Se você precisasse resumir em um único número a diferença entre uma seleção consolidada e uma em ascensão, esse número seria 14 — os meses sem derrota em amistosos que Marrocos carrega até este domingo. Não é um dado decorativo. É a radiografia de um projeto que começou a ganhar musculatura real depois do semifinal surpreendente na Copa do Qatar, em 2022, quando os Leões do Atlas eliminaram Portugal e Espanha antes de ceder ao campeão Mbappé. Naquele torneio, Marrocos terminou com apenas 4 gols sofridos em 6 jogos — o menor índice entre os quatro semifinalistas.

Esse contexto torna o amistoso deste domingo, às 16h (de Brasília), no Sports Illustrated Stadium, em Nova Jersey, muito mais do que aquecimento de pré-temporada. Copa do Mundo começa em seis dias para os marroquinos — a estreia é justamente contra o Brasil no dia 13 de junho, no mesmo estado americano. A Noruega, por sua vez, abre sua campanha no Grupo I no dia 16, contra o Iraque, em Boston. Dois adversários diretos de gigantes do futebol mundial, usando este duelo como última prova de resistência.

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Como Marrocos construiu uma muralha defensiva que o Brasil vai precisar derrubar
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Walid Regragui herdou um time e devolveu uma mentalidade. O técnico marroquino, que assumiu em 2022 logo antes do Qatar, montou uma estrutura que lembra, em alguns aspectos, o Atlético de Madrid de Diego Simeone entre 2012 e 2014 — bloco baixo, transições verticais em velocidade e aproveitamento máximo de bolas paradas. Naquele ciclo do Atleti, Courtois sofreu apenas 26 gols em 38 rodadas da La Liga 2013/14, o que rendeu o título espanhol. Regragui não tem Courtois, mas tem Yassine Bounou, goleiro que defendeu o Sevilla e hoje está no Al-Hilal, com reflexos que já humilharam Benzema e Lewandowski em jogos europeus.

A largura do campo marroquino é ocupada por Achraf Hakimi, do PSG, e por Noussair Mazraoui, que chegou ao Bayern de Munique vindo do Ajax em 2022. Essa dupla de laterais tem mais de 200 jogos combinados em Champions League — um dado que coloca Marrocos num patamar técnico que poucas seleções africanas alcançaram historicamente. A distância entre o nível de Hakimi e o de um lateral médio de Copa do Mundo é algo como a distância entre Recife e Porto Alegre: dá para percorrer, mas você sente cada quilômetro.

No meio-campo, Sofyan Amrabat — que passou pela Fiorentina e pelo Manchester United — organiza a saída de bola com uma eficiência que os números confirmam: em 2023/24, ele registrou 89% de precisão nos passes na Premier League, número superior ao de muitos volantes titulares das seleções europeias. A tendência tática de Regragui é pressionar a saída de bola adversária, forçar o erro e converter em transições rápidas pelos flancos.

"A equipe que treina comigo sabe que cada detalhe conta. Não existe jogo fácil na Copa do Mundo, e qualquer amistoso é uma oportunidade de refinar o que já construímos", disse Regragui em entrevista coletiva antes do embarque para os Estados Unidos.

A geração norueguesa que chegou para incomodar a França de Mbappé

A Noruega não estava numa Copa do Mundo desde 1998, quando perdeu para a Itália nas oitavas de final em Marselha — gol de Vieri, 1 a 0, fim de papo. Vinte e oito anos depois, a seleção escandinava retorna com um perfil radicalmente diferente: mais vertical, mais física e com um centroavante que redefine o conceito de predador de área no futebol contemporâneo.

Erling Haaland, com 25 anos e mais de 80 gols pelo Manchester City em pouco mais de três temporadas na Premier League, é o nome que qualquer defesa respeita. Mas a Noruega de Ståle Solbakken não é um time de um homem só. Antonio Nusa, do Club Brugge, e Sander Berge, do Burnley, formam uma geração que cresceu assistindo ao Guardiola do Barcelona e ao Klopp do Liverpool — e assimilou conceitos de pressing e posse que seriam impensáveis para a Noruega dos anos 90, quando o estilo era mais direto e menos elaborado.

O desafio norueguês no Grupo I é considerável: a França de Didier Deschamps, mesmo com algumas turbulências recentes na seleção, ainda tem Mbappé, Camavinga e Tchouaméni como espinha dorsal. No entanto, a Noruega já bateu a França por 2 a 0 em setembro de 2023, em Oslo, em jogo das Eliminatórias Europeias — resultado que Deschamps classificou como "inaceitável" na coletiva pós-jogo.

"Somos uma equipe diferente da que jogou contra a França há três anos. Crescemos juntos, entendemos o que é preciso fazer em alto nível", declarou Haaland ao canal oficial da FIFA durante a semana de preparação.

O que este amistoso projeta para os grupos C e I da Copa

Amistosos de preparação têm reputação ambígua na história das Copas. A Alemanha perdeu para a Áustria por 2 a 1 em junho de 2018 e foi eliminada na fase de grupos daquele Mundial. A Itália venceu a Finlândia por 3 a 0 em amistoso antes de 2006 e levantou a taça. Os resultados isolados enganam; o que importa é o padrão de jogo que uma seleção consegue manter sob pressão.

Nesse sentido, o duelo no Sports Illustrated Stadium funciona como um termômetro de dois sistemas táticos distintos. Marrocos precisará responder a uma pressão alta norueguesa — algo parecido com o que o Brasil tentará fazer em 13 de junho. A forma como Regragui gerencia essa pressão, seja pelo jogo aéreo de Haaland ou pela velocidade nas transições da Noruega, dará pistas concretas sobre a resiliência defensiva que os marroquinos apresentarão diante da Seleção. Conforme apurado em matéria do SportNavo, a preparação marroquina nos últimos 14 dias focou especificamente na marcação de jogadores de elite em espaços reduzidos — exatamente o cenário que Vinicius Jr. e Rodrygo costumam criar.

Para a Noruega, a lógica é inversa. O Grupo I tem a França como principal favorita, mas Senegal — campeão africano em 2021 e com Sadio Mané ainda influente no ataque — representa um obstáculo físico e tático que nenhuma equipe europeia deve subestimar. Jogar contra Marrocos, com sua disciplina defensiva e velocidade nas saídas, é o ensaio mais próximo possível do que Haaland e companhia encontrarão nas semanas seguintes.

Marrocos estreia contra o Brasil no dia 13 de junho, no MetLife Stadium, em East Rutherford, New Jersey — a mesma arena que receberá a final da Copa do Mundo em 19 de julho. Está pronto para ser adversário respeitável — falta o palco confirmar.