O sorteio dos grupos da Copa do Mundo, realizado em dezembro de 2025, deixou uma marca que vai muito além dos confrontos definidos para 2026: a estreia do Prêmio da Paz da Fifa, criado pela gestão de Gianni Infantino e entregue a Donald Trump, acendeu um debate que chegou ao coração das federações europeias. A Federação Norueguesa de Futebol (FNF) foi a primeira a formalizar sua oposição, pedindo a abolição completa da premiação — e o movimento promete ganhar tração no Congresso da Fifa marcado para quinta-feira, 30.
Uma premiação sem processo, sem transparência
O Prêmio da Paz foi anunciado pela Fifa em novembro de 2025 com a missão declarada de "premiar indivíduos que realizaram ações excepcionais e extraordinárias pela paz e, ao fazê-lo, uniram pessoas em todo o mundo". O problema, como qualquer jornalista que cobre governança esportiva rapidamente percebe, está no que não foi dito: a premiação não passou pelo crivo do conselho administrativo da entidade, os indicados jamais foram divulgados, e os porta-vozes da Fifa se recusaram a explicar como e por quem o vencedor foi escolhido. É o tipo de opacidade que, num conselho de administração corporativo em Londres ou em qualquer comitê sério de Bruxelas, dispararia alarmes imediatos.
A forte relação pessoal entre Infantino e Trump — amplamente documentada e anterior à premiação — alimentou a leitura de que o prêmio teria sido criado como um consolation prize para o presidente americano, que havia sido preterido no Nobel da Paz. O grupo de defesa dos direitos humanos FairSquare não hesitou: enviou uma carta formal ao Comitê de Ética da Fifa apontando quatro "violações claras" do estatuto da entidade relacionadas à relação de Infantino com Trump. O Comitê recebeu ainda um pedido separado para investigar o mandatário por "violações repetidas" das normas de neutralidade política.

A voz de Klaveness e o argumento norueguês
Em entrevista ao portal The Athletic, publicada na segunda-feira, 27, Lise Klaveness, presidente da FNF e membro do comitê executivo da Uefa, foi direta ao ponto. Suas palavras merecem ser lidas sem filtro:
"Queremos que o Prêmio da Paz da Fifa seja abolido. Não acreditamos que faça parte do mandato da Fifa conceder um prêmio desse tipo. Acreditamos que já temos um instituto Nobel que realiza esse trabalho de forma independente."
O argumento de Klaveness é elegante em sua simplicidade: a Fifa é uma federação esportiva, não uma academia política. O paralelo com o Nobel da Paz, concedido pelo Comitê Norueguês do Nobel com critérios públicos, histórico auditável e independência institucional centenária, expõe o amadorismo — ou a conveniência — da criação da Fifa. Klaveness defende que a entidade deve manter uma "distância considerável" de líderes mundiais, uma postura que ressoa com o princípio básico de governance que qualquer federação europeia séria internalizou após os escândalos da última década.
O futebol não é o Nobel e nunca será
Quem acompanhou de perto a relação entre o esporte e a política na Europa nos últimos anos sabe que esta não é uma discussão nova. O debate sobre neutralidade política das federações esportivas — que ganhou força com as sanções à Rússia após 2022, com as questões de direitos humanos no Qatar e com o crescente ativismo de atletas em ligas como a Premier League — sempre esbarrou numa contradição central: como organizações que dependem de governos e patrocinadores estatais podem se proclamar politicamente neutras? A Fifa, ao criar um prêmio de paz sem processo transparente e entregá-lo a um chefe de Estado com agenda política específica, não resolveu essa contradição — ela a aprofundou.
Na avaliação do SportNavo, o episódio revela algo mais estrutural: Infantino construiu uma gestão baseada em relacionamentos pessoais com líderes mundiais — do Kremlin ao Golfo, de Washington a Riad — e o Prêmio da Paz é o reflexo mais explícito dessa lógica. O soft power do futebol é real e valioso, mas ele funciona quando o esporte mantém sua credibilidade. Quando a entidade máxima do futebol começa a distribuir prêmios sem critérios públicos para figuras politicamente divisivas, o capital simbólico do esporte se deprecia.
O que esperar do Congresso da Fifa
Klaveness estará presente no Congresso da Fifa na quinta-feira, 30, representando a Noruega — e deve levar o tema formalmente à pauta. A dirigente também apoia a denúncia ética contra Infantino, o que posiciona a FNF como um dos atores mais combativos dentro da estrutura da entidade neste momento. A questão concreta é se outras federações europeias — especialmente aquelas com peso político dentro da Uefa — se somarão publicamente ao apelo norueguês ou preferirão a diplomacia dos bastidores. O FairSquare, por sua vez, aguarda resposta do Comitê de Ética sobre o pedido de investigação, cujo prazo ainda não foi divulgado pela Fifa.








