Confesso: eu errei sobre o Japão. Em novembro do ano passado, quando a Seleção Brasileira perdeu por 2 a 0 em Tóquio num amistoso que parecia protocolar, eu escrevi numa coluna que aquilo era acidente de percurso — uma noite ruim de uma equipe ainda em formação sob Carlo Ancelotti. Hoje, às 14h no NRG Stadium de Houston, com o Brasil enfrentando o Japão num mata-mata da Copa do Mundo, percebo que o acidente era, na verdade, um aviso.
A estátua que Zico não planejou erguer
No início de 1991, quando Arthur Antunes Coimbra — o Zico — aceitou defender o Sumitomo Metals, clube que viria a se tornar o Kashima Antlers, a decisão causou espanto até dentro de casa. O futebol japonês era praticamente amador. Os times pertenciam a grandes corporações e a liga profissional sequer existia. Familiares do Galinho estranharam a escolha: um dos maiores jogadores da história brasileira trocando o prestígio europeu por um projeto que ninguém conseguia dimensionar.
O que se seguiu entre 1991 e 1994 é hoje capítulo obrigatório em qualquer análise sobre o desenvolvimento esportivo asiático. Dentro de campo, Zico elevou o nível técnico do Kashima de forma imediata. Fora dele, implantou uma cultura de profissionalismo que o clube absorveu como DNA. O Kashima rapidamente virou referência nacional e passou a ser modelo para a recém-criada J-League, inaugurada em 1993. Não por acaso, até hoje Zico é tratado como o maior personagem da história do clube — uma estátua em tamanho real na entrada do estádio eterniza sua presença no local onde tudo começou.
Mas talvez o legado mais duradouro seja invisível. Do Kashima nasceu o conceito conhecido como Spirit of Zico — uma filosofia que ultrapassa gerações e representa, nas palavras do próprio clube, trabalho, lealdade e respeito. Esses três termos estão gravados num mural inaugurado recentemente. São também, curiosamente, os três pilares que definem o futebol japonês que o Brasil vai enfrentar esta tarde.
O que o argentino chama de garra, o japonês chama de intensidade
Há uma distinção cultural que o futebol europeu demorou décadas para compreender e que a América do Sul ainda processa com dificuldade: o que para o argentino é garra — aquela combustão emocional, visceral, quase teatral — para o japonês é intensidade sistêmica, disciplina coletiva aplicada com precisão cirúrgica. São duas formas de competitividade igualmente eficazes, mas radicalmente diferentes em sua expressão. Zico, que viveu os dois mundos, foi o tradutor involuntário entre essas culturas.
O resultado dessa tradução está no campo. O Japão de Hajime Moriyasu chegou à Copa do Mundo de 2026 como a 17ª seleção do ranking FIFA, com vitória sobre a Inglaterra em março deste ano e uma fase de grupos que incluiu empates contra Holanda (2 a 2) e Suécia (1 a 1). Ancelotti, que raramente concede elogios gratuitos, foi direto na véspera do jogo:
"O Japão é muito competitivo, é o número 17 do mundo, bateu a Inglaterra em março. É um jogo como uma final. Está forte. Somos conscientes de que essa partida precisa ser jogada muito bem. Lembramos que o Japão nos ganhou em novembro, jogando muito bem no segundo tempo."
Éder Militão, lesionado e fora do Mundial, reforçou o alerta de dentro do grupo:
"Pra mim, o Japão vive um dos melhores momentos que estão vivendo como equipe e como jogadores. Eles estão mostrando que estão aí no jogo, têm jogadores bons. Tem que tomar cuidado, porque eles estão correndo o tempo todo."Os principais nomes que preocupam a comissão técnica brasileira são Daichi Kamada, meia do Crystal Palace com gols contra Holanda e Tunísia nesta Copa, e Ayase Ueda, centroavante do Feyenoord que chegou ao torneio com 26 gols em 40 partidas na temporada 2025/2026 pelo clube holandês.
Zico torce pelo Brasil, mas o Japão carrega sua alma
Quando perguntado sobre o duelo desta segunda-feira, Zico foi preciso e sem rodeios:
"Eu vou torcer para o Brasil, sou brasileiro, pô! Agora, se ganhar o Japão, paciência. O que eu tenho certeza é que vai ser uma grande partida, porque o time do Japão joga o jogo."A frase carrega mais do que lealdade nacional — carrega o reconhecimento de quem ajudou a construir o adversário.
Felipe Melo, em análise publicada pelo SportNavo e reforçada no programa Seleção SporTV no último domingo, foi na mesma direção: previu vitória brasileira por 2 a 0, mas alertou que seria surpresa ver uma goleada. "O futebol evoluiu. Já se foi o tempo em que jogávamos e ganhávamos de três, quatro, cinco a zero", disse o ex-jogador. O próprio Marquinhos, zagueiro e capitão, evocou a eliminação para a Croácia em 2022 como parâmetro de humildade: "Na última Copa do Mundo, fomos eliminados pela Croácia, mesmo com muita gente dizendo que éramos uma seleção superior. O futebol é assim: tudo precisa ser mostrado dentro de campo."
O Brasil chega ao NRG Stadium após liderar o Grupo C com sete pontos — duas vitórias e um empate — e dois jogos consecutivos sem sofrer gols. Ancelotti deve repetir pela primeira vez em 16 jogos à frente da equipe a escalação que funcionou contra a Escócia: Alisson; Danilo, Marquinhos, Gabriel Magalhães e Douglas Santos; Casemiro, Bruno Guimarães e Lucas Paquetá; Rayan, Vini Jr e Matheus Cunha. O jovem atacante Rayan, aliás, admitiu com sinceridade que conhecia pouco os japoneses — e foi honesto o suficiente para arrancar risadas dos jornalistas ao ser questionado sobre nomes do elenco adversário.
A síntese deste duelo é, no fundo, uma história de paternidade esportiva que virou rivalidade. Zico foi a semente; o Japão foi o solo; três décadas foram o tempo de cultivo. O que o Brasil enfrenta hoje em Houston não é uma seleção exótica ou imprevisível por acidente — é uma equipe construída sobre princípios que um carioca de Quintino exportou num momento em que ninguém apostava naquele projeto. Vencer esta tarde significa derrotar, em alguma medida, a própria herança que o Galinho deixou no Oriente. É como entrar numa cozinha onde você mesmo ensinou a receita e precisar provar que ainda a domina melhor do que o aprendiz.








