Lorenzo no Nuevo Gasómetro, voltará ao Brasil ainda com possibilidade real de classificação, dependendo dos demais resultados do Grupo D nas rodadas seguintes.